terça-feira, 8 de setembro de 2009

GINJA DE OBIDOS

LI E FIQUEI CHEIA DE VONTADE ...
"O leitor ou conhece ou ouviu falar da Ginginha do Rossio, em Lisboa. De contrário, terá de acreditar na minha descrição: é um minúsculo estabelecimento de bebidas especializado na venda de uma das mais populares bebidas portuguesas, a ginginha; com clientela rápida e despretensiosa, a Ginginha do Rossio é uma referência para turistas que passam pela zona e para várias gerações de frequentadores que, por razões certamente inexplicáveis, continuam a passar pelo seu balcão e a pedir “uma com elas” ou “sem elas”. Uma ginginha. O estabelecimento nunca envenenou ninguém, sendo certo que também não é um modelo de limpeza. Mas é a Ginginha do Rossio.

O meu amigo Paulo Moreiras, romancista, dedicou à ginja dois livros exemplares. De acordo com a sua preciosa investigação, a melhor ginja é a da zona de Óbidos e a Ginginha do Rossio servia um dos melhores exemplares. Seja como for, Óbidos por um lado, e a Ginginha do Rossio por outro, enchem-se de turistas e de apreciadores que vão em busca dessa bebida simpática, comovente e em risco de vida. Como é bom que se diga, Paulo Moreiras começou a investigar a história da ginja depois de lhe terem dito, num restaurante, que não era uma bebida “à altura”.
Desta vez, foi a ASAE, Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, que partiu em busca da Ginginha do Rossio, encerrando-lhe as portas. O argumento é a falta de higiene, tendo sido capturadas algumas garrafas da bebida.

Ao capturar as garrafas e ao encerrar o estabelecimento, a ASAE estava apenas a cumprir a sua função, que está distribuída pela segurança alimentar, pela segurança de produtos e instalações, pelas questões de propriedade intelectual e industrial e também – naturalmente – pelo turismo. Ou seja, a ASAE zela pelo cumprimento da lei. E zela de forma muito eficiente, apresentando-se ao serviço público de colete à prova de bala e de gorro passa-montanhas. Por aí já o leitor vê como é arriscado o seu trabalho e como é perigoso o mister de fiscal das actividades relacionadas com a segurança alimentar. Ser atingido por uma ginja que não mencione a sua origem é grave e fatal.

Acontece que Portugal é, segundo a ASAE (e depois das suas investidas) «um dos países mais seguros no que diz respeito à higiene e qualidade dos alimentos». Isso é uma vantagem enorme. Hoje já não há castanhas assadas embrulhadas nas Páginas Amarelas nem bolas-de-berlim nas praias. A aguardente de medronho tradicional, que procurávamos na Serra de Monchique, e que já tinha sido atingido pelos incêndios, também foi perseguida pela ASAE. Há duas ou três semanas precisei de negociar uma aguardente tradicional de vinho verde, refrescada, como um americano durante a lei seca.

A Ginginha do Rossio era um monumento nacional. Uma referência que amigos italianos, brasileiros e alemães procuravam para provar uma das melhores ginginhas portuguesas. Aquele espaço tresandava a história e a convivialidade, a sorrisos largos e a um leve ondular de fígados conservados em ginja. Pois que se varrese o seu chão com mais frequência. Que se pusesse um médico à porta. O mal, porém, não é apenas o encerramento da Ginginha do Rossio, esse parapeito da história da cidade e do país. O mal é a onda de lixívia sintética que vai passando por tudo quanto é “segurança alimentar” nas vetustas tascas onde vinhos fatais fizeram literatura e, certamente, doenças hepáticas. Essa onda que prega a normalização dos costumes alimentares acabará com a pequena alma dessas nobres instituições de pecado, como a Ginginha do Rossio. Portugal aplica estas leis melhor do que ninguém. A breve prazo, agentes policiais entrarão nas nossas casas apreendendo bacalhau com excesso de sal e ginja da Beira Alta. Seremos saudáveis e faremos jogging. Tudo o resto será encerrado. "

in Jornal de Notícias – 19 Novembro 2007
Etiquetas: Jornal de Notícias

posted by Sérgio Aires at 19.11.07
Sérgio Aires Localização: Porto, in http://fjv-cronicas.blogspot.com


domingo, 6 de setembro de 2009

Leituras de fim de verão ...

diana

A Serpente e a Lua

Um livro da Princesa Michael de Kent, edição da Livraria Civilização Editora


Sinopse:
"A lenda de Diana de Poitiers continua, não só porque a vemos hoje disfarçada na sua imagem de deusa criada pelos maiores mestres do Renascimento francês, mas também porque ela era uma mulher de espírito independente que fez da arte de viver a mais alta qualidade da vida, preservando a juventude do espírito, do corpo e da personalidade.


