terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Deambulando entre palavras ...


Saí à rua carregando uma mala fechada de palavras.
Percorri a cidade a sós com aquele conjunto de palavras gastas.
Palavras gastas, apesar de não utilizadas, sub – utilizadas, mal empregadas…
Deambulando numa semântica quântica, senti odores da palavra flor
Rimando com o calor enfumarado da menina das castanhas
Pequenina, a tiritar de frio, esfregava as mãos num encontro vazio
Entre a palavra esperança e a palavra solidão,
Entre a palavra sonho e uma vida dura, deixando adivinhar no olhar, não obstante,
Uma conjugação perfeita entre a palavra pobreza e a palavra ternura.
Segui entre pessoas que corriam carregadas pelas palavras comprar, enfeitar, alimentar…
Freneticamente, e sem que alguma falta lhes fizesse a palavra pensar.
Pensar…
Só se for na palavra presente…
Na palavra festa, abastança, comilanço…
Serão dias de muito sonho, muito enchido, muito doce, em ambiente garrido
Para empregar depois em fito fixo, na palavra exercício, num spa, para os que podem ou no ginásio que se alcança.
Pela rua também vi o velho que já perdeu toda a família e há muito não carrega
Consigo a palavra esperança,
O jovem que para o futuro olha sem conjugar a palavra confiança
Vi tanta gente que não conhece a palavra presente, a palavra festa, a palavra abastança
E o peso das palavras que carrego toma a proporção da palavra impotência, da palavra dor, apesar das palavras que ouço no gargalhar de uma criança.
Trilhando uma margem sem rumo, um trilho de um caminho de uma vida que sente demais para ser o que devia, para ser possível, para ser comum, para ser vivida,
Vejo diante de mim um homem mantendo-se de pé sobre a sua única perna que a meio da minha rua de palavras cruas mendigava dinheiro para comida.
Observo-o discretamente por alguns segundos.
Cruzam-se por ele tantas malas cheias de tantas palavras gastas
E ele diz … é Natal… ajude … é Natal
Passavam as palavras indiferença, pressa, o verbo trabalhar em modo imperativo…
E repentinamente o olhar do homem fixou o meu.
Elaborei o gesto para pronunciar a palavra caridade, abrindo a carteira em busca de umas moedas e aguardei a sua vinda
Ele aproximou-se e demonstrando que até sobre as mais íngremes rochas da existência
Se espelha docemente a luz da lua, disse-me:
- É Natal … é natal… com respeito… és linda, és linda como o Natal!!!
E eu que carregava tantas palavras gastas perdi todas naquele momento…
Restou-me apenas a alma e o olhar…
Serão palavras insignificantes mas tenho como certo que ele as guardou como um presente.
E eu encontrei um trilho percorrido na palavra silêncio que me acompanhou no regresso deste passeio de palavras sem sentido …



Maria

2 comentários:

Anónimo disse...

minha querida tu não existes...
o homem era coxo, mas não era cego...
quem olhe para ti inevitavelmente sente vontade de passear algumas palavras...
fica uma - beijo - !

Pata Negra disse...

E quando nos vem uma forte vontade de não sair à rua? Talvez para que a rua não nos leve, talvez para que não recolhamos toda a rua para nossa casa já tão cheia... O melhor mesmo, é regressarmos à nossa lareira... Qual natal qual carapuça! Quando eu morrer essa rua continuará a existir e continuarei a viver independentemente das castanhas que se assam nessa rua.
Um abraço à lareira