sábado, 22 de abril de 2017

POESIA NAS PRISÕES

http://expresso.sapo.pt/podcasts/a-beleza-das-pequenas-coisas/2016-05-13-Ha-um-homem-que-anda-pelo-pais-a-levar-poesia-as-prisoes.-E-ate-os-mais-duroes-se-emocionam

Para ouvir, clique no link, por favor.

O que resta quando nos tiram tudo? O que nos salva quando o mundo parece estar todo contra nós? Todos os dias erramos. Errar é humano e até necessário para sabermos acertar. Mas há erros maiores (piores) que se pagam caro. E que, por vezes, levantam grades e muros para nos redimirmos do mal. Ou do deslize. O que resta quando nos tiram tudo? Talvez a palavra. Talvez a poesia. Talvez a chegada de alguém que nos ouve e nos ampara. Pode a poesia salvar-nos?
Filipe Lopes, 40 anos, acredita nisso. Ele que é contador de histórias serve sonho e poesia em doses generosas a quem tem fome de liberdade, de amor, de horizonte, de esperança e redenção. Há 13 anos que Filipe faz magia. Tira poemas da cartola e leva-os às prisões no projecto “A Poesia Não Tem Grades”. A leitura é a sua forma de viver — entre bibliotecas, escolas, hospitais e prisões. A poesia, uma forma de olhar e interpretar o mundo. E, sublinhe-se, Filipe lê poesia de uma forma belíssima, dá peso, paisagem e corpo a cada palavra. Poderá ouvi-lo a dizer inúmeros poemas ao longo deste episódio.
E tudo custa menos quando há palavras bonitas, ou duras, viscerais que chegam a lugares que poucos alcançam e nos libertam. Aconteceu o mesmo a Filipe. Um dia um poema mudou-lhe a vida. “Devemos andar sempre bêbedos”, do poeta boémio Charles Baudelaire foi o texto que o abalou. E o salvou do lado marginal da vida. Mas com quê? – perguntava o poeta. “Com vinho, virtude e poesia!”
Qual a maior virtude da poesia? “A poesia é um caminho para nos descobrirmos. É isso que eu sinto claramente. A poesia permite-nos abrir caminhos dentro de nós para que nós possamos ter essa liberdade. Para sabermos um pouco mais do que somos e para onde é que queremos ir. A poesia dá-nos essa possibilidade de sermos melhores pessoas se nós quisermos ser pessoas melhores. Porque temos a liberdade de não querermos ser pessoas melhores.”
Filipe que, de momento, faz estas visitas às prisões de forma voluntária, sem qualquer apoio económico, procura parcerias com empresas e entidades para que o projecto tenha futuro. Porque, como escreveu Baudelaire, “todo o homem saudável consegue ficar dois dias sem comer — Sem a poesia, jamais!“. E porque os presos de hoje, poderão ser os nossos futuros vizinhos amanhã e é responsabilidade da sociedade, de todos, não lhes virar as costas para que possam sair dos estabelecimentos prisionais mais preparados para viver em sociedade.
“Acredito que a poesia, a literatura, nos consegue transportar para outros lugares, que nos conseguem dar sensações muito boas. Há uns anos um recluso disse-me uma coisa que me marcou, depois de eu ter lido o tal poema de Baudelaire. Contou-me que estava na prisão porque tinha tido problemas com drogas e que estava a tentar ver-se livre desse vício dentro da prisão — o que como podemos imaginar não é fácil — mas que lá dentro tinha descoberto um outro vício. Tinha descoberto o vício dos livros e da leitura. E que, ao ler alguns textos, tinha sentido sensações tão boas como quando tinha tomado algumas substâncias. Isso ficou-me muito marcado. Porque é exactamente isso que eu quero passar.” E diz mais. Filipe acredita sobretudo que quem adquire hábitos de leitura ganha asas e maiores horizontes. “No trabalho que eu faço com os reclusos, digo-lhes muita vez que quanto mais conhecermos, quanto mais nós soubermos, mais fácil é que os outros não nos manipulem, que os outros não nos enganem. Quanto mais palavras nós conhecermos mais fácil é se estivermos frente a um juiz (que vai decidir sobre a nossa liberdade condicional) consigamos utilizar as palavras mais correctas, mais adequadas para que a nossa posição, por mais justa que seja, possa ser melhor entendida. Se nos atrapalharmos todos e não soubermos as palavras mais adequadas se calhar é mais difícil que a mensagem passe.”
