terça-feira, 28 de junho de 2011

Deixai falar os claustros da incompreensível saudade do que nunca se viveu...

AS MINHAS MEMÓRIAS DE AQUILINO
(Porque este blogue sempre teve um carácter generalista, trata um pouco de tudo e sem ordem precisa de acordo com a sensibilidade da respectiva Autora, hoje deixo-vos esta Sugestão de Leitura)

Há dias em que a nossa memória sai de nós e inicia uma viagem que recusamos encetar pois queremos acomodá-la se não ao melhor de nós, aos alicerces de um presente de dor suportável, posto que a dor na vida é sempre inevitável…
Mas dias há em que ela parte, como o pólen das flores que a abelha não beijou e vai seguindo , projectado pelo vento, sem destino conhecido.
Tinha eu 9 anos, fazia o que antes se costumava chamar a 4ª classe.
O ambiente no Colégio sempre me parecera rígido, na verdade julgo hoje, apenas disciplinador.
As meninas (porque não era um colégio misto a essa data) em regime de externato não o sentiam tanto apesar de tudo. Pelas 16:00h. e depois de uma jornada iniciada às 08:00h. regressavam aos pais. A não ser que fosse dia de actividades . Nos dias de ballet, patinagem artística, grupo coral ou de música, permaneciam por mais essas horas.
Era a realidade que conhecia até ali. Porém o desempenho profissional de um dos progenitores transferiu o núcleo familiar por cerca de um ano para fora do País.
Para não interromper o ano escolar passei a regime de internato.
Durante esse ano era o Colégio a minha casa, as freiras, a minha mãe.
Tudo se passava como já conhecia antes : iniciava as aulas às 08:00h , e com interrupção para a refeição ao almoço terminava às 16:00h. Integrava o grupo coral, praticava ballet, andebol e natação. A natação era feita fora das instalações do Colégio.
Pelas 19:00h. após as orações obrigatórias com o grupo, o jantar e o banho, recolhia ao quarto e às 20:00h era dada ordem para apagar as luzes e dormir.
Certo dia numa aula , o professor conhecido como” o professor de português”, senhor de uns 55 a 60 anos de idade, óculos claros sobre um nariz aquilino, com duas entradas claras de cabelo sobre as orelhas, desesperava-se, tentando falar à turma um pouco sobre “o Malhadinhas.”
A atenção do grupo dispersou-se e fazia-se sentir algum ruído na sala que eu serenamente rabiscando no caderno os meus habituais perfis desenhados a lápis para não estragar os livros, aguardava que o professor fizesse calar elevando a voz no costumeiro grito “vamos a calar e prestar atenção”.
Ao invés , senti a sua sombra esguia junto ao meu lado direito.
Sem movimentar nem os próprios olhos prossegui desenhando.
Alguns segundos passaram a tal ponto que um silêncio de sepulcro calou todas as outras meninas na expectativa do que me sucederia quando o professor resolvesse falar-me.
Ia ser castigada, de certeza, pensava a Linda, uma menina especial com certo atraso no desenvolvimento que dizia ter tido uma meningite nos dentes, era o bobo da corte da turma , de quem era muito próxima e amiga.
O professor pegou porém na minha folha , olhou para o desenho, para mim, depois de novo para o desenho e disse : - lembra o perfil do homem da Beira Alta.
Já lá estiveste ?
Ergui de imediato o rosto e perguntei :- Não, mas conte-me como é.
Recordo o sorriso indulgente e terno do meu professor que se colocou então à minha frente e disse :
- Acho uma violência fazer-vos ler Aquilino Ribeiro nesta idade.
Mesmo tu, Maria, talvez não consigas ler, mas se queres conhecer a Beira, seus hábitos, seus costumes, lê o “Malhadinhas” e depois, combinamos, fazes um resumo da história e vens tu contá-la à turma. Queres?
Assim conheci Aquilino.
Mas nesse mesmo dia antes de sair, perguntou-me :
-Como te tens sentido aqui ? Muitas saudades dos pais ?
Dominando a emoção respondi :
- Custa-me muito adormecer assim tão cedo e noutra cama.
Ao que ele respondeu : - Lê, lê até adormeceres . Insistes em conhecer a Beira e Aquilino, vou trazer-te uma novela dele
- Uma novela ? Perguntei incrédula.
Foi a primeira vez que me falou então da existência de vários géneros literários.
Alguns dias depois quando ia iniciar o ensaio no grupo coral a irmã Celina pegou num embrulho de oferta que se encontrava sobre o piano e chamou-me
-Maria, isto é para ti, deixou o professor de português.
- Só à noite, quando a irmã de vigia ao dormitório, já dormia na sua camarata de vigia, acendi a pequena luz do candeeiro , abri o embrulho e li o título …
Sem dúvida a linguagem de Aquilino não é simples. Tem que se aprender a gostar de Aquilino para gostar de Lê-lo. Eu volto a Ele muitas vezes.
Convido-vos a esse exercício quando possam e despeço-me por hoje com um pequeno excerto do próprio Aquilino que encontrei num blogue seu e que fez parte de um discurso apresentado pelo escritor em 1963 na Sociedade Portuguesa de Escritores:
"Morro insatisfeito. A minha obra é imperfeita e bem o sinto". (...) "A Perfeição, materializada na obra humana, no livro, na estátua, na partitura, é uma hipérbole celeste. Nunca se consegue, e quando se julga conseguir é miragem." (...) "Cultivem a inquietação como uma fonte de renovamento. E, enquanto vivermos, façamos de conta que trabalhamos para a eternidade e que tudo o que é produção do nosso espírito fica gravado em bronzes para juízes implacáveis julgarem à sua hora".
in,Aquilino Ribeiro, Revista nº64 do Jornal do Fundão.

2 comentários:

Pata Negra disse...

Bons olhos te regressem Maria! e com que texto! com que memória! com que história! com que Aquilino!
Também vivi espaços desses mas de rapazes, é claro!
beijos por novas aquilinidades

MARIA disse...

Majestade!!!

Muito obrigado. Fico contente por revê-lo aqui.
Estive a arrumar os meus livros de Aquilino e peguei nesse cuja capa publiquei. Foi inevitável lembrar como o conheci. Depois apeteceu contar e escrevi.

Há coisas que parecem inevitáveis no nosso percurso

e isto apesar de os programas da disciplina de português e dos autores de ensino obrigatório estarem sempre a mudar.


Um beijinho amigo minha eleita Majestade, muito obrigado.
Maria