Foi uma feiticeira que inspirou um jovem pouco promissor a tornar-se um magnífico rei; que este a tenha amado toda a vida, apesar de ela ser vinte anos mais velha do que ele, é a prova da sua permanente aura de mistério.


Omnium Victorem Vici - Diana, a deusa da lua, conquistou verdadeiramente o Rei, o Amor e o Tempo.
Aos catorze anos, Henrique casou-se com Catarina de Médicis, da mesma idade, uma não muito atraente mas riquíssima herdeira que traria no seu dote metade da Itália.


Catarina conheceu Henrique no dia do seu casamento e de imediato se apaixonou por ele, mas Henrique não tinha sentimentos senão pela bela Diana.


Depois de coroado rei, Henrique governaria a França com Diana a seu lado.


A relegada Catarina tomou como divisa "Odiar e Esperar" a morte de Diana para conquistar o amor do esposo e finalmente reinar a seu lado.


Mas o destino seria outro...
O triângulo amoroso protagonizado por Henrique II, Diana de Poitiers e Catarina de Médicis ficou marcado por um intenso e perigoso jogo de sedução, traição e morte com incalculáveis consequências políticas e militares para a França e para a Europa do Renascimento.


Nunca uma história com um pendor tão claramente passional teve contornos tão vincadamente políticos como este amor desmedido de Henrique II por Diana de Poitiers."

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

No funeral


Sentia-se estranho.
Estranhamente vestido.
Estranhamente deitado.
Estranhamento rodeado por flores de odores que acutilavam o espirro compulsivo.
Não estava na sua cama e nem de pijama.
Estava deitado com sapatos num madeiro duro, escuro.
Estava muito escuro, até a grande porta se abrir.
Percebeu então que estava morto.
Alguns se abeiraram e falavam de si:
Do seu rosto aparentemente vivo,
Do seu coração que tão generoso fora,
Da viúva, que por certo logo se casaria, “pobre dele que se ia”…
Dos filhos e das necessidades que a sua falta lhes acarretaria,
Dos sarilhos de saias em que se metia …
“ Hum … mais vozes que nozes…” cogitava ele, mais morto de espanto …
Era tanto negro, era tanto o pranto…
E no fundo a um canto, como que escondida, a rapariga da firma de segurança e higiene que garantia tais serviços no seu local de trabalho olhava-o fixamente como que a suplicar que reabrisse os olhos.
Nunca reparara na sua beleza.
Com uma candura roubada à pureza da alma, a expressão de uma dor profundamente silenciada, moldava-lhe o rosto.
Ela sofria.
Sofria, realmente.
Ele podia vê-lo.
Não gritava, nem enfeitava gestos largos de um pesar representado.
A sua lágrima calada, grafitada a esforço pelo silêncio profundo de quem ama aceitando a triste sina de saber nunca poder ver retribuído esse sentimento, revelava-lhe um facto que o ressuscitou daquela morte inacabada:
Entre tantas pessoas que o rodeavam e a quem tanto dava, naquele momento, aquela mulher era a única pessoa que o amava.
Diogo acordou com a sua disposição em alta.
Doía-lhe um pouco as costas, como se as houvesse assentado num madeiro duro e escuro…
Foi trabalhar.
À entrada a menina da firma de segurança e higiene olhou-o e saudou-o com um sorridente, “bom dia senhor doutor Diogo, parece muito bem disposto, deve ter tido bons sonhos esta noite …”
- Sonhei que jantaria hoje com uma linda princesa.
- Ai sim, Senhor Dr ?
- Quer jantar comigo esta noite?
- Euuu?!... Bem eu… e a sua senhora não se zangaria?
- Absolutamente, tratarei para que ela conheça o rico Agente da funerária a quem me entregaria e em quem já esfregava a perna, ainda eu não arrefecera…
- Como?!...
-Aceita?!...

(..........................................................................)

Quantos de nós poderiam realmente afirmar com toda a certeza quem o choraria nesse dia...

A vida surpreende-nos tantas vezes.

Por vezes cuidamos de um espaço, plantando nele as sementes mais profundas, mais bonitas, para que germine em mágico jardim aonde colocamos em alto pedestal as pessoas que queremos encantar e a quem nos damos.