As sessões de leitura de Filipe duram 90 minutos e passam num instante. Durante esse momento partilham-se histórias (a maioria delas pesadas, dramáticas), libertam-se lágrimas, descobrem-se gostos e vocações. Filipe sabe muito bem como os seduzir para a poesia. “Começo por perguntar quem gosta de futebol, cinema, música e poesia. Quase toda a gente gosta de tudo menos poesia. Mas todos gostam de música. E quando eu desmonto, e mostro que quase todas as músicas contêm um poema, que é a letra da canção, digo-lhes: “Ah! Afinal vocês gostam de poesia!” Isto parece básico e simples, mas é o clique suficiente para que me dêem o benefício da dúvida. E para que, a partir daí, possamos ter um diálogo a par.”
Estas sessões são, como conta Filipe, uma montanha russa de emoções. Há poemas que vão directamente ao estômago e ao coração dos reclusos, sem aviso prévio. E atingem mesmo os mais durões que acabam por se abrir e entregar. O que é admirável. “Muitas vezes temos pessoas a chorar durante a sessão. Em tempos estive a conversar com um grupo de reclusos sobre como é que se chora dentro de uma cadeia? E foi muito interessante ouvir um deles dizer ‘ sim, nós choramos. Se calhar não choramos à frente dos outros, mas todos choramos. Não há ninguém que passe por um sítio destes e que não chore’. Aquelas sessões são catárticas. É um momento fabuloso em que consigo pôr aqueles homens, alguns grandes e tatuados, que cometeram crimes, a chorar. Num lugar onde é importante passar a virilidade, a poesia vai buscar a forma de expressarem os sentimentos. E há muita gente a começar a escrever e a ler na prisão. Às vezes, escrevem poemas e contos magníficos. Outros desenham, pintam. Pessoas que nunca tiveram essa oportunidade e tempo cá fora.”
Filipe Lopes tem cerca de 150 textos na manga. Não entra nas prisões com livros, mas com folhas, por ser mais prático de passar pelos seguranças e grades. Os poetas que o acompanham sempre são Eugénio de Andrade, Florbela Espanca, Mário-Henrique Leiria, Alberto Pimenta, António Lobo Antunes, Fernando Pessoa, Jorge de Sena e... José Luís Peixoto. E é um certo poema de Peixoto — o “Cinco à mesa” — que comove sempre os grupos de reclusos. Porque fala de algo que todos sentem na pele, a ausência. “É extremamente marcante. É difícil fugir a ele. É um poema muito interessante e muito forte sobre a perda. No caso autobiográfico do José Luís, a perda do pai. Mas que consigo transportar para aquele ambiente [da prisão]. Cada um deles [dos reclusos] é um lugar vazio numa mesa de alguém...“.
Uma das razões para Filipe ser tão bem aceite pelos reclusos, é porque os visita sem preconceitos, ideias feitas ou sobranceria. São pessoas que erraram. Filipe acredita que poderia ter sido ele. Ou qualquer um de nós e vós. “O que se vê nas séries ou nos filmes é ficção. Eu não sou melhor do que eles. Quase todos nós podíamos estar lá por uma razão ou por outra. Certamente toda a gente conhece casos, como eu conheço, de pessoas que cometeram crimes às vezes por uma vingança quase justificável. Nunca é justificável fazer justiça pelas próprias mãos, mas todos nós temos alguma simpatia por algumas situações que talvez nos levassem a fazer o mesmo se fossemos confrontados com isso, com uma situação de um familiar, de um filho. Há muita coisa que pode acontecer nas nossas vidas e tornar-nos nessas pessoas que falham e que os levam para trás das grades.”
Filipe é um herói solitário, mas procura mais cúmplices para este projecto que tem transformado vidas. E neste episódio conta algumas histórias partilhadas nas prisões e sobre algumas profundas mudanças de ex-reclusos — podem ouvir-se alguns sons de reclusos cedidos pela RTP. E, no final, Filipe fala um pouco de si. De como aos 40 anos está mais fiel a si próprio e ao que quer para a sua vida. Sem se preocupar com o olhar dos outros. Sempre com a poesia na voz, nos olhos e no coração.
Deixamos-lhe aqui um poema de Herberto Hélder com que pode acompanhar este episódio e que tanto tem a ver com o que é contado neste episódio.
“Quem é que está continuamente a salvar-me — De que medo, de que perigo, de que desastre? Mas só quando me não perco é que me afundo na água primeira de onde venho, no sal primeiro de onde venho, e chego a este pouco onde — tão pouco! — me começo, me acabo, e me salvo”
E ainda a lista dos poemas que são lidos durante a conversa, por ordem:
"Chamada Geral", de Mário-Henrique Leiria
"Devemos Andar Sempre Bêbados", de Charles Baudelaire
“Em Linha de Conta”. José Carlos Barros com Otília Monteiro Fernandes
"Na Hora de Pôr A Mesa", de José Luís Peixoto
"Às Mulheres, No Que Me Diz Respeito", DH Lawrence.
“Lisbon Revisited”, de Álvaro de Campos

