terça-feira, 5 de maio de 2009

Mostra-me a mão... dir-te-ei ... quem és ...

Sempre tive uma espécie de fetiche por mãos. Admito.
As coisas que se adivinham através de uma atenta observação das mãos de alguém …
O toque …
A textura …
Os traços…
A força ou a suavidade…
Traços que se configuram traços de alma …
É daquelas minudências em que me punha a pensar como se doutro mundo fosse, como se decifrasse um código de leitura textual da epiderme que ninguém mais alcançasse, ou seja, pensamentos que não são deste mundo, vistos sejam por que olhos sejam.
Eis senão quando encontro este site: http://www.dollyneder.com.br/quirologia/curso.htm
E fiquei mesmo convencida que andava cá ao engano.
Não era única nas minhas filosóficas deambulações a respeito das mãos e do que me parecia possível perceber a respeito de alguém através delas, mas, realmente, não parece bem coisa deste mundo…
A Quirognóstica: estuda as relações recíprocas entre certas formas e proporções da mão e determinadas modalidades do carácter e do temperamento humano.
Procuro antes de mais apreciar no texto do link como classificar a minha mão.
E vejo:
Mão elementar: Pessoas relacionadas com tarefas rudes. Indiferença por coisas que não sejam as necessidades essenciais.
Mão quadrada: Não são inspiradas. Sabem levar ao fim ideias dos outros. Assumem responsabilidades.
Mão espatulada: Possuidor de energia nervosa. Estas pessoas estão desenvolvidas em alto grau. Precisam fazer uso de suas mãos em actividades manuais.
Mão cónica artística: Termo médio entre a mão pontuda e quadrada. Aptidão para criar e realizar. Prazer em ver-se rodeada de beleza.
Mão mesclada (mista): Qualidades e defeitos segundo o formato dos dedos. Dispersa seus esforços e energias em diversas direcções.
É nesse momento que visto o fato de mergulho do motor do Google e vou a fundo na pesquisa de mãos famosas, conhecidas, pelo menos, poderosas…
Observei estas:
Mais estas:
Estas que em regra se revelam , particularmente, para cumprimentar ou acenar

Mãos sonoras ... mesmo quando invisíveis :


E estas :
Tive a maior das dificuldades em enquadrar em alguma das categorias referenciadas.
Noto que não são quadradas.
Também não são espatuladas (apesar de aparentemente se roerem unhas o que também indicia “nervosa energia”)
Mas, ainda assim, não as rotulo, pois de "cónico" nada têm também estas mãos.
Serão mistas, mescladas?
Bem, não digo mais, mas é nada, não vá sair processada por olhar a sua mão …
E estas?
Bom estas mãos, não sei bem também se cabem na dita classificação. Porém sem sombra de dúvida ganham o prémio da nação . Permitido dizer seja, Excelentíssimo Senhor, que bela mão !


(foto retirada da capa da revista da ordem dos advogados nº 53, de abril de 2009 )

domingo, 3 de maio de 2009

Arco Íris

Pintei a boca de verde, do verde a que chamam esperança

Veio o Outono, alaranjou-me a boca e a confiança


Pintei a boca de azul, do azul a que chamam céu


Veio o Inverno e a chuva rasgou-o tal qual um véu


Então pintei de vermelho, carmim, a que chamam fogo


Nem as chamas dos sentidos te devolveram de novo...


Fui samba, fui carnaval, palhaço e ilusionista,


Pus na boca o arco -íris que todo o olhar conquista.


Mas mesmo assim não voltaste, não rompes o nevoeiro


Andas na vida à deriva, sem coração verdadeiro


Que te aqueça, que te beije, que te afague com a mão


Já te dei todos os beijos, a cor quente, porque não?


Já me dei toda a ternura, com candura de um irmão


Mas se tu nada recebes e todo o meu beijo é vão


Dou na boca a toda a gente o beijo só teu, então ...

Maria

Entre nós... sem palavras...

