quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

UM AMOR PARA A VIDA INTEIRA ...


Saio do banho, nua, tiritante. Procuro envolver-me no felpo da toalha.
Aproximo a boca húmida do espelho.
Fica baço.
Perco-me no nevoeiro do meu espelho e viajo nele como se fora um tapete de núvens de cristal.
Desço à terra , suavemente, percorrendo o espelho em movimentos regulares, circulares, profundos, deixando-lhe aposta a minha impressão digital.
Observo-a longamente.
Olho-a com a ternura de um olhar pré-nupcial.
É minha.
Exclusivamente minha.
A única coisa que estará comigo até que a morte nos separe …
Não se cansará de mim e eu sempre estarei ligada aos seus traços.
Não a trocarei por outra e nem ela colocará outra no meu lugar.
Por um segundo glorioso de beleza ou graciosidade.
Por anos intensos de sangue ou de dor, sempre será minha.
Não dividirá com mais ninguém a atenção dos seus traços tortuosos.
Será um amor tão singular, tão único que nunca deixará de estar comigo, de permanecer comigo …
A minha impressão digital …


Maria

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Pequena dor

Não convidei esta pequena dor,
Mas ela entrou...
Atravessou o pátio principal, abriu a porta,
Chegada à sala,
Sentou-se nos sofás da minha alma, vazia de ti.
Dividiu comigo refeições, à mesa,
Experimentou todos os assentos.
Leu por mim os livros que não consigo ler,
Escreveu-me palavras que não sei dizer.
Brincou com o sal das minhas lágrimas,
Para encher de mar a minha cama fria.
Então à noite, enquanto estou desperta,
Ela vem de mansinho, aninha-se à coberta
Mostra-me desenhos de escassos momentos,
Fracções intemporais de sentimentos
Em que com a tua boca,
Descobriste de ternura a minha pele
Entre os teus dedos prendeste os meus cabelos,
E eu conheci a textura da tua mão
Doce e suave sobre o meu peito nu.
E a tua boca sabia tanto a mel.
Esta pequena dor canta-me sempre,
Palavras de saudade e de lamento
E é tanta a agonia e o tormento
Que terei de a jogar fora
Pô-la, indelicadamente, na rua da alma
Quebrar o encantamento.
Se por força,
Não vencer esta pequena dor tão sobranceira:
pois que ela quer que morra, queira, não queira...
Se eu não vencer esta pequena dor
Talvez que ela me vença a vida inteira...

Maria

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

LIBERDADE


"Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional.
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia.

Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações - a liberdade! "

Antero de Quental, in 'Prosas da Época de Coimbra'

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Tua ...


A um coração

"Coração de Filigrana de Oiro"

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Ai! Pobre coração! Assim vazio
E frio
Sem guardar a lembrança de um amor!
Nada em teu seio os dias hão deixado!...
É fado?
Nem relíquias de um sonho encantador?


Não frio coração! É que na terra
Ninguém te abriu... Nada teu seio encerra!
O vácuo apenas queres tu conter!
Não te faltam suspiros delirantes,
nem lágrimas de afeto verdadeiro...
É que nem mesmo — o oceano inteiro —
Poderia te encher!...


Castro Alves

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Batendo á porta da loja ...

Confira mais:
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AI DOURO, DOURO... NAVEGAS SAUDADES

QUANTAS...

QUANTAS SAUDADES DE UM POUQUINHO SABOROSO, APIMENTADO,

CREMOSAMENTE DELICIOSO DE UM QUEIJINHO LIMIANO...

JÁ NÃO HÁ QUEM O FABRIQUE ?!...

DEFINITIVAMENTE HAVEREI DE BASTAR-ME COM TERRA NOSTRA ?!...

TODO O TEMPO É TEMPO

O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.

William Shakespeare





 

 

SONETO LXXXVIII
Quando me tratas mal e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.
Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.
Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,
Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.

