terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

E tu, porque continuas a não confiar ? ...


O Ciúme Patológico é um problema importante para a psiquiatria, que envolve riscos e sofrimentos, podendo ocorrer em diversos transtornos mentais. Na psicopatologia o ciúme pode se apresentar de formas distintas, tais como ideias obsessivas, ideias prevalentes ou ideias delirantes sobre a infidelidade.
No Transtorno Obsessivo -Compulsivo (TOC), o ciúme surge como uma obsessão, normalmente associada a rituais de verificação.
Quando assume a gravidade de doença pode conduzir aos maiores horrores : certa vez numa cidade bem próxima da minha, aonde então há pouco começara a viver e ambientar-me com uma criança pequena, vi chegar à  “casa forte” do Tribunal local, um jovem rapaz.
Não teria mais que 25 anos e já os  dava com boa vontade.
O olhar perdido, marejado de lágrimas que nem caíam, nem lhe desacomodavam as pupilas esgazeadas como que espelhando grito e dor, o busto despido, umas “jeans” ensanguentadas, vestígios de sangue sob as unhas, nos braços , no peito…
Aproximei-me de alguém amigo e indaguei : coitado! Quem o deixou assim ?
Em jeito de segredo que fora o retrato fiel da verdade aqui não poderia divulgar, a um cantinho, essa amiga mostrou-me umas fotografias.
Era uma moça, linda, de linhas côncavas tão perfeitas que faria inveja a qualquer celebridade que as compram em implantes e em “spas”, um cabelo negro farto, espalhado pelo solo, braços abertos em cruz, todos marcados por golpes profundos , desenhado a sangue um nome  sobre o seu seio .
O ventre golpeado. Nos lábios entreabertos parecia ter ficado guardado um nome de criança, possivelmente da filha que com 5 anos apenas , viu este pai , pegar na mãe , munir-se de uma faca grande de cozinha e golpeá-la durante horas para que ela lhe confessasse o nome de um suposto amante.
Ouviam-se rumores: ela era tão linda, e era novinha, muitos tentavam aproximar-se dela, mas ele quase a  mantinha sob sequestro, raramente saía. Era ele que levava a menina ao infantário, fazia as compras, e nem ao médico ela ia sozinha. No entanto nunca o deixou. Provavelmente amou-o.
Perguntado então ao homicida porque  cometera tal acto respondeu :
“Eu fazia anos, ela tinha uma surpresa para mim , fez bolo, e a minha família viria para jantar. Mas meu irmão mais velho que não podia vir, passou em casa, em minha ausência e deixou-me um presente : desembrulhei, era um quadro com uma paisagem , o “Bambi” e um veado com uma parelhas de chifres que percebi de imediato a mensagem que me quis transmitir … A culpa foi dela- se quando a pendurei varanda abaixo e comecei a cortar nos braços ela me dissesse logo quem era ele, largava-a e ia ter com ele, mas ela só dizia… ó João, olha a menina, por favor olha a menina …”
Desde este acontecimento que facilmente referencio esta doença que deve preocupar e ser tratada.
O conceito de Ciúme Mórbido ou Patológico compreende vários sentimentos perturbadores, desproporcionais e absurdos, os quais determinam comportamentos inaceitáveis ou bizarros, tal qual a motivação deste homicídio.
Esses sentimentos envolvem um medo desproporcional de perder o parceiro(a) para um(a) rival, uma desconfiança excessiva e infundada, gerando significativo prejuízo no relacionamento interpessoal.
Alguns autores  consideram que o diagnóstico da do problema não advém tanto da ideia de infidelidade, mas do medo da perda do outro, ou do espaço afectivo ocupado na vida deste. Para outros a base do Ciúme Patológico estaria apenas  na sua irracionalidade face à  comum realidade, e não em seu carácter excessivo (Mooney, por ex).
No Ciúme Patológico várias emoções referenciadas por quem sofre o problema : ansiedade, depressão, raiva, vergonha, insegurança, humilhação, perplexidade, culpa, aumento do desejo sexual e desejo de vingança.
Há, ligação segura para a ciência, entre a baixa auto-estima e a consequente  sensação de insegurança e, finalmente o ciúme.
O portador de Ciúme Patológico é um vulcão emocional sempre prestes à erupção e apresenta um modo distorcido de vivenciar o amor, para ele um sentimento depreciativo e doentio
Esse paciente com Ciúme Patológico é extremamente sensível, vulnerável e muito desconfiado, portador de auto-estima muito rebaixada, tendo como defesa um comportamento impulsivo, egoísta e agressivo.
O potencial para atitudes violentas é destacado no Ciúme Patológico, despertando importante interesse na psiquiatria forense aonde abundam os casos de homicídios e de crimes violentos que têm como motivação mais ou menos próxima este transtorno de personalidade.
Por vezes estas situações são situações temporárias, desplotadas ou agravadas por outras causas que de alguma maneira vêm abalar   o equilíbrio do portador do transtorno.
São muitos os estudos publicados  que descrevem causas, tipificam comportamentos, mas já são poucos( eu não conheço) os estudos que elucidem sobre o modo como devem lidar terceiros com estes doentes.
Assim como “não se discute com um bêbado” sem que ele durma primeiro (receita da Avó), suponho que reacção similar neste contexto não será bem sucedida. Naturalmente o ideal será que o problema seja acompanhado pela especialidade com o envolvimento da família. Por outro lado a desmistificação dos medos, com uma abertura, transparência e verdade na relação devem ajudar a fortalecer a confiança.
 E o afecto. Alguém bem amado, muito bem amado, é alguém com maior auto estima e consequentemente maior segurança.

Mas enfim, estas são reflexões de leigo.

Pelo sim pelo não, até do quarto das crianças reservei “o Bambi” … não vá …o ........ tecê-las …

 

Sem comentários: