sábado, 22 de novembro de 2008

Quem pediu uma história ? !... Tire senha...

 

 


Joaquim, pelas 09:00h., chega a uma repartição de finanças, roupas de trabalho, mesclas de tinta nos braços despidos até ao cotovelo, apesar dos cinco graus centígrados que se fazem sentir fora.
Atarantado, olha em redor para os funcionários concentradamente embrenhados às secretárias e tenta um pxiu tímido , seguido de outro mais sonoro. Todas as atenções se centraram nele, mas no interior do balcão não alcançou sequer desconcentrar o olhar do PC ao funcionário mais próximo.
Então voltou-se para Elvira , envolta na cachemira azul do seu cascol, alma e corpo abafados por um veludo sumptuosamente negro que em forma de abafo a cobria até aos joelhos e ousou perguntar : desculpe eu tenho uma casita que fui fazendo e agora recebi uma carta a dizer que ma iam tirar. Que as finanças ficavam com ela. A Senhora sabe-me dizer como é que eles ( apontando o interior do balcão ) falam connosco ?
Elvira apontou-lhe um recipiente de forma estranha, similar a uma pequena mesa de pé de galo e disse-lhe : vá ali, tire uma senha e espere que eles chamam.
Joaquim agradeceu e fixou-se no dito recipiente das senhas . Apresentava vários botões com inscrições várias, num número de pelo menos 8. Entre essas notou :
A- iva

B- - irs
C - imt

D- imi

E- execuções fiscais

F- outros
E pensou : tantos botões ... e agora ? Que faço ? Tiro o primeiro.
Era o nº 213.
Aguardou, aguardou.
Pelas 10:30 h, voltou à Elvira : tem a certeza que chamam ?
- Absoluta, respondeu Elvira.
Aguardou, aguardou...
Pelas 12:03h. é atendido pela funcionária da senha A.
Expõe-lhe todo o problema e ela responde :

- Mas ó Senhor, o Senhor para tratar desse problema tinha que tirar a senha D. É assim, o Senhor se não sabia perguntava, agora eu não posso direccionar-lhe informaticamente a senha para o colega do IMI porque já são horas de almoço e o sistema não permite.

O Senhor volte às 14:00h. e tire uma senha D.
Joaquim sai e liga ao patrão :
-Mister ainda não fui atendido, só às 14:00h. ...
- Bem, estás a brincar comigo ? Queres que eu acredite que desde as 09:00h ninguém te atendeu nas Finanças ?...
Joaquim desfez-se a explicar a complexidade das senhas, que para falar só com senha, e não podia ser qualquer senha ...
- Oh patrãozinho se não resolvo isto, fico sem casa e se fico sem casa até perco a mulher. É garantido. E de volta os filhos... oh patrãozinho ...
- Bom isso da mulher é bem capaz...
Arranjavas outra, mas pronto, fica lá, mas quero-te cá no máximo às 15:30h.. Se não estiveres passa no escritório e faz a trouxa ...
Joaquim procurou a tasca mais próxima onde, de um só gole, bebeu pela garrafa uma " sagres" negra, deglutiu em três , quatro dentadas um pão com presunto e regressou à Repartição de Finanças.

Chegou ainda esta não reabrira portas, porém junto à entrada principal já se apresentavam em fila trinta e sete pessoas.
Notou entre elas o quente e aveludado abafo de Elvira . Aproximou-se e perguntou: que se passa?
Aconteceu alguma coisa?
Ela respondeu inexpressivamente :
-É fila. Vá para o fim da fila.
Ele lá foi.
Desta vez entrou na Repartição e gloriosamente exibindo uma senha D na sua mão, foi atendido pelas 16:10h. pela funcionária afecta ao IMI.
Contou toda a sua história. Lamentou-se, asperou-se porque lhe comunicaram uma "penhora" nem nunca previamente ter recebido nenhum " papel" para pagar.
-Não recebeu a notificação, perguntou a funcionária ? Olhe mas foi enviada e isso é o que a nós interessa...
Joaquim insistiu que nada recebera e que a ter recebido pagaria, como pretendia agora pagar.
-Agora ?Então mas o Senhor não vê que tinha que tirar a senha das "execuções fiscais"? O senhor não sabe ler ?
Pois então perguntasse, também lá há senha para "informações"...
Agora que quer que lhe faça ? Mesmo que o reenviasse para as "execuções fiscais", a tesouraria já fechou ...
Joaquim , em desespero, tentou a velha táctica bem nacional : dê um jeitinho... não posso voltar amanhã, o patrão se volto a faltar não só me corta o dia, mas despede-me.
-Olhe, isto não é o País dos jeitinhos... o senhor está mal habituado.
Qualquer patrão sabe que os empregados têm assuntos para pagar nas finanças ...
- Então e se eu vier pagar no dia da minha folga. Comprometo a honra...
Pode "parar" a penhora até lá ?
- Eu vou fazer de conta que não o ouvi. Já disse que este não é o País dos jeitinhos...
Joaquim cerrou os dentes, desfiou um chorrilho de palavras em calão e perante o espanto da funcionária exclamou : Diga-me então com que m ....a de senha poderá responder a esta pergunta : - Se torno a faltar ao trabalho fico sem emprego . Se não pago às finanças tiram-me a casa. O que é que eu faço ????!!!!!
Ao fundo da sala, um homem exausto pela espera, indignado com a demora do diálogo que Joaquim ali mantinha com a funcionária exclamou :
- Oh senhor , tire a senha, tire a senha. Isto já fechou, se o senhor tirar agora a senha, amanhã é dos primeiros. Desampare-nos a loja, homem. Vá lá tire a senha !!!
Eis a minha senha : "sem comentários meus senhores : o melhor de uma repartição de finanças muito perto de si ... "
Maria


terça-feira, 18 de novembro de 2008

Em liberdade ...