E constatamos que é uma pequena sementinha, que cresceu contrariando as agruras do mau tempo e da qual nunca cuidamos e nem demos nada que floresce na nossa mão e nos ampara nos momentos de aflição ...

(...)

Se pudesse fazia uma expressa, clara e inequívoca declaração de gratidão...
Contudo,

Quero agradecer as lágrimas derramadas pela minha "morte".

Deus serve-se por vezes de outros braços para tomar ao colo aqueles que carregam o peso da ignomínia e da injustiça...


DE CORAÇÃO, MUITO OBRIGADO!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O que deseja realmente uma mulher ?

Todos os dias
Ela lhe pedia:
Não me deixes, não me deixes tão só
Ele abraçava-a, como se pequenina fosse,
E dizia:
Tem que ser, tens que compreender …
A vida é uma luta, desde o berço ao pó
Logo te volto a ver…
Assim se repetiam dias de desenganos
Ele construindo castelos de pedra
Ela morrendo nos escolhos dos sonhos

Fica comigo, pedia ela, manipulando sedução no olhar
Não posso, querida, tenho que trabalhar …
Mas tens tantas horas e nelas pessoas…
Flores, cartões, delicadeza, encanto
A essas, dás tanto…
Quase te não vejo, eu que te quero tanto…

Procura distrair-te…
Podias ter amigas para conversar
Vou plantar-te ao colo um terço de brilhantes
Sedas muito belas, flores inebriantes…
Vou dar-te um PC de “último grito”
Causará inveja por ser tão bonito.
Podes conversar, podes distrair-te
Apenas não peças que contigo fique
A vida é assim, eu quero ser rico…

Primeiro passo que ela deu na “rede”
Foi tal o anseio, grande o desajuste…
Mas hoje, amanhã, surge novo amigo…

Que fazes, pergunta ele, não queres estar comigo?
Sempre querido. Mas tens que trabalhar, és o nosso “abrigo”

Um dia o José disse que era bela, doce generosa,
Casaria com ela

No outro o João, fonte do desejo, chamou-lhe sereia
De um mar em solfejo

Depois o Manuel, o Vítor e enfim, surgiu o
António para viver para si.

Todo o mundo dele era o olhar dela,
Reescreveu ternura, reescreveu candura

De tudo o que queria, tudo se consumia no sorriso dela.

Quando ele voltou, um dia cansado,
E se acostou à pedra do castelo que erguera a seu lado
Deu por falta dela,
Ai, como ela o amara, ceguinha, em prece e em pranto.
Era sempre bela, fora sempre encanto…
Como pudera ela que o quisera tanto,
Mudar-se para o colo de um pobre António que vive no campo …

Maria

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Manta de Retalhos


Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.


Eugénio de Andrade

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Chave de Sonhos


Aproxima-se mais um fim de semana.

É uma tempo estranho, este final de Agosto. Como um pequeno pedaço de terra situado entre dois cursos de um mesmo rio que não chegou ao mar, nem dispõe de espaço bastante para nele se montar tenda.

Algumas pessoas ainda estão de férias.

Vão regressando, aos poucos.

É o tempo de chegar ...

Foi neste tempo, meio fora de tempo, que encontrei pela manhã, a minha amiga Cila.

Gosto tanto dela mas nunca acertamos tempo de estar juntas.

Cumprido o protocolo da futilidade feminina, elogiadas formas, modelos, vestidos e despidos, um olhar mais profundo soltou-lhe o verbo verdadeiro:

- Não tens andado a dormir bem, Maria... quererás contar-me o que se passa?!...

- Também conheces receitas para dormir ? Perguntei-lhe ciente de que seria a provocação suficiente para a fazer falar durante o tempo necessário a esquecer o que me havia perguntado.

E claro que a resposta veio pronta, cozinhada com requinte e graciosidade.

- Ai duvidas?!...

Pois aqui vai ,

RECEITA DA CILA PARA BEM DORMIR

Ingredientes necessários:
- 1 homem paciente, ternurento e muito apaixonado,
- 1 cd contendo música relaxante e simultaneamente estimulante, sugerindo-se p ex este tema musical : http://www.youtube.com/watch?v=gh_9leIFl7Y ,
- 1 banho perfumado a essência de rosas e flores silvestres,
- 1 potezinho de morangos e amoras ou outros frutos silvestres coloridos,


-1 embalagem de natas frescas com açúcar,


- 1 pequenina malagueta,


- Bebida a gosto...


