sexta-feira, 5 de junho de 2009

Voar


Gosto dos venenos os mais lentos!
As bebidas as mais fortes!
Dos cafes mais amargos!
E os delirios mais loucos.
Voce pode ate me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
E daí
eu adoro voar!!!

Clarice Lispector



 

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Sempre a mesma substância ...

Na paragem do autocarro, parada, taciturnamente a olhar o céu, estava uma moça, quando dois rapazes se aproximaram dela e procurando oferecer-lhe um periódico das publicações religiosas da respectiva crença, lhe disseram:
“ Entregue a sua vida a Jesus… “
E à memória visual da rapariga ocorreram-lhe imagens de uma história que desde sempre lhe fora contada :
Tanto os evangelhos de São Mateus como de São João mencionam Caifás como participante de destaque no julgamento de Jesus organizado pelo Sinédrio.
Por ser um sumo-sacerdote, ele também ocupava a posição de chefe da corte suprema. De acordo com os evangelhos Jesus foi preso pela guarda do Templo de Jerusalém, no Jardim de Getsêmani e foi levado diante de Caifás e outros, por quem foi acusado de blasfémia.
Após considerá-lo culpado, o Sinédrio entregou-o ao governador romano Pôncio Pilatos, por quem Jesus também foi acusado de sedição contra Roma.
Conta-se que a mulher de Pilatos o terá advertido de que Jesus estava inocente, pois fora-lhe revelado em sonho e apelado para que não condenasse um inocente.
Os evangelhos relatam que Pilatos era ferrenho inimigo de Herodes Antipas.
Com efeito,
Após a morte de Herodes, o Grande, o seu reino foi desmembrado e coube a Antipas a tetrarquia da Galileia e da Peréia, que abrangia a região oriental do Jordão, inclusive as cidades helénicas da Decápode.
Ele bem tentou, junto ao Senado Romano, ser reconhecido como rei, mas apesar de ter gasto muito dinheiro com presentes e propinas, não obteve êxito, e teve que se contentar com o que lhe foi concedido.
Tentando desenvencilhar-se do julgamento de Jesus da Galileia, Pilatos mandou-O a Herodes Antipas, porquanto governador daquela.
Marca o início do entendimento e de bom relacionamento político entre Pilatos e Herodes, o facto deste ter recebido Cristo das mãos de Pilatos por ser da Galileia.
Pôncio Pilatos, também conhecido simplesmente como Pilatos (em latim, Pontius Pilatus), foi Prefeito (praefectus) da província romana da Judeia entre os anos 26 e 36. Foi o juiz que, de acordo com a Bíblia, após ter lavado as mãos, condenou Jesus a morrer na cruz, apesar de não ter Nele encontrado nenhuma culpa.

A moça interrompeu a narração da memória histórica com as despedidas dos dois moços.
E ficou a olhar para a esperança a passear-se diante dela na Calçada, nos passos que os mesmos davam, com uma ternura que apesar de tudo lhe aqueceu a alma - “Entregue a sua vida a Jesus e ele nela operará verdadeiros milagres…” -
Ele que não obstante saber que o esperava a Morte e que podia combatê-la não se salvou dela …
Paradoxal, não ?!...
Nos nossos dias, aparentemente e bem ponderadas as coisas, o processo de decisão nos meandros do poder não se desenrola de forma muito diversa: tudo se resume à salvaguarda de uns tantos interesses instalados ou a instalar …
Tantos Pilatos lavam as mãos nas condenações de pessoas, de factos ou situações, onde não encontram qualquer culpa…onde não existe qualquer culpa …
E Jesus? Nunca ressuscitará?
Ele morreu. Pilatos prosseguiu a sua vida na terra.
Mas como? Foi feliz desde então?
Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica, afirma que Pilatos caiu em desgraça junto ao Imperador de Roma que não considerou politicamente certa a sua opção pela morte de Jesus, vindo a suicidar-se por volta do ano 37 d.C..
Chegou o autocarro …

sábado, 30 de maio de 2009

Alegria


De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,
de pequenas traições
que achei no meu caminho...,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

duma nova amargura...
De cada crueldade
que pôs de luto a minha mocidade...
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte...
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Volúpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raíz.

