quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A insustentável leveza do ser

(Maria 2009)

Solicitaram-me hoje que apoiasse uma instituição de solidariedade no domínio da prevenção e repressão da violência doméstica.
Qualquer abuso ou agressão sem justo motivo de um ser humano sobre outro, ou sobre qualquer outro ser, tem à partida a minha repulsa.
Logo e como bem se compreende, coisa diversa não podia defender no âmbito de relações familiares ou de proximidade similar.
Talvez por isso, desde que me conheço, expresso em tom audível a minha voz para dizer o que penso a este respeito e ainda que em silêncio faço o quanto alcanço para minorar este fenómeno.
Há quem não consiga separar a luta da mulher pela igualdade de direitos e esta situação e erradamente, reconduza uma coisa a outra de forma absolutamente redutora.
Nunca desconsiderei o esforço das mulheres que ao longo da história, com luta e o sacrifício da sua própria condição feminina e por vezes de suas vidas, conquistaram o direito ao voto, a exercer uma profissão independentemente da determinante sexual, que ganharam o direito a frequentar universidades, a ocupar órgãos de Soberania, designadamente as funções inerentes à Magistratura em Portugal que estavam vedadas até a " Abril" a mulheres.
E esta é uma área aonde nada está ainda "assente" e segura, eu acho.
Contudo o problema na questão da violência é mais que esse : não pensamos que uma pessoa não deva ser agredida porque é igual ao agressor, mas porque é pessoa. E essa sublime condição essencial garante-lhe como sacro, o direito à sua integridade física, psíquica e mental.
Trabalhar contra a violência é trabalhar pela dignificação da pessoa.

Não estão apenas em causa as mulheres. Por vezes crianças, idosos, pessoas portadoras de deficiência e mais indefesas.

Mas a dignificação da pessoa antes de mais, tem que ver com a dignificação pessoal de cada um.

Quando alguém compreende o verdadeiro valor da sua dignidade enquanto pessoa, mais dificilmente tolera o abuso ou a agressão desse valor.

Hoje, casualmente, entre os meus livros de quarto, peguei na obra de Milan Kundera que deu aliás origem ao filme com o mesmo título "A insustentável leveza do ser" e reli alguns dos seus trechos.

Como por certo se recordam o livro trata da história de um jovem médico ( Tomas ) que mantem dois relacionamentos amorosos . Sabina, para quem isso é absolutamente indiferente, pois encara os relacionamentos a dois como Tomas e Teresa com quem é empurrado para um compromisso de vida comum.

Esta mulher sofre dilaceradamente a partilha dos afectos, da dávida de corpos por parte de Tomas e Sabina, mas estoicamente tolera tudo isso, porque por mais ferida, espartilhada que ficasse a sua alma, perdê-lo ser-lhe-ia mais intolerável.

Há um momento especialmente impressionante em que Teresa visita Sabina e lhe pede que a deixe ver, assistir a um acto de relacionamento sexual entre Tomas e esta última.

A fragilidade e a entrega tão absoluta de Teresa acabam por "vencer" o coração de Tomas e até comover Sabina.

A questão que gostaria de perceber é esta : porquê aceitar essa fragilidade insustentável de um ser amado, ao invés de buscar algo que nos segure, que nos faça bem, que nos fortaleça?

Este é o grande dilema, o verdadeiro dilema profundo de quem se deixa maltratar : é a primeira pessoa a escolher para ela um veículo de sofrimento, aprisionar-se a ele, sem se dignificar a si própria antes de mais...

O mais grave de tudo, é que a toda a escala, mesmo as mulheres mais alertadas, as pessoas mais bem preparadas, vêm-se por vezes aprisionadas a factores que lhes projectam as vidas e os seres nas flutuações de uma insustentável leveza de um ser...


É para aí que devem antes de mais ser voltadas as nossas munições. Trabalhando a auto estima, desmistificando por vezes aqueles que entronizamos ...

Em suma : a primeira luta pela dignidade é connosco próprios !


Maria

4 comentários:

MADRUGA disse...

Maria, grande texto, muito bem pensado e dito.
É assim mesmo.
É preciso objectividade (viste : entre várias, até a do bombom lá estava, entre a(s) "diva(s)")
Assim é fácil matar vários coelhos com uma só pancada...
É óbvio, querida, muitas pessoas já viveram esse erro...

Um beijo

Pata Negra disse...

Maria, gostei de pensar contigo estas tuas palavras. Bom texto, sentido, espontâneo, culto, do coração.
Beijos dignos

MARIA disse...

Ricardo, falas do livro ou do filme? E de qual ?!....

Obrigado pela tua amizade ;)
Bjinho

MARIA disse...

Majestade, agradeço. Na verdade é um texto muito simples, feito a partir de uma questão que de simples só tem a aparência.

Um beijinho amigo. ( todos os beijos dados e até os roubados são dignos )