Grau de dificuldade na execução : variável :-)

Desenvolvimento:


Comece por emergir num banho morno , perfumado a essências florais até sentir impregnada na pele hidratada a óleo para bebé, o perfume em causa.


Dispa as preocupações, feche a porta ao mundo e entregue-se nas mãos do primeiro ingrediente da nossa receita.


Deixe-se amar, doce, deliciosamente, fechando os olhos a tudo o que possa despertar-lhe emoções negativas.


Alterne com imaginação os demais ingredientes por forma a adensar e tornar mais gostoso e estimulante o resultado final


Repita sempre até à perfeita execução .


Após, adormecerá como um anjinho até pelo menos o raiar de um novo dia.



Descrita a "receita" Cila olhou-me como se gloriosamente possuísse a chave dos sonhos e perguntou-me :


- Compreendeste ?...


- Claro, Cila, compreendi. Mas diz-me aonde queres tu que eu vá arranjar amoras nesta época do ano ?!...




Maria

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

E se antecipadamente, pudessemos prever o resultado dos nossos passos?


E pronto, lá se vão os últimos dias de Agosto !
Quantos amores de verão, lembranças, guardados de memória de um qualquer mês de Agosto...
Também eu me transporto a um passado mês de Agosto para aqui convosco partilhar uma história de vida e de um Agosto que se pudesse voltar no tempo, apagaria do calendário cristão...
Corria o ano de 1997.
Era dia 31 de Agosto.
Afanada mente, mas feliz, Magnólia preparava a festa de aniversário da sua única filha de 4 anos de idade.
Seria celebrada num estabelecimento de restauração situado na praia do Garajau.
Apesar da gerente do estabelecimento ser sua amiga e adorar a menina, importaria cara a aventura, aonde se previram jogos na praia, corridas de barco, e várias actividades no interior do mesmo, próprias quer para as crianças convidadas, quer para os adultos.
Na verdade, toda a turma do colégio - infantário da menina, aonde também já estudara Magnólia, pessoal docente, madre directora, padre capelão, iriam ao aniversário e despedida da princezinha.
Também os adultos familiares e amigos lá estariam com o mesmo propósito.
Todos sabiam que a seguir àquele dia ,Magnólia e a filha rumariam para Lisboa, aonde a primeira iniciaria formação com vista a enveredar por nova carreira profissional.
Magnólia licenciara-se em direito com nota de mérito.
Iniciou um percurso profissional alucinante que alterou em alguma medida em razão do casamento.
Contudo mesmo após tal acontecimento exerceu sempre cargo de direcção por mérito, entregando-se sempre a várias actividades demandadas pela sua alma activa, versátil, pouco dada a rotinas, quase inconstante, impregnada do voluntarismo ingénuo de quem criará um mundo novo.
Tudo o que fazia, fazia-o sempre apaixonadamente .
Não casou apaixonada, mas o marido foi na verdade o primeiro homem da sua vida e por ónus de formação e convicção ser-lhe-ia fiel e esforçar-se-ia por fazê-lo feliz.
Já ele, casou "de quatro", pois esta mulher sabe fazer-se amar, quando quer...
Mas ainda assim o casamento não deu certo.
Acordaram na separação, depois no divórcio.
Magnólia perguntava-se porquê. Teria ela feito algo errado ?
Era profundamente ligada a uma avó e o primeiro lugar que buscou para conversar a respeito, foi a sua campa.
Ali , como se uma tela de cinema projectasse cenas da sua vida, recordou momentos felizes, engraçados, partilhados por ambas.
A voz da avó ralhando com os garotos que lhe destruíam as culturas, já velhinha, dizendo : a minha neta vai ser doutora e vai prender-vos, seus malandros...
Depois queixava-se a ela dos meliantes e dizia-lhe : quando a menina se formar a avó já tem separado o dinheiro para dizer uma missa por tal intenção.
E num dia de aniversário ofertou-lhe uma ilustração belíssima com um texto biblíaco do livro de Isaías que se refere às qualidades que deve ter um homem de lei, um julgador e aonde se dizia que " Deus não terá por inocente aquele que exercendo tal poder trouxer opróbrio contra os órfãos, as viúvas , os desamparados do meu Povo".
Quando ali se encontrava, desceu ao cemitério a bondosa Alzira que caridosamente tratava algumas campas.
-Olha a menina Magnólia por aqui. Que coisa boa. Entre abraços e memórias deixou escapar :
A vozinha morreu mas eu entreguei o dinheiro ao Padre Alberto e a missa foi dita quando a menina se formou ...
Aquela revelação teve um impacto indescritível em Magnólia.
Decidiu cumprir a vontade da avó.
Seria difícil, com a menina e não só, mas ela sabia-se capaz.
Nunca deixaria, por medo, de pelo menos tentar...
Naquele dia 31 de Agosto trazia o bolo para a festa e o rádio noticiava o falecimento da Princesa Diana de Gales.
Realezas à parte, Magnólia e Diana tinham tanto de comum em suas vidas ...
-" Que horror", impressionou-se como se atormentada por uma espécie de presságio estranho...
A festa foi um sucesso. Um dia de felicidade irrepetível...
Habituada a bons resultados, a reconhecimento de mérito, Magnólia sofreu o embate do acesso a uma carreira dominada ao nível das instâncias de poder pela masculinidade, pela pouca abertura à mudança de procedimentos, formas , formatos.
Ela não era domável senão às suas mais profundas convicções mas sofreu a "formatação" possível e necessária ao desempenho da função que tanto idealizou e em tanto a desiludiu a vários níveis.
Porquê? Porque te meteste nisso?Perguntam os amigos. Vês agora ?!...
Crêem até que mais nada tinhas para fazer, a presunção, o preconceito, as ideias feitas que tanto sofrimento te causam não se apresentam nesse mundo?
A resposta vem pronta :
- Só assim sei ser útil aos outros,
- Só assim sei ser válida,
- Mudo o Mundo, sim, em pequeninos passos e pequeninas mudanças nos mundos de cada pessoa a quem dou um pouco de trabalho útil para essa pessoa.
E nunca cogitei estar na vida de outra maneira.
Mas é isso que se quer ?...
Quem sabe ?
Talvez existam incompatibilidades insupríveis entre o ideal e o possível, como em tudo, na vida...
Como em todos os mundos, até nos mundos aonde as histórias, ao contrário desta, são reais.
Maria