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.
O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.

sábado, 4 de março de 2017

O mundo em risco



Pyongyang advertiu este sábado que os EUA vão "pagar caro" se voltarem a incluir a Coreia do Norte na lista dos países patrocinadores do terrorismo na sequência do assassínio do meio-irmão do líder norte-coreano, no mês passado.

"Os Estados Unidos vão perceber quão caro vão ter de pagar pelas suas acusações infundadas contra a digna" Coreia do Norte no caso de voltarem a incluir o país na lista negra do terrorismo, advertiu o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros norte-coreano citado pela agência oficial KCNA.
O assassínio de Kim Jong-nam, em 13 de fevereiro, no aeroporto de Kuala Lumpur, desencadeou uma série de apelos, incluindo de deputados norte-americanos, para que a Coreia do Norte seja reintegrada na lista de países que patrocinam o terrorismo e Seul anunciou que iria apresentar um pedido formal para o efeito.
O porta-voz da diplomacia norte-coreana sublinhou que Pyongyang se opõe "a todas as formas de terrorismo" e acusou os Estados Unidos de tentarem denegrir a sua reputação.
"Já lá vai o tempo em que os Estados Unidos podiam aleatoriamente estigmatizar e oprimir aqueles países que incorriam no seu descontentamento, enquanto tinha o mundo sob o seu controlo", argumentou o mesmo responsável.
A Coreia do Norte foi catalogada como país patrocinador do terrorismo internacional em 1987 após o atentado à bomba levado a cabo por dois agentes seus contra um avião sul-coreano, que matou todas as 115 pessoas que seguiam a bordo.
Contudo, foi retirada da lista negra em 2008, durante a administração do Presidente norte-americano George W. Bush, devido aos progressos para a desnuclearização.
No entanto, desde então a Coreia do Norte retomou as suas atividades, tendo levado a cabo quatro ensaios nucleares e inúmeros testes de mísseis balísticos apesar de proibidos à luz de uma série de resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Atualmente, os Estados Unidos consideram como Estados que patrocinam o terrorismo o Irão, Sudão e Síria.
A Coreia do Norte negou qualquer envolvimento na morte de Kim Jong-nam, acusando a Coreia do Sul, os Estados Unidos e a Malásia de uma "campanha de difamação".

