Há afectos que deixam sobre as pessoas uma áurea abençoada, milagrosa ou mágica e a fazem transparecer uma espécie de encantamento característico do sentimento que estão a viver.
Amar arrebatadamente, dizia-me hoje alguém, embeleza.
Atravessando a passadeira de peões com o vestido lilás desenhado às formas redondas do amor redondo que lhe habita a alma, notou que o condutor do Fiat vermelho que ali parou, para lhe permitir a passagem lhe seguiu os passos moderados com o olhar, até deixar descair a embraiagem do carro.
Ainda assim, colocou a cabeça para fora da janela, por forma a não perder a perspectiva traseira do seu percurso.
Vários carros em fila atrás buzinaram e alguém gritou :
"Ah Salomé que tu és, ainda perde o homem a cabeça na janela ..."
Era suposto a observação produzir alguma irritação. Mas não, todos se riram.
Já ela, logo "viajou" até SALOMÉ ...
Com efeito, recordou...
Salomé, filha de Herodias e sobrinha do tetrarca da Galileia - Herodes Antipas pela sua beleza e sendo de estirpe real, teria nascido para fazer feliz qualquer mortal, mas o capricho de exigir a cabeça de João Baptista, transformou-a numa proscrita: a jovem que, sob um ar angelical, seria possuidora da pior das perfídias, por usar o dom da sedução e o erotismo para conseguir os seus propósitos.
A Natureza, rezam os historiadores e a lenda, dera-lhe dons magníficos – um corpo escultural, cabelos negros sedosos, olhos de pantera, boca, braços e pernas perfeitos, como os de uma Vénus – e, foi todos estes atributos que usou para mandar executar João Baptista.
Herodes Antipas, nascido no ano 10 a. C., era filho de Herodes o Grande. Calígula, Imperador romano, dera-lhe o governo da Galileia e de Pereia. Herodes Antipas repudiara a mulher legítima e passara a viver com Herodias sua cunhada, ignorando a proibição legal que o impedia.
O incesto foi e é, desde tempos imemoriais e em muitíssimas culturas, em diversas partes do mundo, condenado como crime grave.
Mas, Herodes e Herodias viviam um idílio só interrompido pela voz de um homem estranho, de nome João, que, vindo do deserto, parecia disposto a perturbar o tetrarca e a recente mulher.
João, filho de Zacarias e Isabel, primo de Jesus de Nazaré, sem qualquer poder visível, tinha uma imensa multidão que o seguia, que ouvia as suas palavras e não deixava de clamar contra Herodes e Herodias, pelo modo desregrado em que viviam.
A bela Salomé, filha de Herodias, que fora viver com a mãe para o novo palácio, depois de o pai ter sido preso injustamente pelo irmão, passeava, cheia de mistério, com vestes finas, deixando tudo e todos envoltos no poder da sua sensualidade, a que não ficavam alheios os olhos do tio, dos guardas e de todos os servidores do palácio.
A beleza desta jovem teria um imenso poder.
Tem-se como certo que esta bela jovem da Galileia teve existência real.
Para lá dos mitos criados nos mais de 20 séculos passados sobre a sua morte, Salomé mantém-se uma figura histórica inesquecível e para sempre ligada ao nome de João Baptista porquanto determinou Herodes a sentenciar-lhe a morte.
O historiador hebreu Flávio Josefo refere-se a ela, dizendo:
Aquela que pediu, por conselho da mãe, Herodias, a cabeça de S. João Baptista, por ter dançado airosamente" (Tesouro Bíblico ou Dicionário Histórico - do Antigo e Novo Testamento, p. 263, Lisboa, 1785).
Bem ponderada a história, pérfida foi a mãe de Salomé.
Ela foi só uma criança, utilmente tola, por aquela aproveitada, parece-me.
Nos nossos dias em que todos os parâmetros de avaliação das relações humanas estão tão modificados. Defende-se até o direito a amar e casar com pessoa do mesmo sexo, será que JOÃO teria para HERODES o mesmo discurso de então ?
Suspeito que sim...
A lei civil, considerando a afinidade como a relação estabelecida com os parentes do cônjuge, ainda hoje lhe atribui efeitos jurídicos muito importantes.
Havendo até quem pretenda alargá-los às meras uniões de facto .
Isto tudo a propósito de um Fiat vermelho sobre uma passadeira próxima, claro ...
Maria