William Shakespeare

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009




POR QUE TARDAS, meu anjo! oh! vem comigo.
Serei teu, serás minha... É um doce abrigo
A tenda dos amores!
Longe a tormenta agita as penedias...
Aqui, ao som de errantes harmonias,
Se adormece entre flores.


Quando a chuva atravessa o peregrino,
Quando a rajada a galopar sem tino
Açoita-lhe na face,
E em meio à noite, em cima dos rochedos,
Rasga-se o coração, ferem-se os dedos,
E a dor cresce e renasce...


A porta dos amores entreaberta
É a cabana erguida em plaga incerta,
Que ampara do tufão...
O lábio apaixonado é um lar em chamas
E os cabelos, rolando em espadanas,
São mantos de paixão.


Oh! amar é viver... Deste amor santo
— Taça de risos, beijos e de prantos
Longos sorvos beber...
No mesmo leito adormecer cantando...
Num longo beijo despertar sonhando...
Num abraço morrer.


Oh! amar é ser Deus!... Olhar ufano
O céu azul, os astros, o oceano
E dizer-lhes: "Sois meus!"
Fazer que o mundo se transforme em lira,
Dizer ao tempo: "Não... Tu és mentira,
Espera que eu sou Deus!"


Amemos! pois. Se sofres terei prantos,
Que hão de rolar por terra tantos, tantos,
Como chora um irmão.
Hei de enxugar teus olhos com meus beijos,
Escutarás os doces rumorejes
D'ave do coração.


Depois... hei de encostar-te no meu peito,
Velar por ti — dormida sobre o leito —
Bem como a luz no altar.


Te embalarei com uma canção sentida,
Que minha mãe cantava enternecida
Quando ia me embalar.


Amemos, pois! P'ra ti eu tenho nalma
Beijos, prantos, sorrisos, cantos, palmas...
Um abismo de amor...
Sorriso de uma irmã, prantos maternos,
Beijos de amante, cânticos eternos,
E as palmas do cantor!


Ah! fora belo unidos em segredo,
Juntos, bem juntos... trêmulos de medo,
De quem entra no céu,
Desmanchar teus cabelos delirante,
Beijar teu colo!... Oh! vamos minha amante,
Abre-me o seio teu.


Eu quero teu olhar de áureos fulgores,
Ver desmaiar na febre dos amores,
Fitos fitos... em mim.
Eu quero ver teu peito intumescido,
Ao sopro da volúpia arfar erguido
O oceano de cetim


Não tardes tanto assim... Esquece tudo...
Amemos, porque amar é um santo escudo,
Amar é não sofrer.
Eu não posso ser de outra... Tu és minha,
Almas que Deus uniu na balça edênea
Hão de unidas viver.


Meu Deus!... Só eu compreendo as harmonias,
De tua alma sublime as melodias
Que tens no coração.
Vem! Serei teu poeta, teu amante...
Vamos sonhar no leito delirante
No templo da paixão.


Castro Alves

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Mas então estes não apareceram depois dos DINOSSAURUS?



De qualquer forma um pouco de ADN poderia esclarecer melhor :)
Ah...Crer...Crer ajuda. Não é necessário pensar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Do bem , do mal ...


Desde que nascemos passamos a vida a tentar entender-nos.

Vivemos a esperança de entender os outros.


Não desistimos de procurar entender a quem amamos.


Desejamos que exista um Deus que nos entenda...


Não crer senão no homem, no indivíduo, como única medida de todas as coisas e admitir dolorosamente que existem coisas muito além das "nossas medidas"


Ou


Repousar o espírito, acalentar a alma, na crença de uma Entidade superior que tudo pode, tudo vê e o faz sempre, com adequação e justiça?!...


Admito que alguns dos meus neurónios têm sido massacrados por este dilema ao longo da minha vida.


Labirinticamente, como se da montagem diabólica de um artefacto insolucionável se tratasse, não encontro resposta que me vença...


Muito menos que convença ...


Hoje ao reler a síntese que transcrevo do Livro de Gênesis, não pude deixar de colocar-me uma questão :


Andarei eu por aí com uma costela de alguém ?