Fonte : Jornal de Notícias digital

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Um poema de dor


Lisboa 21.02.2017, 14:03h, Estação de Comboio de Sete Rios

Na pequena parede que ladeia a linha férrea crua, agre, aonde por vezes se perdem vidas dramaticamente, como por ironia, alguém desenhou a palavra "POESIA".
As pessoas passam indiferentes a tudo, pesquisam horários e trajetos dos comboios e aguardam. Esperam como se espera a vida quando dela só se aguarda destino certo.
Entre elas, um homem agastado pelas marcas do tempo, inquieto, ansioso, de olhar perdido, fala sem que ninguém lhe responda ou sequer o note.
Naquele olhar havia um ar de bipolaridade ou mesmo pior e muita mágoa que assustava um pouco. Seria por isso talvez que um pequeno grupo juvenil sorrindo das suas faltas se afastou enquanto deixava escutar : "é louco".
Sentei-me a seu lado.
Ele prosseguia" anda um homem aqui desde a manhã sem comer nada e nem um restaurante..."
Estranhei. Com efeito a estação conta com vários estabelecimentos de restauração.
No entanto, hesitante, olhei-o e disse-lhe: - Não precisa ficar assim, pegue numas moedinhas e ali mesmo na máquina consegue tirar algo para pelo menos confortar o estomago".
O homem olhou-me com uma estranheza rara e tão subitamente o seu olhar ganhou uma serenidade inesperada.
Respondeu-me : - Estou quase a chegar a casa, quero ir para Benfica, apenas não sei onde estou."
Aproximei-me dele e com a ternura que consegui vestir a voz , tranquilizei-o:
- Está em Sete Rios. E está bem. É nesta linha que passará o comboio que leva a Benfica. Fique tranquilo, eu própria viajarei nele.. Dir-lhe-ei. Não está perdido.
Durante alguns momentos serenou.
Levantou-se depois para pedir um cigarro a alguém.
A mim não o fez. Perceberia que não fumo?!...
Depois regressou para junto de mim.
À chegada do comboio, assinalei -lhe que devia entrar.
Viajamos de pé em silêncio. Nunca saiu do meu lado.
Momentos depois um rapaz dirigiu-se a mim e pediu-me dinheiro para comer.
Nada tinha ali que pudesse ofertar-lhe, o que lhe disse.
Nesse momento o homem segredou-me : "estou pior do que ele, sabe? Tive licença para ir a casa, mas estou preso."
Uma sensação dúbia invadiu-me. Poderia estar a conversar com alguém perigoso. Um lado de mim censura-me esta tendência de alma para cuidar dos males do mundo. Mas outro lado impôs-me perguntar ao que restava daquele ser humano: - Mas o que aconteceu ?
Ia contar-me, quando logo se chegou a Benfica.
Então disse-lhe : - se tem que sair em Benfica é aqui.
Despedindo-se com um olhar gasto e grato, repetiu: sim é aqui. E partiu.

Eu prossegui viagem perdida de curiosidade. Não sei o que fez aquele homem. Sei que restava tão pouco dele. E o que restava se acalmava e crescia com um mero e insignificante gesto de atenção.

