Pergunto-me muitas vezes quando é que as crianças crescem…
Nunca vemos as nossas crianças crescerem. Sabemos que elas crescem …
São tantas as vezes que tu, meu pequeno amor, me pedes uma história:
- Conta-me uma história, pedes dengosamente olhando-me com a profundidade infinitamente bela do teu negro olhar.
Uma das tuas “histórias”, daquelas que tu inventavas para me fazeres dormir, quando eu não adormecia a não ser segurando o teu dedo anelar, enquanto com a outra mão me acariciavas em movimentos de ternura suavemente as sobrancelhas, ou te embrulhavas nos caracóis dos meus cabelos.
Sabes, aquelas tão inéditas e extraordinárias que inventavas de olhar sorridente e que nunca sabias repetir da mesma maneira, mas reinventavas sempre melhores, em reacção às minhas reclamações pela divergência da narração.
Ou, melhor, vamos reinventar uma história. Uma daquelas que todos os miúdos sabem, já ouviram contar…
Deixa ver … hummm … capuchinho vermelho ?!
Branca de Neve e os Sete Anões ?!...
Vá lá … conta-me uma história…
- Pois é, Princesa Encantada, há matérias em que parece que nunca crescemos…
Então aqui vai. Sem reclamações pela divergência de narração sff :-) …

ERA UMA VEZ…
Uma simpática baratinha que por ser tão pequena e engraçadinha foi baptizada como Carochinha.
Carochinha viveu várias vidas, foi escrava, cigana, plebeia, rainha, gatinha, joana e também Carochinha.
Não é muito longa a vida de uma baratinha, por isso dedicava todo o tempo que tinha a um único propósito.
Cada dia de sua vida via nascer o sol com um pensamento repetido: encontrar o seu João Ratão.
João Ratão era na verdade um ratinho muito ladino e habilidoso que encantara carochinha numa de suas outras reincarnações.
É verdade, entre uma plêiade de pretendentes aos encantos da pequena baratinha, só João Ratão conseguira alcançar o seu coração.
Conta-se que noutras vidas bem passadas, ele recolhera de Eneida, a mais sibilina sereia que a Ulisses cantou, um som de voz divinal.
Era uma voz tão dengosa, morninha, deliciosa que a bela baratinha não teve como resistir-lhe.
Sucede que na ânsia de agradar ao seu doce João Ratão, Carochinha pôs em execução um extraordinário cozinhado.
Dizia-lhe a avó Carocha: “ menina, pelo o estômago é que as mulheres prendem os homens…”
E ela não foi de modas, logo achou que sendo rato o seu João, menor que homem não seria.
Queria vê-lo feliz, amá-lo e dar-lhe alegria.
Temperou com excepção uma real feijoada. Seria um belo manjar.
Mas todos sabemos a história, pobrezinha a Carochinha tombou-lhe o amor no jantar…
Nunca se soube depois como viveu Carochinha.
Mas constou-nos que depois de ver assim tão assado seu eterno rato amado, a pequena baratinha não continha o sofrimento.
Via-o a todo o momento como se fora ao seu lado.
Era um desassossego. Tristeza tão desmedida.
Foi então que o deus dos ratos apiedado da pobre, resolveu dar a João a possibilidade de viver uma nova vida.
Só podia ser perfeita a vida que se ante vinha, pois estava destinado a amar a Carochinha.
Mas João Ratão voltou ao mundo dos vivos um pouco confuso e desajustado.
Em vãs filosofias sobre o sentido da vida perdia o corpo chamuscado.
Certa vez, passando perto da casa de Carochinha viu um carreiro de formigas na labuta dedicada para levarem para casa um pedacito de queijo que na calçada encontraram.
Mirou-as pé ante pé…
E foi tal o seu espanto quanto mesmo junto ao canto, repara numa formiga, musculada, aguerrida, toda formas de saúde, que causou tal impressão, qual moça do “Galp” garrafão, passeando em seus bigodes uma nesga de torrão.
Abalou-se-lhe o coração e outras zonas vitais comuns entre os animais, quase se sentiu um homem.
Foi a correr atrás dela, aninhou-se aos seus lençóis enquanto a pobre Carochinha sonhava com a sua voz.
Até que um certo dia D. castora Luzia viu à porta da formiga aquela cena infernal: casado com Carochinha, renascido o animal, perdido pela formiga…
Foi a correr contar à amiga, com detalhes requintados, bordados a ponto cruz.
Ai Jesus, ai Jesus, chorou a pequena Carochinha sete noites e mais um dia.
Até que teve uma ideia. Se João era o seu rato só o traria a contacto a ideia de uma barriga cheia.
Para aprimorar-lhe o gosto pôs de parte o entrecosto e na janela, afixou flanela em faixa brilhosa, bordada com mão de fada:
“
CAROCHINHA PROCURA JOÃO RATÃO PARA NOVA CALDEIRADA”
E no mais desculparão porque por nobre intenção, não posso contar mais nada…