O seu darei a seu dono, a quem me demonstre legítima posse sobre esta costela que por aqui se aloja mesmo junto ao coração.


Faremos medições, comparações de massa óssea, de tamanho e ... quem sabe ... ( tamanho da costela, claro, nada de mal entendidos que temos no écran o nome de Deus...)


Contudo A QUESTÃO, a minha questão existencial não é essa. Não senhora.


Ora repare-se no texto transcrito :



*




"O primeiro homem da terra foi Adão.


Ele não nasceu como os outros homens, pois foi criado por Deus do pó da terra há aproximadamente 6.000 anos.


Depois de ter criado Adão à Sua imagem, Ele soprou em suas narinas e Adão tornou-se alma vivente.


Deus deu a Adão domínio sobre todos os animais que vivem sobre a terra e fez que todos temessem e obedecessem a Adão.


Deus não quis que Adão ficasse sozinho, então tirou uma de suas costelas e, a partir dela, formou Eva, para ser a esposa de Adão.


Deus deu a Adão e Eva um lindo jardim para viver chamado Éden.


Havia muitas árvores nesse jardim que davam bons frutos.


Havia também a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal.


Deus deu-lhes permissão para comer de todas as árvores, excepto da árvore do conhecimento do bem e do mal.


Disse-lhes para não comer, ou morreriam.
Satanás, usando a serpente como ajudante, enganou Eva.


Disse-lhe que comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal porque, assim, tornava a ser igual a Deus.


Vistos por Deus como pecadores, foram lançados para fora do jardim para envelhecer e morrer.
Antes do pecado, Adão havia lavrado apenas o jardim e vivia feliz com sua esposa.


Depois do pecado, Deus amaldiçoou a terra.


A terra produziu espinhos e cardos, e Adão teve que trabalhar arduamente para produzir comida.


Adão viveu 930 anos e teve muitos filhos e filhas (Gênesis 5:4-5).


Adão morreu, mas, por causa do seu pecado, a morte sobreveio a todos nós."




Como é bom de adivinhar a questão é esta : quem conheça do bem e do mal é como Deus!!!


Conhecer do bem e do mal confere o poder de ir além da medida maior de todo o poder humano.


Ao ser humano só o poder faz falta para ser mais do que é.


Para ir além da sua dimensão humana ...


Por isso quem dispõe de poder dispõe da vida, mesmo da vida dos outros.


Estão a ver, neste segundo, outro dos meus neurónios deu sinal de excesso de carga ...


A vida é um insondável mistério...


Cá andamos nós, tentando matar a charada ...


E a mim, o que será que me falta : conhecimento do bem, ou conhecimento do mal ?...


Certo . Aceito e dou de barato : pode nem ser de um ou de outro, pode ser outra coisa ...

domingo, 18 de janeiro de 2009

Por uma eternidade que não meço

A Lua surgiu, redonda, e distraíu-nos

(na janela sobre a magnólia),

estava quase a dizer: " Não és tu o amor .

Eu só quero agarrar-te, ter-te

por uma eternidade que não meço ".

Correram os dias, a Lua surgiu de novo

(no vento leve, sobre a magnólia)

e disseste-me : "Parto amanhã ",

com a voz de quem não quer ferir,

enquanto afunda no ventre uma faca .


E uma confusa vontade de me sumir:

Nem uma voz que me vem chamar


No poço vazio onde estou aninhado.


É morte isto que já me encerra.


A memória está desfeita. houve um tempo


( a quem pertenceu se nada resta ?)


Quando esperava pelo teu regresso


E sofria, chamava, e tu aparecias


Muito te rindo desse meu sofrer.



Elio Pecora, tradução de Simonetta Neto

sábado, 20 de dezembro de 2008

MORRE LENTAMENTE ...


 
Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar,
morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoínho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos. Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante...
Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade
PABLO NERUDA

 

domingo, 14 de dezembro de 2008