Volúpia de sentir na minha mão,
a côdea do meu pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte
é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir
o tédio,

Esse estranho cilício,
e de entregar-me à vida como a
um vício.

Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!

Fernanda de Castro, in "D'Aquém e D'Além Alma"

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Desenhas sorrisos no meu rosto ...

Para quem gosta de flores

Há dias na vida de todos nós em que o cansaço, as preocupações que no dia a dia a todos acompanha, conseguem esconder o sol ao nosso riso...
Então como num número de magia, surge um amigo.
Carregando-se de flores na alma para perfumar de suave encanto o nosso momento.
Sim porque a vida não é mais que o nosso momento ...
Flores, flores, tal como gostas...
Sabias que uma lenda liga a Atlântida a uma forma de magia associada às flores ?!
Hum... uma lenda, uma história, do cansaço já se perdeu memória...
Verifiquei todos os links generosamente indicados e para rematar referenciaram-me este (http://web.sercomtel.com.br/portal1001/flores.html ) com que vos sopro o perfume doce do carinho amigo que provém de amar as flores, gostar de as ter comigo. É uma graça, é um mimo para desenhar um sorriso no rosto de um outro Amigo que fertilizou o mundo para, suspensas do céu, choverem flores de encanto que dão cor
a este canto e perfume ao meu coração : obrigado.


E agora que "Narciso" me chamaram vou descodificar : trata-se da flor que naquela filosofia representa a personalidade das pessoas nascidas entre 02 de Março e 21 de Março.

SIGNIFICA ...

Flor, em forma de um pequeno sino, foi muito abundante na Atlântida. Depois, desapareceu durante séculos e ainda hoje é uma espécie rara.

Simboliza pessoas bem-humoradas, capazes de lidar com as piores crises. Procuram sempre o lado positivo das coisas e têm o dom de atrair a simpatia e a ajuda de todos.

Apesar da aparência ingénua, são verdadeiras vencedoras, às quais, não faltam paciência e audácia.

A lealdade e a coragem são seus pontos fortes.

Embora adore viajar, no fundo deseja um porto seguro ( simmmm), no qual possa se sentir em paz, vivendo ao lado de alguém que o compreenda e ajude a desenvolver seus talentos.

Dono de uma incrível força de vontade, interessa-se por tudo o que é novo e desconhecido.

Jamais desiste de um objectivo, e vê o desânimo como algo passageiro.

Gosta de desafios e enfrenta qualquer obstáculo com a certeza da vitória.

Harmonia, bem-estar e despreocupação são suas metas.

Tem grande dom para a vida artística e, mesmo fora de um palco, confere uma aura de magia e beleza a tudo o que realiza.

Por isso vive cercado de amigos, que o admiram lealmente ( booooooo....pois....).

Dotado de profunda sabedoria, não se faz de rogado para expor seus pensamentos.

Nem tem medo de chocar os outros com a ousadia das suas ideias.

Gosta de "plateia" cheia e contagia a todos com seu pique jovial.




SE TIVER CURIOSIDADE

pode cheirar aqui a sua flor ....

terça-feira, 26 de maio de 2009


REGRESSO


E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

Manuel Alegre

domingo, 24 de maio de 2009

Divagando com Natália ... nas núvens ...

