AS MINHAS MEMÓRIAS DE AQUILINO
(Porque este blogue sempre teve um carácter generalista, trata um pouco de tudo e sem ordem precisa de acordo com a sensibilidade da respectiva Autora, hoje deixo-vos esta Sugestão de Leitura)
Há dias em que a nossa memória sai de nós e inicia uma viagem que recusamos encetar pois queremos acomodá-la se não ao melhor de nós, aos alicerces de um presente de dor suportável, posto que a dor na vida é sempre inevitável…
Mas dias há em que ela parte, como o pólen das flores que a abelha não beijou e vai seguindo , projectado pelo vento, sem destino conhecido.
Tinha eu 9 anos, fazia o que antes se costumava chamar a 4ª classe.
O ambiente no Colégio sempre me parecera rígido, na verdade julgo hoje, apenas disciplinador.
As meninas (porque não era um colégio misto a essa data) em regime de externato não o sentiam tanto apesar de tudo. Pelas 16:00h. e depois de uma jornada iniciada às 08:00h. regressavam aos pais. A não ser que fosse dia de actividades . Nos dias de ballet, patinagem artística, grupo coral ou de música, permaneciam por mais essas horas.
Era a realidade que conhecia até ali. Porém o desempenho profissional de um dos progenitores transferiu o núcleo familiar por cerca de um ano para fora do País.
Para não interromper o ano escolar passei a regime de internato.
Durante esse ano era o Colégio a minha casa, as freiras, a minha mãe.
Tudo se passava como já conhecia antes : iniciava as aulas às 08:00h , e com interrupção para a refeição ao almoço terminava às 16:00h. Integrava o grupo coral, praticava ballet, andebol e natação. A natação era feita fora das instalações do Colégio.
Pelas 19:00h. após as orações obrigatórias com o grupo, o jantar e o banho, recolhia ao quarto e às 20:00h era dada ordem para apagar as luzes e dormir.
Certo dia numa aula , o professor conhecido como” o professor de português”, senhor de uns 55 a 60 anos de idade, óculos claros sobre um nariz aquilino, com duas entradas claras de cabelo sobre as orelhas, desesperava-se, tentando falar à turma um pouco sobre “o Malhadinhas.”
A atenção do grupo dispersou-se e fazia-se sentir algum ruído na sala que eu serenamente rabiscando no caderno os meus habituais perfis desenhados a lápis para não estragar os livros, aguardava que o professor fizesse calar elevando a voz no costumeiro grito “vamos a calar e prestar atenção”.
Ao invés , senti a sua sombra esguia junto ao meu lado direito.
Sem movimentar nem os próprios olhos prossegui desenhando.
Alguns segundos passaram a tal ponto que um silêncio de sepulcro calou todas as outras meninas na expectativa do que me sucederia quando o professor resolvesse falar-me.
Ia ser castigada, de certeza, pensava a Linda, uma menina especial com certo atraso no desenvolvimento que dizia ter tido uma meningite nos dentes, era o bobo da corte da turma , de quem era muito próxima e amiga.
O professor pegou porém na minha folha , olhou para o desenho, para mim, depois de novo para o desenho e disse : - lembra o perfil do homem da Beira Alta.
Já lá estiveste ?
Ergui de imediato o rosto e perguntei :- Não, mas conte-me como é.
Recordo o sorriso indulgente e terno do meu professor que se colocou então à minha frente e disse :
- Acho uma violência fazer-vos ler Aquilino Ribeiro nesta idade.
Mesmo tu, Maria, talvez não consigas ler, mas se queres conhecer a Beira, seus hábitos, seus costumes, lê o “Malhadinhas” e depois, combinamos, fazes um resumo da história e vens tu contá-la à turma. Queres?
Assim conheci Aquilino.
Mas nesse mesmo dia antes de sair, perguntou-me :
-Como te tens sentido aqui ? Muitas saudades dos pais ?
Dominando a emoção respondi :
- Custa-me muito adormecer assim tão cedo e noutra cama.
Ao que ele respondeu : - Lê, lê até adormeceres . Insistes em conhecer a Beira e Aquilino, vou trazer-te uma novela dele
- Uma novela ? Perguntei incrédula.
Foi a primeira vez que me falou então da existência de vários géneros literários.
Alguns dias depois quando ia iniciar o ensaio no grupo coral a irmã Celina pegou num embrulho de oferta que se encontrava sobre o piano e chamou-me
-Maria, isto é para ti, deixou o professor de português.
- Só à noite, quando a irmã de vigia ao dormitório, já dormia na sua camarata de vigia, acendi a pequena luz do candeeiro , abri o embrulho e li o título …
Sem dúvida a linguagem de Aquilino não é simples. Tem que se aprender a gostar de Aquilino para gostar de Lê-lo. Eu volto a Ele muitas vezes.
Convido-vos a esse exercício quando possam e despeço-me por hoje com um pequeno excerto do próprio Aquilino que encontrei num blogue seu e que fez parte de um discurso apresentado pelo escritor em 1963 na Sociedade Portuguesa de Escritores:
"Morro insatisfeito. A minha obra é imperfeita e bem o sinto". (...) "A Perfeição, materializada na obra humana, no livro, na estátua, na partitura, é uma hipérbole celeste. Nunca se consegue, e quando se julga conseguir é miragem." (...) "Cultivem a inquietação como uma fonte de renovamento. E, enquanto vivermos, façamos de conta que trabalhamos para a eternidade e que tudo o que é produção do nosso espírito fica gravado em bronzes para juízes implacáveis julgarem à sua hora".
in,Aquilino Ribeiro, Revista nº64 do Jornal do Fundão.
2 comentários:
Bons olhos te regressem Maria! e com que texto! com que memória! com que história! com que Aquilino!
Também vivi espaços desses mas de rapazes, é claro!
beijos por novas aquilinidades
Majestade!!!
Muito obrigado. Fico contente por revê-lo aqui.
Estive a arrumar os meus livros de Aquilino e peguei nesse cuja capa publiquei. Foi inevitável lembrar como o conheci. Depois apeteceu contar e escrevi.
Há coisas que parecem inevitáveis no nosso percurso
e isto apesar de os programas da disciplina de português e dos autores de ensino obrigatório estarem sempre a mudar.
Um beijinho amigo minha eleita Majestade, muito obrigado.
Maria
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