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Poema à Maternidade
Pode lá ser! Não quero! Não consinto!
Tudo em mim se revolta, a carne, o instinto,
a minha mocidade, o meu amor,
a minha vida em flor!
É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
se o meu corpo consente,
a minha alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
Acabou-se, acabou-se! Agora, renuncia,
começa a tua noite, acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher. Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor. Agora és só raiz.
Não pode ser! É injusta a minha sorte,
não quero dar a vida a quem me traz a morte.
Recuso-me a sofrer. A minha mocidade
exige-me horizonte e liberdade.
O meu destino há-de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro…
Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro, canto!
Porquê, Senhor,
Há só uma palavra: amor, amor, amor!
Dai-me outra voz que nunca tenha dito
coisas más, coisas vis, e que saiba a Infinito.
Dai-me outro coração mais puro, mais profundo,
que o meu já se quebrou de encontro ao mundo.
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
que não tenha presente nem passado.
Dai-me outras mãos que as minhas já tocaram
a vida e a morte, o bem e o mal, e já pecaram.
Filho, porque seria? Ao vires para mim,
mudaste num jardim
os espinhos da minha carne triste.
E como conseguiste
pintar de sol as horas mais sombrias?
Meu menino, dorme, dorme,
e deixa-me cantar
para afastar
a vida, um papão enorme.
Vamos agora brincar…
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
Já te dei o meu destino,
posso bem dar-te a Lua.
Toma um navio, um cavalo,
uma estrela, o mar sem fundo.
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres, dou-te o mundo.
Porque não queres brincar,
Porque preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
do seu olhar?
Uma vida inquieta e obscura,
que eu não lhe dei,
anda a queimar-lhe a frescura.
Ainda hoje, meu filho, não sorriste,
e o teu olhar é triste,
cheiras a noite, a luto, a azebre…
Senhor, o meu filho tem febre,
o seu hálito queima, o seu olhar escalda!
Ele que ao respirar cheirava a cravo,
e tinha um olhar de estrela ou de esmeralda,
agora tem na boca um amargo travo
e cheira a noite, a luto, a azebre…
Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos meus olhos céu e luz,
livrai-me da blasfémia… Deus, Jesus,
pois se o meu filho morre, se agoniza,
porque há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei-de pôr, de rastros,
porque estarão tão alto os astros?
Senhor, eu sou culpada, eu sei o que é o pecado,
mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado.
Para mim não há mal que não aceite,
mas ele, ainda tão perto do teu céu!A sua vida era beber-me o leite…
No olhar com que me olhava tinha um véu
de neblinas, de névoas de outras vidas.
Às vezes tinha as pálpebras descidas
e punha-se a chorar no meu regaço,
com saudades, talvez, do céu, do espaço.
O meu filho tem febre!
Porque andam a cantar pelos caminhos?
Porque há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
o meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida, Vida, Vida…
Louvado seja Deus! A morte foi-se embora,
já não tens febre agora!
O meu menino vive,
este menino, o meu, que só eu tive!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino ri, e eu posso já chorar!
E o meu menino vive e toda a vida canta,
toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!
(Fernanda de Castro)


sexta-feira, 1 de maio de 2009

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Deixa-me morrer ...

Não, não falo de mim :


Mas por vezes a morte não pede permissão ...

*

Ao longo dos últimos meses têm sido noticiados diversos suicídios que a imprensa tem correlacionado com o momento de crise económica que estamos a viver.
Recentemente, em Portugal, o coordenador do Programa Nacional de Saúde Mental admitiu aos jornalistas que "as doenças mentais comuns estão e vão aumentar com esta crise devido a factores ligados à depressão e à ansiedade"



*

A questão que me atormenta:

Pedro só queria por termo à sua vida. Ou talvez chamar a atenção de quem amava para a insuportabilidade da dor que carregava.

Pedro montou todos os artefactos próprios e adequados a fazer explodir o local aonde se encontrava. Depois deitou-se à espera desse momento.

Contudo, o filho que ali chegou entretanto alcançou retirá-lo do local, vivo, incólume.

Porém quando regressou para "desfazer" a engrenagem montada, algo escapou ao seu domínio e veio a falecer por via de explosão incontrolada que fez várias outras vítimas.

Pedro sobreviveu. Está acusado de ter praticado um crime de explosão .

Será isto acertado ?