"Recomeça...

se puderes,

sem angústia

e sem pressa

e os passos que deres

nesse caminho duro do futuro,

dá-os em liberdade,

enquanto não alcançares

não descanses..."



Miguel Torga

F O I F A L T A !!!

Muito se tem falado nestes últimos dias em educação.
A Ministra quer avaliar para educar.
Os professores dizem que assim não há como educar...
Os miúdos que não são educados...
E para cúmulo, inconsequentes gastadores de recursos alimentares de primeiríssima necessidade...
Quantas tartes de ovos ficaram por criar...
Quanto arroz por atomatar ...
E porquê ?
Porque entenderam por bem ofertar os melhores daqueles preciosos alimentos...
Enfim, ao fim e ao cabo interessa contudo a quem tem filhos a estudar perceber afinal o que lhes acontece quando se lhes impõe legítima necessidade de faltar às aulas.
É FALTA ! Simplesmente, uma falta igual a qualquer falta...
Nem se compreende muito bem porque é que o legislador se preocupou em classificar as faltas como "justificadas" e injustificadas", quando dá depois o mesmo tratamento a umas e outras.
Senão vejamos.
A Lei nº 3/2008 de 18 de Janeiro que alterou a Lei nº 30/2002 de 20 de Dezembro consagra o que se decidiu chamar " Estatuto do Aluno".
É nessa Lei nº 3/2008 que o artº 19º consigna uma lista exemplificativa do que deve entender-se por uma falta justificada.
Naturalmente que ali está compreendida a falta por doença.
Ora a uma criança que esteve doente e por isso impossibilitada de ir à escola, por vezes com problemas graves de saúde já por si só tão condicionantes da motivação psicológica do aluno para estar nas aulas entre os seus pares em situação por vezes tão adversa, ainda impõe a lei esta consequência que prevê no artigo 22º do referido diploma . ( L. nº 3/2008)
Artigo 22º - Efeitos das faltas
1- Verificada a existência de faltas dos alunos, a escola pode promover a aplicação da medida ou medidas correctivas previstas no artº 26º...
2- Sempre que um aluno, independentemente da natureza das faltas, ( justificadas ou não) atinja um número total de faltas correspondente a três semanas no 1º ciclo , ou ao triplo de tempos lectivos semanais , por disciplina , nos restantes ciclos , deve realizar logo que avaliados os efeitos das medidas correctivas , uma prova de recuperação ...
Esta prova pode resultar , por si só, (dependendo do momento e dos factores vários que o determinarem) na retenção do aluno inserido no âmbito da escolaridade obrigatória
ou na exclusão do aluno que se encontre fora da escolaridade obrigatória...
Está escrito, preto no branco no artigo 22º da Lei nº 3/2008!
E isto só porque se teve a sorte de ficar doente !...
Ora convenhamos que é de lamentar os ovos e os tomates. Qualquer coisa que produzisse efeito mais contundente pareceria mais adequado.
É que todos estamos é claro vinculados a cumprir a lei. Porém a Constituição também consagra o direito fundamental de resistir a leis injustas...
Suponhamos que por infortúnio do destino Sua Exª o PM era acometido de uma pneumonia que lhe determinava várias faltas ao Conselho de Ministros. Parecer-lhe-ia bem a exclusão ... já está fora do âmbito da escolaridade obrigatória...
Legislar contra as pessoas tem um preço que a História já demonstrou por variadíssimas vezes.
Por enquanto, são os miúdos, no caso, aqueles que tenham o infortúnio de ter em falta a saúde que pagam a factura.

Meter tudo na ordem...


Fica demonstrado que Manuela Ferreira Leite não tem mesmo vocação humorística.

Definitivamente podem os quatro gloriosos gatos fedorentos esquecer a aspiração legítima, porém largamente ambiciosa de juntar à trupe uma gatíssima tão respeitável que lhes alinhasse um pouco os novelos e as novelas ...

Na ... esta definitivamente não sabe "fazer graças".

É verdade e devemos reconhecê-lo que o tema escolhido para satirizar está na senda do que mais recentemente faz subir audiências nos programas humorísticos de que é hoje em dia feito este País : as Instituições, o seu funcionamento. O funcionamento do Estado democrático ...

Sem dúvida, o tema é adequado.

A deixa é que foi francamente infeliz.

Eu que sempre lamentava a falta de uma pontinha de sentido de humor e graça na Senhora, penitencio-me.

É melhor a versão séria. Até porque não pode deixar de reconhecer-se à Senhora sério valor.

Agora... por favor ... incursões humorísticas não. Não é mesmo a sua onda ...

Pois que me desculpe qualquer coisinha quem se sinta tocar por estas singelas palavras, mas francamente, PSD, esteve mal.

Desta vez, francamente, mal !