domingo, 21 de março de 2010

POEMA PARA UM HOMEM SÓ

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.



Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem



Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de outro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.



Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.



Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, e dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.



Mas este íntimo secreto

que no silêncio concreto,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarçe,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se, e desflorar-se,

é nosso de mais ninguém.


ANTÓNIO GEDEÃO

8 comentários:

Alvaro Oliveira disse...

Olá Amiga Maria

Lindo poema, onde me encontro e me vejo. Adorei.

Beijos

Alvaro

Mar Arável disse...

Na vida os barcos ancorados

vivem na ideia do mar

com aplauso do cais

para lá do azul

Bjs

MADRUGA disse...

Parlami...
Vê se não gostas mais desta versão ?!...
bj

Nilson Barcelli disse...

É um fabuloso poema.
Não conhecia...
Parabéns pela excelência da escolha.
Querida amiga, um beijo.

MARIA disse...

Olá Álvaro, obrigado, um beijinho.

MARIA disse...

Oh Mar, és sempre delírios de poesia, mesmo a comentar.
Obrigado.
Beijos.

MARIA disse...

RM, vi, gostei. Beijinho.

MARIA disse...

Nilson, gosto em rever-te. boa semana, amigo. bjinho.