Sabia que tais artefactos podiam proporcionar perigo, perigo para a vida...

Mas alguém num momento em que quer por termo à vida , pretende magoar outrem que não a si próprio ?

Alguém sabe a resposta ...

Diz-me em segredo ...


"O deputado do PS, Manuel Alegre, classificou esta noite de “ intolerável” o caso dos interrogatórios a alunos de uma escola de Fafe feitos por um inspector da Educação. O objectivo era apurar o eventual envolvimento de professores no protesto que incluiu o arremesso de ovos à ministra Maria de Lurdes Rodrigues, aquando da sua visita à Escola Secundária de Fafe, em Novembro."


Com efeito é muito pouco educativo . Ou melhor, chama-se a isto formar "carácter de bufos".


Há sempre quem veja utilidade na educação... para o que quer que seja ...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Lírios da alma


Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Mário Quintana, Espelho Mágico


O CORAÇÃO
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O coração é o colibri dourado

Das veigas puras do jardim do céu.

Um — tem o mel da granadilha agreste,

Bebe os perfumes, que a bonina deu.


O outro — voa em mais virentes balças,

Pousa de um riso na rubente flor.

Vive do mel — a que se chama — crenças —,

Vive do aroma — que se diz — amor. —

Castro Alves

M A R I A
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Onde vais à tardezinha,
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão...

Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!

Serão amores deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom d'aragem,
Sonhar na rede selvagem...
À sombra do azul palmar!

Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da lua ao frouxo clarão...
Com a luz dos astros — por círios,
Por leito — um leito de lírios...
E por tenda — a solidão!

Castro Alves

quarta-feira, 22 de abril de 2009

V E R D E


Deixa-me desistir de ti
Como num encontro repetido entre penas de mil eras
E traçado em véus de fumos mutilados,
Para esquecer que te dei a alma de todos os meus sonhos
E a força de toda a vontade
Na concretização de uma visão que não me pertencia.

Será o silêncio a minha promessa,
O vazio como futuro
De quem deixou as asas rasgadas no chão,
E apenas a noite alcançará a minha voz amordaçada
Nos primórdios do poema.

Não sou ninguém…
Nada mais que o pálido reflexo de um espelho estilhaçado,
Um grito no amanhecer
E as lanças dos meus dedos estendem o sangue da derrota
Que estrangula o meu olhar.

Deixa-me, pois, morder as cinzas que ensombram os meus lábios
E morrer dentro da cruz,
Como um corvo em voo de hecatombe
Rasgando os céus da última alvorada,
Um sonho aberto à lâmina dos deserdados,
Um cântico na morte…

Para que vejas a renúncia que floresce nos meus olhos
E me deixes desistir
De mim.

CARLA RIBEIRO


segunda-feira, 20 de abril de 2009

O tempo é invenção da morte

"Amigos não consultem os relógios
quando um dia me for de vossas vidas…
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira”.

Mário Quintana

À Morte Peço Paz Farto de Tudo
morte


À morte peço a paz farto de tudo,
de ver talento a mendigar o pão,
e o oco abonitado e farfalhudo,
e a pura fé rasgada na traição,
e galas de ouro es despejados bustos,
e a virgindade à bruta rebentada,
e em justa perfeição tratos injustos,
e o valor da inépcia valer nada,
e autoridade na arte pôr mordaça,
e pedantes a engenho dando lei,
e a verdade por lorpa como passa,
e no cativo bem o mal ser rei.
Farto disto, não deixo o meu caminho,
pois se eu morrer, é o meu amor sozinho.

William Shakespeare, in "Sonetos (66)"

LEVANTA-TE ...E... VIVE...


Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro.

Vergílio Ferreira, in "Escrever"

 

domingo, 19 de abril de 2009

Isso é uma pergunta séria ?


"O primeiro ministro José Sócrates vai responder em directo a perguntas da população na internet .
Qualquer pessoa pode enviar a partir de hoje perguntas a José Sócrates, dez das quais serão respondidas em directo no próximo dia 25 no site de apoio ao secretário-geral do PS."