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

AUSÊNCIA


Até breve...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Vida de pedra

Conta-se que certo rei mouro tinha uma filha muito bonita!
A princesa era feliz, porque de nada sentia falta e considerava ser a mais afortunada das raparigas.
Por isso passava os dias a cantar sem nenhuma preocupação.
A sua voz era bela e ecoava com graciosidade pelas terras do reino.
Um dia, enquanto passeava, a princesa conheceu um pastor que há muito a admirava, fascinado pela sua beleza e com a sonoridade da sua voz.
Era um rapaz muito atraente, com evidente nobreza de alma, porém, muito pobre.
Ainda assim a princesa não conseguiu evitar apaixonar-se perdidamente por ele.
E ele, por ela.
Ela passou a considerar que sem o amor do seu pastor nada tinha na vida.
Repentinamente, compreendeu que nada como esse amor importaria para ela.
Porque não podia viver com alegria sem o amor dele e ele nada tinha senão o amor dela.
Porém. quando o rei descobriu este amor desigual, para ele,indigno da condição da filha,
ficou furioso .
Proibiu a princesa de ver o pastor, mas esta sempre o procurava e repetidamente se amavam cada vez mais profundamente.
Então o rei chamou o feiticeiro-mor do reino e lançou sobre a princesa um cruel encantamento.
Prendeu-a numa rocha e determinou que tal feitiço só se quebraria no dia que crescesse centeio daquela pedra.
Diz-se que dos olhos negros belíssimos da princesa brotavam regulamente duas lágrimas que escorriam da pedra até ao solo.
O pastor desesperado passou a dormir junto à pedra aonde aprisionaram sua amada.
E pese embora os feiticeiros do rei o tentassem por variadas formas desviar daquele local, ele inconsolável, nunca o abandonou, passando os seus dias a pensar como vencer desdita tão cruel.
A pedra que era um muro intransponível para a concretização do amor.
A pedra que tinha a dimensão e as formas de todas as impossibilidades.
Vencê-lo-ia ? A ele, cujos sentimentos moveriam montanhas ...
Passou a viver com o exclusivo propósito de encontrar uma forma de viabilizar o seu amor com a princesa.
E um dia ocorreu-lhe uma ideia.
Foi a correr buscar um balde de terra que depositou sobre a rocha.
Em seguida, semeou na terra uns grãos de centeio.
Depois regou a terra e sentou-se à espera.
Durante dias, meses, anos, o pastor aguardou!
Chovia e o pastor esperava.
O sol abrasava, mas o pastor não abandonava a rocha, protegendo o centeio que crescia.
Até que um dia um pau de centeio ficou maduro .
Assim que o cortou, quebrou-se o encantamento da princesa moura.
E foi uma felicidade incalculável voltar a tê-la nos seus braços para nunca mais se separarem.


