A história que aqui deixo hoje, não é da minha autoria.
Foi escrita sob a forma de composição por um adolescente numa escola próxima .
Fiz pequenas alterações no texto (alguns cortes de texto) com o propósito de não permitir a identificação da Autora a partir do seu conteúdo original, já que se trata de um episódio real, numa vida, também ela, real.
Procurei contudo, pese embora essa limitação, manter o mais integralmente possível o seu propósito e as expressões originalmente utilizadas.
Foi escrita sob a forma de composição por um adolescente numa escola próxima .
Fiz pequenas alterações no texto (alguns cortes de texto) com o propósito de não permitir a identificação da Autora a partir do seu conteúdo original, já que se trata de um episódio real, numa vida, também ela, real.
Procurei contudo, pese embora essa limitação, manter o mais integralmente possível o seu propósito e as expressões originalmente utilizadas.
CARTA AO PAI NATAL"Como se tivesse seis anos, pedem-me que escreva uma carta ao Pai Natal.
O mais cretino é saber que se escreve a alguém que não dará qualquer resposta e ainda assim escrever, como se grafitasse o muro do hospital psiquiátrico mais próximo e conseguisse então um olhar directo do mundo sobre a "loucura " .
Então és Pai ?!...
E cabe-te dar coisas no Natal...
O meu pai, também me deveria dar coisas.
Mas não dá. Mudou-se. Talvez para a Lapónia que se situa na minha bolinha de neve e cristal ...
A minha mãe está de luto e sem emprego.
Mas é a minha mãe. Continua a ser o colo das minhas tempestades, o sol dos meus dias de inverno.
A parede mestra cá da casa.
Na falta de outras coisas mantém um sorriso para pretensamente me iludir sobre a cor da sua alma e me transmitir calma.
Já não tenho 6 anos, mãe...
Já não tenho...
Lembro-me das noites em que lias para mim, das noites com febre de infância e das pontinhas dos teus dedos suavemente sobre o meu peito e as minhas costas, em movimentos redondinhos para facilitar-me a respiração. Lembro-me que cantavas, enquanto me ninavas nessas ocasiões.
Lembro-me de me chamares "tua menina" e me dizeres que seria feliz para sempre como as princesas das tuas histórias de encantar.
O maior defeito da minha mãe é ser muito linda.
Não é só do aspecto dela que estou a falar. É de dentro...
Isso causa muitos transtornos na nossa vida.
Sem o pai em casa e sem fonte de rendimento, sei que a mãe não aceitará fazer nada de ilícito à luz dos valores dela, para obter dinheiro.
As soluções não vêm com o Pai Natal e não estão fáceis de encontrar.
E nós passamos fome e outras privações.
Ela sorri sempre.
Planificando a noite de natal, fez-me montar a árvore do natal e o presépio.
Mas a gata já roeu a ficha das luzinhas de natal e já nem mesmo a árvore tem qualquer brilho.
"Olha", diz a mãe, "vieram cá uns amigos e temos bacalhau para demolhar, temos grão e feijão. Temos azeite.
E como ainda há leite e limão no quintal far-te-ei um bolo".
Abrindo os armários vazios prosseguia a sua tentativa de tornar menos dolorosa a minha expectativa sobre a ceia de natal.
-"Não te preocupes mãe. Ainda tenho cereais de chocolate e o Natal é apenas mais um dia. Outros virão."
Claro, mas insistia, "far-te-ei um bolo".
Subitamente o olhar da minha mãe aonde vivem aos milhares sentimentos e palavras, fixou-se num ponto perdido do armário.
Via que ela procurava qualquer coisa e que não encontrava forma de me dizer do que se tratava.
Não havia farinha em casa...
Ainda havia leite, ovos e limão no quintal para fazer um bolo no dia de Natal.
Mas não havia farinha e os últimos euros foram deixados na farmácia no dia de gripe mais intensa que me tem acompanhado nestes últimos tempos.
Assim, Pai que és de Natal, e que dizes presentear na vida a quem não faça mal, hoje escrevo-te apenas para te desmascarar.
Volta para a Lapónia ou para aquela parte...
Porque eu até te posso perdoar a fome, as privações que eu e tantos mais têm passado por conta da tua incompetência ou da incompetência da tua entidade patronal.
Mas há algo que não te perdoarei jamais : o olhar perdido no fundo do armário da minha mãe.
Ela que sempre cumpriu todas as regras e fez questão de ser sempre boa menina, só ganhou de ti na vida bolos sem farinha ..."



