Contaram-me ... ouvi dizer, nem sei bem onde que


fontes próximas de Manuela Ferreira Leite e de Paulo Portas deixaram já transparecer uma certa congeminação proposta por alguns apoiantes, no sentido de por a nu a verdadeira natureza poooolítica de José Socrates, rasteirando - o mesmo, alternativamente, cada um de per si, com a formulação da seguinte questão:



Cuidado ... primeiro...


Isto há gente muito mal intencionada....



sábado, 18 de abril de 2009

Atenção : há picos no telhado ...


De acordo com o que li na imprensa digital recentemente, caiu o tecto da uma escola de Queluz ferindo três professores.

Trata-se de escola pública e tanto quanto se alcança património imobiliário do Estado.

A quem cabe gerir tal património ?

Pode aceitar-se que está ausente de culpa uma entidade que tendo o dever legal de zelar por determinado património o descura até que caia sobre quem tem que de ali trabalhar e estudar?

Não será esta omissão criminosa?

Se não fosse trágico seria ridícula a opção do actual governo que dispõe dos impostos dos portugueses para pagar computadores aos miúdos, de utilidade duvidosa e os entreter, enquanto a "casa" lhes cai em cima ...

Haja vergonha!

Esta gente também é gente ...

http://queluz.org/2009/03/escola-ruy-belo-rtp/

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Com vista para o céu da ... boca ...



Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido
os dedos que me
vogam
nos cabelos
e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...
Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...
Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.
Maria Teresa Horta



terça-feira, 14 de abril de 2009

MARIAS ... extraordinárias ...

Maria Emília Archer Eyrolles Baltasar Moreira, na cena literária Maria Archer, nasceu em Lisboa, no dia 4 de Janeiro de 1899. Foi a primeira dos seis filhos do casal. Parece ter escrito versos, com frequência, durante a sua infância, mas deles nada resta. Começou, desde cedo, a viajar com os pais. (De 1910 a 1913 Ilha de Moçambique; 1914 Algés e, posteriormente, Sto Amaro; de 1916 a 1918 Guiné - Bolama e Bissau.).



Terá feito apenas a 4ª classe (terminada aos 16 anos, por iniciativa própria), pelo que podemos considerá-la uma autodidacta. Em 1921, encontramo-la em Faro com a família e aí casa com Alberto Passos, natural de Vila Real, no dia 29 de Agosto de 1921. Vão viver para o Ibo – Moçambique. Cinco anos depois regressam a Faro e de seguida vão para Vila Real. Trás-os-Montes é o último cenário de fundo do jovem casal. O casamento durou apenas dez anos. Vem para Lisboa mas os seus pais estavam, nessa altura, em Angola e para lá vai por volta de 1932.

Em Luanda, publica o seu primeiro livro - Três Mulheres (1935) - de parceria com Pinto Quartim Graça. Nesse ano regressa a Portugal. Vivia, então, do que escrevia para jornais e das suas obras, tendo mesmo algumas delas chegado à terceira edição. A sua obra tem também um pouco de autobiografia pois a sua experiência de vida é, por vezes, transposta para as suas personagens. O romance Aristocratas (1945) marca o seu afastamento da família que se vê retratada nas personagens do mesmo.





A sua vida foi nessa época particularmente difícil. Teve de lutar pela sua afirmação pessoal e profissional. Participa, então, em várias conferências, em Lisboa e no Porto, e faz várias entrevistas como jornalista (a Ester Leão e a Joaquim Manuel de Mãos, o “Pintor” por exemplo). A 5 de Julho de 1955 parte para o Brasil, depois de a sua obra ter sido perseguida em 1938 e 39, e terem-lhe apreendido o livro Ida e Volta duma Caixa de Cigarros e, em 1947, Casa Sem Pão.

Acompanhou, de perto, o julgamento do contestador da ditadura salazarista, capitão Henrique Carlos Galvão no Tribunal Militar de Santa Clara. Tendo-se proposto escrever um livro sobre o mesmo, vira a sua casa invadida pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) logo após o final do julgamento, em 1953. Viria a publicá-lo em 1959, no Brasil, sob o título Os Últimos Dias do Fascismo Português.