Eterno Encantamento

O Livro dos Amantes

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

Natália Correia
Núvens

O Livro dos Amantes

II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

Natália Correia


O Livro dos Amantes

IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Halo

Diz-se "efeito halo" (chapéu de anjo) da possibilidade de a avaliação ou julgamento que fazemos de um determinado item ou factor, poder interferir erradamente no julgamento de outros factores e itens de avaliação ou julgamento, assim contaminando nesse erro, o resultado da avaliação geral por nós realizada.
Foi assim que Edward Thorndike designou este fenómeno que se resume no fundo à interferência causada nos processos de avaliação de desempenho devido à simpatia ou antipatia que o avaliador tem pela pessoa avaliada.
Este efeito é considerado pelos especialistas como o mais sério erro cometido por um avaliador ou julgador.
Quem julga deve ser isento e imparcial, mesmo relativamente a si próprio.
O "efeito halo", da "informação prévia", o impacto das primeiras impressões são por vezes o primeiro obstáculo a uma avaliação rigorosa e justa, sabendo-se quantas vezes são desastrosas as consequências para a vida de quem tem de subjugar-se a tais juízos de avaliação ou julgamento.
Neuro cientistas das Universidades de Nova York, Tufts e Harvard investigaram a actividade cerebral humana no decurso da formação das primeiras impressões sobre terceiros.
Foram apresentados a 19 voluntários , 20 perfis fictícios de 20 pessoas diferentes que lhes foram entregues com fotografias incluindo determinados cenários.
Verificou-se que a simples observação dos perfis das fotos colocadas em determinado cenário foram o suficiente para que os voluntários formassem uma imagem da pessoa correspondente atribuindo-lhe desde logo traços de carácter,tais como, inteligente, preguiçoso, perfeccionista, desmazelado, atencioso, mal educado...
Notaram ainda os investigadores que os observados formaram essas opiniões quase imediatamente e retiveram-se nelas. Assim solicitados a atribuir uma função a um perfil, faziam-no por referência à impressão causada pela imagem vista e apenas por esta.
Nos primeiros instantes de contacto com alguém a actividade cerebral da " amídgala e córtex cingular", regiões do cérebro ligadas à apreensão de objectos inanimados e avaliações sociais baseadas em grupos familiares ou de confiança e ao dinheiro , determina a formação de uma impressão instantânea , também chamada primeira impressão, de que por vezes nunca nos conseguimos desvincular.
Assim toda a cautela com os juízos prévios, as impressões fundadas meramente nos nossos conceitos ou preconceitos será pouca se quisermos julgar alguém de modo justo e objectivo.
Quantas vezes pensamos sobre isto ?
Não. A nós não acontece. Pensamos.
Porém se todos fossemos o primeiro juiz das nossas próprias consciências, muita coisa mudaria no mundo à nossa volta ...

domingo, 17 de maio de 2009

Reflexão

la croix

Nunca cultives coisas absolutas, como a castidade absoluta ou a sobriedade absoluta: a maior força de vontade é a do homem que gosta de beber e se abstém de beber muito e não a daquele que não bebe de todo. O movimento antialcoólico é um dos maiores inimigos da vontade própria e do desenvolvimento da vontade. Castrar um homem «controlará» certamente os seus impulsos sexuais. Castrar a sua alma também fará o mesmo. A dificuldade é abster-se.
Deves criar um desejo de beber e de fumar e então fumar e beber moderadamente. Graças a este método, não só desenvolverás a tua vontade decisivamente, obrigando-a a impor limites aos teus impulsos, que é a função própria da vontade (e não a eliminação dos impulsos), mas também extrairás o maior prazer possível de beber ou de fumar, pois a Natureza concebeu as coisas de um modo tal que o maior prazer vem depois do maior poder, a temperança, e o sinal da normalidade é este.

Fernando Pessoa, in 'Reflexões Pessoais'

sábado, 16 de maio de 2009

Menino, o que tu fizeste é crime ...

A imprensa digital dá nota hoje da detenção de um menor por presumível roubo e violação concretizada mediante o uso de ameaça com uma faca, a mulher de 26 anos, em Coimbra no passado mês de Abril.

Curiosamente, faz poucos dias, surpreendeu a notícia igualmente difundida na imprensa dando nota de que na escola de Pinhal Novo fora proibida a entrada e permanência no estabelecimento por parte de menores ostentando decotes pronunciados, mini-saias e calças com cintura descaída.

