sábado, 3 de outubro de 2009

Nocturno


Amor! Anda o luar, todo bondade,
beijando a terra, a desfazer-se em luz...
Amor!São os pés brancos de Jesus
Que anda pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar...Quanta saudade
Das ilusões e risos que em ti pus!
Traçaste em mim os braços de uma cruz,
Neles pregaste a minha mocidade!

Minh'alma que eu te dei, cheia de mágoas,
É nesta noite o nenúfar de um lago
Estendendo as asas brancas sobre as águas!

Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...

Florbela Espanca

4 comentários:

Mar Arável disse...

Florbela

pois claro

Bjs

MADRUGA disse...

Maria,
Não existem palavras para descrever a beleza que tu criaste, juntando esse poema da Florbela, a essa soberba imagem de água em forma de cruz, porém com irresistível coração... e Chopin.
És tu ...
Igual a ti, nada a dizer...
Quem dera ter o dom de levar as lágrimas, ainda que devagarinho, ou como tu costumas dizer, minha querida,em pequenos passos.

L. M. C. disse...

Maria,
O grande drama de Florbela foi sonhar demais e sofrer em conformidade com o desfazer de cada sonho.
O amor é fundamental para o ser humano ser feliz. Concordo contigo, tão essencial como ter saúde, como ter dinheiro.
Mas se o amor não nos faz feliz, algo tem que ser revisto...
Pessoas há incapazes de efectivar.
De se comprometer.
Que não sabem o que querem, oscilando de sonho em sonho a cada nova carinha que lhes surge.
Que hesitam em dúvidas existenciais, nem nunca crescer a vida inteira.
Por vezes mais vale escolher a segurança.
Não chores devagarinho como Florbela, porque há quem queira fazer-te sorrir.
Basta estares receptiva e atenta.
A vida Maria, passa veloz...
Enquanto é tempo, é tempo de viver.
É um dever viver... e feliz tanto quanto somos capazes...

Um beijo.

Narrador disse...

Este também é um dos meus sonetos preferidos de Florbela.
É o típico texto para ser declamado pela tua voz.
Compreendo perfeitamente que te arrebate.