No Brasil, viveu pobre e doente, mas ainda escreveu bastante para alguns jornais, nomeadamente para O Estado de S. Paulo, Semana Portuguesa e Portugal Democrático. Naquele país, terá publicado cinco livros dos quais se conhecem apenas quatro: Terras onde se Fala Português, África sem Luz, Brasil, Fronteira da África e Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959). Em 1974 ainda corrigiu os discursos dos candidatos às eleições legislativas e escreveu a propaganda para a rádio local. Em 1977 foi internada em São Paulo, donde terá saído para regressar a Portugal (26 de Abril de 1979).

Foi, então, internada na Mansão de Santa Maria de Marvila (Lisboa), lar onde permaneceu até à morte (23 de Janeiro de 1982).



A obra de Maria Archer foi bastante diversificada. Tendo iniciado a sua obra literária nas colaborações em periódicos (Acção, Correio do Sul, Diário de Lisboa, Eva, Fradique, Humanidade, Ilustração, Ler, O Atlântico, O Mundo Português, Portugal Democrático, Seara Nova, Sol, Última Hora, O Estado de S. Paulo e Gazeta de São Paulo), o primeiro livro publicado foi uma novela.

Atrever-nos-íamos a distinguir três fases na escrita da autora, sem pretendermos estabelecer compartimentos estanques. Assim de 1935 a 1944 (publica o seu primeiro romance Ela É Apenas Mulher) temos a fase em que foi sobretudo novelista ou contista. De 1944 a 1955 (data em que parte para o Brasil), atinge o auge da sua produção literária, revelando-se uma óptima romancista, observadora e narradora dos problemas que atingem a mulher dessa época. A terceira fase é iniciada em 1956, com a publicação de vários artigos no Portugal Democrático e publicação do livro que resultou da assistência às sessões do julgamento de Henrique Galvão. Com ele inicia a sua afirmação política, que coincide com a colaboração nos jornais Portugal Democrático e na Semana Portuguesa, ambos de São Paulo. Esta divisão não pretende ser rígida até porque, ao longo das três fases, temos uma linha condutora que é a dos ensaios e estudos sobre África e os costumes do seu povo (13 livros). Escreveu trinta livros em 28 anos, três deles chegaram à terceira edição e cinco tiveram três, o que mostra bem a receptividade do público à sua obra. Muito contestada por uns e muito apreciada por outros, todos lhe reconhecem um valor inigualável na literatura feminina do início do séc. XX. Na narrativa saltita da novela para o romance e deste para o ensaio ou literatura de viagens, chegando mesmo a focar os descobrimentos portugueses. Escreveu, também, 5 peças de teatro e ainda um romance de aventuras infantis e dois ensaios para que o público mais pequeno aprendesse um pouco de história de forma lúdica. No entanto, foi na forma audaciosa como retratou a mulher portuguesa e os seus problemas familiares e sociais que se tornou um marco na literatura feminina de meados do séc. XX. Dizia João Gaspar Simões, em 1930 «Não conheço mesmo outra (escritora portuguesa) que à audácia dos temas e das ideias alie uma expressão tão enérgica e pessoal. O seu estilo respira força e solidez.»

O texto é da Autoria de Dina Botelho e foi retirado daqui, aonde pode conhecer melhor a obra da escritora.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

MURMURIO

Quando eu morrer ...



Quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"



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Fui Pedir um Sonho ao Jardim dos Mortos

Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos.
Quis pedi-lo, aos vivos. Disseram-me que não.
Os mortos não sabem, lá onde é que estão,
Que neles se enfeitam os meus braços tortos.

Os mortos dormiam... Passei-lhes ao lado.
Arranquei-lhes tudo, tudo quanto pude;
Páginas intactas — um livro fechado
Em cada ataúde.

Ai as pedras raras! As pedras preciosas!
Relâmpagos verdes por baixo do mar!
A sombra, o perfume dos cravos, das rosas
Que os dedos, já hirtos, teimavam guardar!

Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.
As suas ossadas
Quem sabe onde estão?
Trago as mãos cruzadas,
Pesam-me no peito.
Quem sabe se a lama onde hoje me deito
Dará flor aos vivos que dizem que não?

Pedro Homem de Mello, in "Príncipe Perfeito"



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