Tudo isto remete para um velho problema pouco estudado, pouco abordado e muito mal tratado : a sexualidade na adolescência.

Não há como não reconhecer que nos nossos dias os adolescentes se iniciam muito cedo na sexualidade. Desde as novelas, às imagens a que acedem na internet sem reserva, tudo apela a que essa experiência ocorra mais cedo.

Em regra, sem preparação física, psicológica e de estrutura mental.

Os Centros de Saúde noticiam a procura crescente por parte de meninas, entre os 10 anos e os 16 anos, para prescrição de pílula anticoncepcional, preservativos ou outros métodos destinados ao mesmo efeito.

Os rapazes, nessa faixa etária, tendem a delegar "o problema" nas meninas, via de regra, constituindo para estes aparentemente maior embaraço, procurar tais entidades para obter informação útil e necessária a quem pretenda desenvolver vida sexual activa.

Não raro, os próprios pais, adultos, lidam mal com os problemas inerentes à sexualidade.

Têm grande dificuldade em conversar com os filhos sobre este assunto e em assentar ideias sobre o que lhes deve ser transmitido, como e em que momento.

Apesar de inerente à sua humanidade, efectivamente é um facto que até aos nossos dias o Homem ainda não lida de forma equilibrada e saudável com este tipo de problemas.

E não solicita ajuda ou apoio especializado facilmente sobre o tema.

O encantamento do adolescente por uma mulher adulta que condensa aos seus olhos, por vezes, todos as características de sedução do seu imaginário, não é problemática nova.

Recorde-se o desempenho da bela Jacqueline Bisset no filme "Class" cuja personagem se envolve sexualmente com um menor, colega de turma do seu próprio filho.

Basta aliás lidar de perto com crianças nessa faixa etária, como educador, como mãe, para ter a percepção deste fenómeno, claramente.

Estas mudanças deveriam ser acompanhadas pelo legislador com a serenidade e a ponderação que o melindre da questão requer.

Diz -se que o governo pensa em criar penas criminais para menores de 16 anos.

Será esse o melhor caminho ?

Fui procurar alguns elementos sobre esta temática no reconhecimento de que importa reflectir para agir seja como pai, educador, ou simplesmente cidadão não indiferente ao destino da sua comunidade.

Espero que qualquer iniciativa legislativa nesta matéria não se faça a impulso irreflectido, como hábito nos últimos tempos e se faça preceder igualmente de algum estudo e ponderação dos interesses em confronto na matéria.

Recomendo que se espreite, por ex :

http://sexualidadeadolescencia.blogspot.com/

http://abrasuca.home.sapo.pt/quando_e_que_se_esta_preparado_p.htm

sexta-feira, 15 de maio de 2009


O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

Mário Quintana

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Era uma vez ...


Pergunto-me muitas vezes quando é que as crianças crescem…
Nunca vemos as nossas crianças crescerem. Sabemos que elas crescem …
São tantas as vezes que tu, meu pequeno amor, me pedes uma história:
- Conta-me uma história, pedes dengosamente olhando-me com a profundidade infinitamente bela do teu negro olhar.
Uma das tuas “histórias”, daquelas que tu inventavas para me fazeres dormir, quando eu não adormecia a não ser segurando o teu dedo anelar, enquanto com a outra mão me acariciavas em movimentos de ternura suavemente as sobrancelhas, ou te embrulhavas nos caracóis dos meus cabelos.
Sabes, aquelas tão inéditas e extraordinárias que inventavas de olhar sorridente e que nunca sabias repetir da mesma maneira, mas reinventavas sempre melhores, em reacção às minhas reclamações pela divergência da narração.
Ou, melhor, vamos reinventar uma história. Uma daquelas que todos os miúdos sabem, já ouviram contar…
Deixa ver … hummm … capuchinho vermelho ?!
Branca de Neve e os Sete Anões ?!...
Vá lá … conta-me uma história…
- Pois é, Princesa Encantada, há matérias em que parece que nunca crescemos…
Então aqui vai. Sem reclamações pela divergência de narração sff :-) …