A comprovar o amor de encanto dos dois, ainda hoje se vêm desenhadas na pedra as formas bonitas do corpo da mulher amada que ali foi encantada.


myspace layouts




Esta história deriva de uma lenda da região de Seia.
Se alguma coisa pode apreender-se pela reflexão é que nada na vida se obtém sem luta e sem determinação.
Talvez na vida, apenas se alcançem aquelas coisas que verdadeiramente queremos a ponto de por elas, "escalar montanhas de impossibilidades", viabilizar o inviável, lutar apesar da consciência do absolutamente improvável ...
Díficil não é atingir uma meta, mas sim desbravar caminhos e perserverar até lá...
Ainda que todos nos pensem tolos por vivermos na miragem de fazer crescer centeio de pedra morta ...


sábado, 8 de agosto de 2009

Prisioneiros de Guantanamo

Segundo a Lusa digital,
os dois detidos sírios de Guantanamo que Portugal vai receber são pai e filho e estavam presos sem acusação formada desde 2002.
Os dois detidos vão ser acolhidos em Portugal, por razões humanitárias.

De acordo com comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ser-lhes-á concedido um visto especial para entrada e permanência no nosso País ao abrigo do disposto no artigo 68.º da Lei nº 23/2007 de 4 de Julho.

Os EUA já terão elogiado o gesto humanitário Português.

A questão de fundo continua a ser esta : se reconhecem que têm pessoas injustamente detidas naquela prisão porque razões as não libertam pura e simplesmente e as deixam regressar à terra natal respectiva?

É sem dúvida a velha hipocrisia política que nunca deixa de reinar...

A verdade é que a libertação dessas pessoas, o reconhecimento da injustificação da sua detenção, teria efeitos, no domínio da paz entre as nações, que os EUA não estão preparados para suportar imediatamente.

Ainda assim, parece-nos já grande o passo dado por Obama quando em 22.01.2009 ordenou o encerramento daquela prisão no prazo máximo de um ano e proibiu os abusos durante interrogatórios de detidos, exigindo respeito à Convenção de Genebra .

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O mundo muda a cada gesto teu

Photobucket



" Planeei com todo o cuidado a minha morte; ao contrário da minha vida, que passou sinuosamente de uma coisa para outra, apesar das minhas débeis tentativas para a controlar.
A minha vida tinha tendência a dispersar-se, a tornar-se lassa, a fazer arabescos e festões como a moldura de um espelho barroco, o que acontecia por seguir a lei do menor esforço.
Eu queria que a minha morte, por contraste, fosse linear, simples e moderada, até um pouco severa, como uma igreja quacre (...)"
(Margaret Atwood, Senhora Oráculo, Bertrand Editora, Lxª, 2009)

domingo, 2 de agosto de 2009

A vida não chega ao domingo


Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'



Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto, in 'Salsugem'