Maria

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Vamos falar de eutanásia


Existem pelo menos quatro tipos de eutanásia, divididos em duas categorias: a voluntária e a involuntária, e a passiva e a activa.
Na eutanásia activa, também chamada de positiva ou directa, o paciente recebe uma injecção ou uma dose letal de medicamentos.
Conhecida ainda como negativa ou indireta, a eutanásia passiva foi a que matou por exemplo a italiana de 37 anos Eluana Englaro, cuja alimentação foi suspensa.
Aqui, é a omissão: o paciente deixa de receber algo de que precisa para , sobreviver.
A diferença entre eutanásia voluntária e involuntária está na participação do paciente.
Numa, ele coopera, tomando parte da decisão. Na outra, é praticada sem o seu aval ou mesmo sem o seu conhecimento
. Uma outra classificação, que cruza fins e voluntariedade, divide a eutanásia em libertadora (aquela que abrevia a dor de um doente incurável),
Piedosa (aplicada a pacientes terminais e em estado inconsciente)
e eugénica (do tipo que os nazistas praticavam para eliminar indivíduos apsíquicos e associais).
A eutanásia é permitida pelo menos na Holanda desde Abril de 2002, na Bélgica, desde Setembro de 2002, na Suécia, debatendo-se a sua legalização em vários outros países, em particular Europeus.
Eu sou frontalmente contra a eutanásia. Não por motivos religiosos, morais ou éticos cuja valia compreendo, mas por motivos de cidadania.
Há uma profunda hipocrisia dos Estados em não admitir que é muito mais simples não despender verbas com cuidados paliativos de saúde do que induzir a morte. Lucram as funerárias, dinamiza-se a economia, apoiando quem negoceia com a morte (e como estão pela hora da morte, nos nossos dias, os funerais). É cruel, mas é verdade, pensando fria e objectivamente sobre o assunto.
Legalizar a eutanásia a pedido do paciente remete para outra questão : que pacientes pedem a morte ? E porquê pede um paciente a morte ?
Porque tem uma doença incurável e irreversível ? Quantas já o foram e hoje não são ? Quantas pessoas depois de anos de coma saiem dele?
E o que dizer do estado psíquico de alguém que pede a morte ao invés da vida?
Pessoas deprimidas tantas vezes pedem a morte. Tomam iniciativas para pôr termo às suas vidas. Às vezes bem sucedidas.
Se o critério for a autodeterminação do doente, qual é o limite? Quem decide ?
Em última instância matar alguém em estado terminal pode ser na realidade matar alguém que ainda pudesse viver. Seja porque a investigação e a ciência estão em permanente evolução, seja porque os motivos da morte e da vida, por mais que custe a aceitar, escapam à racionalidade e à vontade humana.
Quantas vezes tudo se faz para salvar uma jovem vida, por exemplo, mas a morte impõe-se apesar de se nos afigurar absurda para as suas circunstâncias.
Assim como eu abomino a pena de morte porque prefiro a ideia de libertar por erro um culpado do que matar por erro um inocente, abomino a ideia da eutanásia.
A vida é um direito fundamental . Deve ser defendido por aqueles que investimos para defenderem os nossos direitos. O contrário é uma aberração.
Maria

sábado, 28 de janeiro de 2017

Trumpalhadas

Isto está bonito... É que não basta ignorar os problemas climáticos e ambientais, ainda implementa a lei da rolha sem disfarce.

http://www.msn.com/pt-pt/noticias/mundo/trump-pro%C3%ADbe-funcion%C3%A1rios-da-ag%C3%AAncia-de-prote%C3%A7%C3%A3o-ambiental-de-dar-informa%C3%A7%C3%B5es/ar-AAmbNdn

Aos que dizem que Trump está a isolar a América eu diria que pouco me incomodava. Só terão o que escolheram.
O Mundo é que não escolheu Trump e terá que viver com ele e com as consequências tresloucadas dos seus atos.
É um caso muito sério.
Mas ainda bem que ainda há quem consiga rir ...

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Um resto de nada


Já ressuscitei de tantas mortes.
Já sobrevivi a tanta dor.
Estou certa, somente por amor.
Resta tão pouco de mim
Que hoje quando falam para mim
Eu sempre questiono se é para mim que estão a falar.
Em quase nada reconheço hoje a minha alma
esmagada pelo tempo da demora e pela dor.
Quando me tiraram tudo, senti-me cheia,
Porque tu estavas em mim.
E as tuas palavras sempre me acarinhavam.
E florescia-me no peito um jardim
Cuidado por ti.
Até que te perdeste por outras paragens
E deixaste de olhar para mim
E o teu silêncio esmagador
Silenciou a minha voz
E de todas as mortes a que sobrevivi
Não sobreviverei a esta ausência de ti!


Maria

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Dez anos após a morte de Mário Cesariny



Um Grande Utensílio de Amor

um grande utensílio de amor 
meia laranja de alegria 
dez toneladas de suor 
um minuto de geometria 

quatro rimas sem coração 
dois desastres sem novidade 
um preto que vai para o sertão 
um branco que vem à cidade 

uma meia-tinta no sol 
cinco dias de angústia no foro 
o cigarro a descer o paiol 
a trepanação do touro 
mil bocas a ver e a contar 
uma altura de fazer turismo 
um arranha-céus a ripar 
meia-quarta de cristianismo 

uma prancha sem porta sem escada 
um grifo nas linhas da mão 
uma Ibéria muito desgraçada 
um Rossio de solidão 

Mário Cesariny, in 'Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano' 

http://www.jn.pt/cultura/interior/homenagem-a-cesariny-reuniu-familia-amigos-camara-governo-e-presidente-5541570.html

sábado, 22 de outubro de 2016

É possível questionar o poder judicial, ou este é por natureza inquestionável ?