ERA UMA VEZ…

Uma simpática baratinha que por ser tão pequena e engraçadinha foi baptizada como Carochinha.
Carochinha viveu várias vidas, foi escrava, cigana, plebeia, rainha, gatinha, joana e também Carochinha.
Não é muito longa a vida de uma baratinha, por isso dedicava todo o tempo que tinha a um único propósito.
Cada dia de sua vida via nascer o sol com um pensamento repetido: encontrar o seu João Ratão.
João Ratão era na verdade um ratinho muito ladino e habilidoso que encantara carochinha numa de suas outras reincarnações.
É verdade, entre uma plêiade de pretendentes aos encantos da pequena baratinha, só João Ratão conseguira alcançar o seu coração.
Conta-se que noutras vidas bem passadas, ele recolhera de Eneida, a mais sibilina sereia que a Ulisses cantou, um som de voz divinal.
Era uma voz tão dengosa, morninha, deliciosa que a bela baratinha não teve como resistir-lhe.
Sucede que na ânsia de agradar ao seu doce João Ratão, Carochinha pôs em execução um extraordinário cozinhado.
Dizia-lhe a avó Carocha: “ menina, pelo o estômago é que as mulheres prendem os homens…”
E ela não foi de modas, logo achou que sendo rato o seu João, menor que homem não seria.
Queria vê-lo feliz, amá-lo e dar-lhe alegria.
Temperou com excepção uma real feijoada. Seria um belo manjar.
Mas todos sabemos a história, pobrezinha a Carochinha tombou-lhe o amor no jantar…
Nunca se soube depois como viveu Carochinha.
Mas constou-nos que depois de ver assim tão assado seu eterno rato amado, a pequena baratinha não continha o sofrimento.
Via-o a todo o momento como se fora ao seu lado.
Era um desassossego. Tristeza tão desmedida.
Foi então que o deus dos ratos apiedado da pobre, resolveu dar a João a possibilidade de viver uma nova vida.
Só podia ser perfeita a vida que se ante vinha, pois estava destinado a amar a Carochinha.
Mas João Ratão voltou ao mundo dos vivos um pouco confuso e desajustado.
Em vãs filosofias sobre o sentido da vida perdia o corpo chamuscado.
Certa vez, passando perto da casa de Carochinha viu um carreiro de formigas na labuta dedicada para levarem para casa um pedacito de queijo que na calçada encontraram.
Mirou-as pé ante pé…
E foi tal o seu espanto quanto mesmo junto ao canto, repara numa formiga, musculada, aguerrida, toda formas de saúde, que causou tal impressão, qual moça do “Galp” garrafão, passeando em seus bigodes uma nesga de torrão.
Abalou-se-lhe o coração e outras zonas vitais comuns entre os animais, quase se sentiu um homem.
Foi a correr atrás dela, aninhou-se aos seus lençóis enquanto a pobre Carochinha sonhava com a sua voz.
Até que um certo dia D. castora Luzia viu à porta da formiga aquela cena infernal: casado com Carochinha, renascido o animal, perdido pela formiga…
Foi a correr contar à amiga, com detalhes requintados, bordados a ponto cruz.
Ai Jesus, ai Jesus, chorou a pequena Carochinha sete noites e mais um dia.
Até que teve uma ideia. Se João era o seu rato só o traria a contacto a ideia de uma barriga cheia.
Para aprimorar-lhe o gosto pôs de parte o entrecosto e na janela, afixou flanela em faixa brilhosa, bordada com mão de fada:
CAROCHINHA PROCURA JOÃO RATÃO PARA NOVA CALDEIRADA
E no mais desculparão porque por nobre intenção, não posso contar mais nada…




Maria

sábado, 9 de maio de 2009

Flor de Sempre


Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
Florbela Espanca

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Abre a janela ...

Conto de Fadas

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."

Florbela Espanca