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Fado


Muitas vezes me perguntam como é que eu, não tendo nascido em Lisboa, desenvolvi gosto tão particular pelo fado, a ponto de o cantar em público, em determinada fase da minha vida.
Também se diz que tudo na vida tem uma lógica explicação.
Eu disso nada sei, mas sei que a primeira vez que experimentei cantarolar uns acordes de fado, o fiz, a apelos de uma pessoa muito especial na minha vida.
Uma pessoa inesquescível, insubstituível. Alguém que não estando mais aqui, jamais deixa de permanecer comigo. Alguém que jamais esqueço, porque me é característica a impossibilidade de esquecer quem amo.
Aos quatro anos de idade uma meningite severa cegou-o e limitou-o muito nas suas capacidades físicas e cognitivas.
A sua idade mental manter-se-ia sempre aproximadamente nos seus quatro anos de idade, porém as suas capacidades psíquico-emocionais eram contudo, fabulosamente desenvolvidas.
Nasceu no mês de Novembro, por certo em dia inundado pelos céus de chuvas purificadoras, água, que lhe conferiu um carácter de uma sensibilidade e doçura extremas. Uma capacidade de amar e de se doar de verdadeira excepção.
O toque suave e terno das mãos que lhe serviam de olhos, sobre o meu rosto,sobre os meus cabelos, era uma emoção que sempre que relembrada me trás ainda hoje muita paz.
Este meu irmão cedo desenvolveu um gosto extraordinário pela música.
O meu pai comprou-lhe uma"telefonia", mais tarde substituída por um "gira-discos-gravador" e depois por uns aparelhos mais actuais que tocavam junto dele todas as horas do dia em que se mantinha acordado.
Além disso, tinha as suas flautas e gaitas, o acordeão e a guitarra do pai.
O pai cantarolava muito fado de Coimbra, mas ele ouvia na sua rádio os fados de Lisboa, tão em voga à época e definia preferências por cantores, vozes e modos de interpretar que cuidava de cândidamente imitar.
Alguns fadistas e cantores portugueses foram-me dados a conhecer por ele. Penso por exemplo em Marceneiro, Amália, Carlos Ramos, Fernanda Maria, Manuel Almeida, Tony de Matos e tantos outros de quem ele guardava uma ou outra canção que por motivo insuspeito o mais marcasse.
Habitualmente ouvia música indistinta e cantava-a como a escutava.
Recordo-o cantando expressivamente o "Tombe la neige" de Adamo ou o "Ne me quitte pas" e o "Prinstemps" de J. Brel e de se empolgar muitíssimo com o "My way" interpretado por Sinatra.
Em geral, cantarolava um pouco de tudo e até os Autores clássicos eram corridos nas suas melodias a assobio que afinadamente repetia e seguia de forma espantosamente harmoniosa.
Assim que me aproximava dele cruzava uma das mãos entre os meus dedos e pedia-me para cantar e o acompanhar nas suas cantigas.
Ao início era complicado, pois desconhecia quase todas as letras e não achava muita graça às melodias.
A minha mãe sentava-se junto de nós e dava o mote para eu seguir e compreender o "gosto dele", costumava habitualmente dizer-me.
- Nada custa seres um pouco generosa com ele, dizia-me também.
Arranjei um caderno aonde comecei a coligir letras que ele gostava e em pouco tempo divertiamo-nos muito cantando juntos.
As minhas colegas de escola que tinham alguma reserva inicial em relação à sua doença, facilmente integraram comigo, pouco tempo após o conhecer, um grupo coeso sempre pronto para a cantoria e foram muitas as tardes de poemas, músicas, cantigas e dança que partilhamos todos.
Até ao último dia de sua vida o meu irmão José cantou.
Pedia-me tantas vezes para cantar e tocar para ele o tema de Carlos Ramos "Não venhas tarde".
Seria premonitório, talvez...
Nessa noite, cheguei tarde...
Hoje, passeando pelo Youtube e pela rede encontrei alguns temas que seriam para ele uma preciosidade:
Aqui ,




e também aqui e aqui


Ficam por aqui e eu saio agora, pois bem vistas as horas, é tarde e ouve-se bem já o som do silêncio....


Maria

terça-feira, 28 de julho de 2009

A viúva

A história que vou hoje aqui contar ocorreu no ano de 2005, com uma amiga próxima, de características muito peculiares.
Ela trabalhava, à data, num Tribunal situado numa cidade de relativa dimensão, situada no coração do Ribatejo .
Sofrera nesse ano perdas dolorosas de que a duras penas de alma silenciava luto, num trajar de negro que só ela não compreendia o quanto iluminava o seu perfil.
A paisagem bucólica avistada das ameias das muralhas de um castelo ao sol poente sobre o rio, sulcado de banquinhos de areias que enfeitavam pequenos caudais de água que se unificavam mais abaixo, num abraço lânguido e profundo, ao azul de perder de vista entre o céu e o Tejo;


com toda a facilidade galvanizava a sua melancolia e perdia-lhe o olhar negro, como as suas vestes, por entre a luz rarefeita dos fins de tarde, em que ali se sentava e permanecia só, encetando diálogos de alma com Aquele que lhe levara os seus, inopinadamente, negociando com Ele, as condições em que os alojaria além do Sol, até chegar o momento em que ela própria partisse também e pudessem reunificar-se.
De natureza despistada e incrédula, toda ela era alheamento neste cenário, em que um homem Ribatejano dos quatro costados, amante dos touros e da terra, apreciador do bom vinho e de pouca resistência aos encantos da condição feminina, porém de alma franca e espírito resoluto, como todo o genuíno Ribatejano, reparou nela.
Ela não viu.
Porque nunca via...Ele contudo de imediato se prendeu à visão da sua aparente fragilidade envolvida naquele misterioso traje negro que a cobria, sem contudo esconder a seda clara, com que a natureza lhe envolvera os músculos desenhados nos membros inferiores e permitia ainda intuir-lhe um coração que pulsava do decote, em forma de v, decrescente até à cintura estruturada como uma espécie de faixa de Gaza, em território selvagem a descobrir e conquistar. Passou a seguir todos os seus passos, apropriou-se das suas rotinas, conheceu-lhe o filho, a casa e o emprego, pese embora não soubesse exactamente em que consistia o seu trabalho.