CURIOSiDADES: Os juízes devem ser eleitos ou nomeados ? 

 *
 Esta é uma questão recorrente na ideologia do direito.
 Se o poder judicial dependesse do voto popular, certamente se corria o risco de não conseguir os melhores magistrados mas aqueles que mais capacidades tivessem para convencer o eleitorado de que poderiam bem desempenhar tais funções. 
 Seria de algum modo como na política : nem sempre são escolhidos os mais capazes mas os que melhor capacidade têm de fazer o eleitorado acreditar nisso.
 Em contrapartida quando um político não atua conforme o bem comum é penalizado no voto.
 As suas decisões são escrutinadas e controladas pelo Povo.
 Já no caso da Justiça são os seus próprios pares que sindicam, inspecionam e discplinam as funções jurisdicionais.
 Respeitada formalmenta a lei, mesmo que esse respeito redunde numa decisão que a comunidade refute desproporcional ou mesmo material ou substancialmente injusta, não há poder externo à Justiça que se lhe possa impor.
 O Direito impõe-se por essência coercivamente e de forma absoluta relativamente a outros poderes do Estado dos quais a Justiça é independente e autónoma.
 E esta independência foi uma conquista da democracia.

 Sendo assim até que ponto é legítimo e permitido a um cidadão indagar, questionar ou formar e expressar opinião sobre o desempenho deste poder de soberania sem incorrer em ilegalidade ? 

É uma questão sobre a qual vale a pena ponderar

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Burguesinha"

Certa vez um amigo em diálogo sobre solidariedade e justiça social disse-me algo que nunca mais pude esquecer.
- Que podes tu entender das dificuldades do teu semelhante pequena burguesinha ? Já chegaste a meio do mês com meros 20€ no bolso e uma família para sustentar? Já precisaste de um dentista e não pudeste sequer agendar consulta por não teres dinheiro ? Já esperaste meses, anos, por uma consulta no sistema de saúde para tratar um problema grave e viste um familiar irremediavelmente perdido por não conseguir oportuna intervenção ? Já evitaste ir a um hospital, precisando, por não poderes pagar taxa moderadora e apesar da tua vida te negarem a isenção ? Já te cortaram luz, água, gaz porque não pudeste pagar os consumos? Já permaneceste sem comunicações de alguma espécie porque nem um telefone podias carregar? Já , de tanta privação, tiveste de pedir comida? Já quiseste dar algo essencial a um filho e não pudeste? Já tiveste o lugar aonde vives ameaçado e temeste ir viver na rua ? Já precisaste de uns meros euros para te deslocar e pedir ajuda e tiveste de andar quilómetros a pé para chegar lá ?
Sabes porque as mulheres pobres engordam e envelhecem precocemente ?
Elas não podem escolher o que comem, não podem pagar ginásios nem tratamentos ou cuidados de saúde estética, não podem cuidar os dentes, os cabelos, a pele.
- Diz-me pois tu que nunca viveste estas coisas o que verdadeiramente te liga a estas pessoas?
Sempre me ligou o coração às dificuldades humanas.
Mas com o tempo fui compreendendo que não chegava preparar-se , estudar, trabalhar, lutar por uma vida minimamente confortável e digna para nos salvar de cair numa situação humanamente degradante.
Pessoas bem posicionadas na vida por circunstâncias várias na vida e sem que nada o faça prever podem perder tudo.
Incêndios, calamidades que ceifam vidas, difíceis de reerguer quando já não se arranja um trabalho. Situações em que pessoas são privadas de aceder ao trabalho também as há. Polícias suspensos sem vencimento. Pessoas a sobreviver sem qualquer vencimento que não queriam nem um subsidiuzinho nem a nossa caridade, queriam apenas sustentar-se dignamente fazendo aquilo para que estão habilitadas a fazer , mediante um trabalho digno.
É preciso apontar sem erro que leis existem, conjugadas com a estrutura do sistema político, económico, social e cultural que promovem a pobreza neste País ainda que involuntariamente. É preciso reinventar uma consciência social nova e novos valores. É preciso combater a indiferença ao sofrimento alheio. É preciso que a vida deixe de ser uma exposição ou feira de vaidades a banhos, de lautos repastos, de luxos, distante da realidade de tantos que por vezes nem para estatísticas contam.
Pense nisto : se estiver ao seu alcance sorrir, estender a mão, abraçar alguém em dor, oferecer um emprego, partilhar algo que talvez lhe seja até supérfluo, não seja indiferente.
A vida é ,mesmo para os maiores, uma grande incógnita e está em permanente mutação.

domingo, 27 de março de 2016

BOA PÁSCOA





Mesmo para os não crentes é inegável a grandeza e o interesse como leitura dos livros da Bíblia, plenos de estórias, parábolas, metafóras de grande sabedoria .
Gosto de abri-los como quem lança a sorte , inopinadamente e ler um pouco por páginas assim tiradas à toa.
NESTA MANHÃ DE PÁSCOA abri-a assim e "caí" no Livro de JOB.
Para quem não saiba JOB era um homem riquissimo, titular de um cargo público, abençoado com uma grande família, amigos, muita prosperidade, um bom casamento e era um homem bom e justo. Conta a estória que Santanás desafiou Deus a colocar JOB à prova dizendo-lhe : deixa que lhe tire tudo e verás como ele deixará de reger-se pelos teus mandamentos, perderá a bondade e a justiça. E Deus aceitou o desafio.
Então JOB perdeu tudo: morrerram os filhos, perdeu propriedades e riqueza, perdeu prosperidade e, claro, os amigos, foi atingido com lepra e até a mulher lhe disse : amaldiçoa o teu Deus e morre.
Abri no Capítulo 19 que tem sob título "JOB queixa-se da dureza dos seus amigos", versículos 6 a 20..
"Eis que clamo, mas não sou ouvido; grito : socorro, mas não há justiça.
O meu caminho foi entrincheirado e não posso passar.Nas minhas veredas há trevas.
Da minha honra fui despojado, quebrado de todos os lados, arrancada como uma árvore a minha esperança.
Inflama contra mim a ira dos meus inimigos.
Longe de mim os meus irmãos estranham-me.
Deixaram-me os meus parentes e os conhecidos esqueceram-se de mim
Até os meus domésticos, o meu criado me não respondem.
Fiz-me estranho até à minha mulher e filhos (...)
JOB19,25: MAS
"...EU SEI QUE O MEU REDENTOR VIVE E QUE POR FIM, SE LEVANTARÁ SOBRE A TERRA".
*
*
*
Para quem crê celebra-se a ressureição de um Deus que vive.
Para quem não crê celebra-se a festa de um mundo que mais que nunca precisaria de um Deus vivo, na mesma medida que de esperança, sabedoria e bondade!

BOM DOMINGO DE PÁSCOA PARA TODOS VÓS !

sexta-feira, 25 de março de 2016

No fio da navalha






(...)
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.



Excerto de "Haver" de Vinicius de Moraes15/04/1962

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Abaixo a lei da rolha !