Viu-a ali entrar.


Tal qual no restaurante da D. Maria que particularmente nessa fase, era quem garantia a regularidade da sopinha da casa, já que o espírito andava pouco amigo de qualquer espécie de cozinhado ou complicação. Mas, nem ao menino podiam faltar legumes, nem a ela, o mínimo que lhe exigia a necessidade de se manter na luta para que ele crescesse feliz.
A D. Maria era uma mulher extraordinária que se sentava muitas vezes à mesa com os clientes da casa, alimentando-os de esperança, repartindo vivências, doando um carinho fraterno nas pausas das suas palavras bem pronunciadas, abertas, tal qual o seu coração.
E a minha amiga gostava especialmente dela.
Além disso, sempre que precisava de actualizar a sua informação sobre os acontecimentos no burgo, sabia não encontrar fonte mais qualificada.
Quando se apercebeu que aquele homem perseguia todos os seus movimentos e notou que reparara mesmo na porta de sua casa, a minha amiga começou a preocupar-se com a segurança do filho.
Perguntou à D. Maria se sabia quem era aquele homem que se sentara na mesa à frente e que a seguia há alguns dias. Pediu que não a interpretasse mal, mas temia que tivesse algum mau propósito e, nesse, atingisse a sua criança.
D. Maria sorria e repetia-lhe insistentemente que uma mulher como ela não devia estar só.
Um dia, o homem seguio-a de carro até à porta do emprego.
Angustiada, estacionou o seu carro, a correr subiu a longa e fria escadaria central do edifício, e chegada aos Serviços deparou-se, casualmente, com o Chefe de uma das polícias locais.
Explicou-lhe a situação e pediu que o identificasse e perguntasse porque a seguia.
O Chefe espreitou pela janela e notou que a viatura do indivíduo em causa se encontrava ali, com o motor em funcionamento.
Dirigiu-se a ele e perguntou-lhe se conhecia a minha amiga e porque a seguia.
O homem respondeu simplesmente :
- Gosto dela, mas ela ficou por certo viúva há pouco tempo, porque tem sempre espelhada uma tristeza tão grande no olhar que eu olho, olho para ela mas não consigo dizer-lhe nada. Perco a coragem ...
Desconheço o que o Polícia respondeu ao homem, mas sei que regressou ao Serviço sorrindo matreiramente e com arzinho de provocação perguntou à minha amiga :
- Por acaso conhece disposição penal que puna uma pessoa por se apaixonar por outra ?
Pobrezinha, foi o alvo referencial de todas as graças, ditos e não ditos por parte quer de todos os colegas, quer entre polícias aonde a história se espalhou no meio :
" Só faltaria o Polícia deter um homem só porque gostou dela"...
Na verdade nem há palavras para descrever o transtorno em que a minha amiga ficou.
Ela que chegou a cogitar não fosse o homem perigoso meliante, quem sabe até relacionado ao tráfico de armas, não lhe restou uma única sequer, para armar a defesa ao seu rosto corado pelo desastre da situação em que incorreu...
Ainda hoje quando lhe relembramos este acontecimento cora abundantemente.
Pior foi quando a D. Maria lhe disse :
- Eu já sabia, ele havia-me dito . Também é viúvo, tem uma boa quinta com animais de pasto, touros e cavalos, com os quais o seu menino poderia brincar ...
Conhecendo como a conheço, a minha amiga ficou por certo com os cabelos em pé.
Ela que vivia sonhando o amor, mas jamais aprendeu a vivê-lo ...
*
Recordei hoje esta história por causa do negro e do luto.
Em jeito de graça, dizia-me a mãe este fim de semana:
- Só para eu ficar certa de que tal não te ocorrerá a ti por minha causa, tal qual sucedeu a ela, promete-me que não vestirás negro ...
Sabes filha, a mãe "pitosga" como já se encontra, se te puseres a falar para o céu vestida de negro, por certo não te alcançará com a vista...
Prometes à mãe que se te der para falar para o céu, vestes pelo menos algo mais visível ?!...

(...)
A minha amiga voltou a ver o Ribatejano valoroso que se encantou pelo seu vestido preto.

Um dia conto o que aconteceu, após ...

Maria