INTERNET E RELAÇÕES LABORAIS
Maria S. Portugal


Não são raras as pessoas que são ou se viram já incomodadas pelas suas entidades patronais pelo uso pessoal da internet, em particular, das redes sociais.
Não falo de práticas criminosas ou sequer do uso da internet no período de prestação funcional.
Se o trabalhador usa a internet ludicamente no seu posto de trabalho pode prejudicar a prestação funcional. Pode, sublinho, porque a meu ver , deve esse prejuízo ser demonstrado em concreto.
Porquê ?
Imagine uma cabeleireira, um taxista, enfim, tantas outras profissões que estejam largas horas sem clientes. Que mal virá se receber ou enviar uma mensagem, visionar algo, ouvir uma música ao invés de aguardar silenciosamente a chegada de cliente ?...
Mais evidente se mostra cair fora da alçada da entidade patronal o que o trabalhador faz na sua vida privada, fora do ambiente laboral, no recato íntimo da sua casa entre familiares e amigos.
Nos nossos dias qualquer pessoa acede ludicamente à internet.
Isso pode fazer parecer caricato que pessoas existam , punidas disciplinarmente com gravidade, por vezes remetidas ao desemprego e à miséria, por causa disso.
Pessoas que foram punidas e que apesar da evolução da realidade sócio cultural nem por isso viram revistas essas punições.
Algumas profissões prevêm estatutariamente em fórmulas vagas a prencher caso a caso que constitui violação de um dever funcional fatos da vida privada que se repercuta na função.
A formulação legal é vaga, cada entidade patronal prenche de acordo com um juízo de conveniência e só a ilegalidade é sindicável pelos Tribunais nesta matéria, não a injustiça.
Uma pena pode ser conforme a uma norma e ser injusta para o caso concreto.
Tentemos pois concretizar esta fórmula, personalizando-a, moldando-a à natureza humana para que não seja desvirtuada e injusta na sua aplicação.
Pensemos na política : todos recordam a deputada italiana que exibia deliberadamente a sua nudez em defesa de valores de libertação da essência sexual da pessoa humana.
NÃO VIU ABALADA A SUA COMPETÊNCIA PARA A POLÍTICA POR ISSO!
Recentemente, na política portuguesa, uma senhora fez também aparições ousadas em revistas. Muitos a aplaudiram em nome do mesmo valor. Quem discordou , como foi o meu caso, de modo algum o fez por razões morais. Simplesmente , em concreto, “não havia necessidade”, nada acrescentava , foi desadequado ao fim.
Mas só isso. Porque quando uma ação NÃO PREJUDICA NINGUÉM, quem JÁ VIVEU TEMPOS DE REPRESSÃO facilmente entende que A LIBERDADE É SEMPRE PREFERÍVEL, até porque é um valor e necessidade universais e desta ou doutra forma, não há ninguém que dela não precise em diferenciadas vertentes da vida , particularmente cívica!
Estes são casos extremos. Hipocritamente diz-se que a comunidade os condena. No entanto vimos o país mais mobilizado para defender uma professora que se despiu para a Playboy do que se mobiliza para votar!...
Mas este texto não sai em defesa destas situações, embora não as julgue.
Visa os casos que mais chocam , quando o trabalhador tem um perfil pessoal no facebook, no google, ou noutras redes sociais, um blogue, perfeitamente comum, conforme aos costumes comuns atuais e é punido pela entidade patronal por causa disso.
O que é um perfil comum e atual conforme aos costumes ?
É o meu, o seu caro leitor, estimado amigo ! Um perfil aonde partilhamos gostos culturais, curiosidades, com a famíiia e os amigos.
Onde partilhamos pintura, escultura, fotografia, música ,poesia, nos tempos de lazer.
Antes de termos net, tínhamos albuns fotográficos. Se recebíamos amigos partilhavamos o crescimento dos filhos e netos, as nossas viagens, férias, etc, etc. A diferença é que hoje a partilha é feita em outro meio.
Há entidades patronais que se opõem a esta partilha de retratos e invocam prejuízo para a função.
É o que chamo de política da burka virtual !
O trabalhador mostra o rosto na rua, no emprego, aonde quer que vá, mas se o rosto aparece retratado deve envergonhar-se dele ?
É absurdo, absolutamente desadequado aos nossos dias. Tão fundamentalista quanto a exigência da burka às mulheres, porque as motivações assemelham-se em tudo.
TODOS TEMOS DIREITO A EXPRESSAR-SE LIVREMENTE, À CULTURA, À ARTE aonde se integram a POESIA, a FOTOGRAFIA, a MÚSICA, etc, etc.
Estas prática repressivas são com todo o respeito fascizantes, retrógadas desconformes com o mundo atual, bafientas.
As pessoas de bem quando se enganam ou erram corrigem-no, mais não direi.
SEI que pessoas há punidas gravemente por partilharem ideias culturais, poesia, fotografia em espaços e tempos privados e não tenho dúvida que isso contraria o espírito de um Estado de Direito, do qual se espera ser PESSOA DE BEM e de progresso.
http://amusicaportuguesa.blogs.sapo.pt/1066450.html