O sentimento que hoje domina os espíritos perante a política é sobretudo a desconfiança. Sente-se um vago receio. O Governo está trémulo, a oposição inquieta, os homens dos pequenos partidos sem saber onde ir buscar o seu apoio e a sua força, o povo descontente.
Pressente-se que se vão passar os grandes factos que resolvem as crises políticas com as crises da doença. Mas o quê? Hoje não há no país nenhuma ideia predominante, nenhum princípio querido, nenhum grande sistema surdamente combinado, nenhum vasto plano de organização social. Os homens políticos têm-se ocupado naquele embate de ambições, de intrigas, de transacções, de regulamentos, de reformas imperceptíveis, em todo aquele movimento que ondeia lentamente de São Bento às secretarias e das secretarias ao Conselho de Estado. Fora desse movimento nada sabem, nada aceitam.
Quando vier o momento do perigo, a que se há-de recorrer, a que ideia, a que sistema, a que método de governar?. Vai-se procurar aos espíritos políticos e encontra-se lá um vazio : eles tinham-se só movido- não tinham pensado. As nossas finanças estão perdidas, a nossa instrução esquecida, o nosso exército desorganizado, o nosso funcionalismo corrupto, as nossas leis dispersas, o nosso comércio enfraquecido, a nossa autoridade moral perdida.
De quem é a culpa? Não é destes nem daqueles, é da fatalidade das decadências. Se amanhã o país se encontrar na hora da agonia, e se se perguntar aos que pensam, aos que governam, aos que andam com o cérebro aceso alumiando a marcha- se se perguntar: que havemos de fazer?, é possível que eles respondam, e com justiça:
SUCUMBIR , Eça de Queiroz in "Distrito de Évora
Parece que escreve hoje para nós Eça de Queiroz, qual referi
ao amigo que me brindou com a lembrança deste feliz texto. Muito obrigado.
Sobre o actual momento, sabe-se que Passos Coelho e Portas
reuniram até há pouco e foram até à
Presidência da República.
Que farão ?
Tantas são as opiniões lançadas, tantas as ideias, e
ausência delas que pouco apetece falar sobre isto. Sobre este momento sinto uma
profunda tristeza . Numa coligação de ideais diversos o conflito está sempre
presente, necessariamente é previsível. Tudo o que é previsível em política tem
solução. Dificil é dar boa solução ao imponderável e imprevisível. Todos
estamos descontentes com as actuais políticas, é um facto. Queríamos que
acabassem que fossem revistas, alteradas, porém não podemos pagar por isso
qualquer preço. Face ao colete de forças em que
Pedro Passos Coelho se sente
enquanto 1º Ministro de Portugal face ao
exterior ele fez, a meu ver, muito humilde, o previsível nesta situação de
crise : largou sinal à navegação para não terem por perdida a rota. Certo que a
Presidência não avançaria com solução, ele disse : - calma, o barco não
afundou, estou ainda estou de pé, eu vou segurar o leme do barco trazendo a
boas águas de navegação a coligação e tudo será cumprido. Muitos dizem que isto
foi arrogância, francamente, parece-me coragem. Agora, digamos que a coligação
se inviabilize, TUDE O QUE PORTUGAL VIER A SOFRER EM CONSEQUÊNCIA DESTA ABRUPTA
crise será da responsabilidade de quem ?
SEI QUEM LHE SOFRERÁ AS CONSEQUÊNCIAS.
Se o Povo não ponderasse a responsabilidade do perigo de uma
precipitação no que se refere às nossas dependências externas, alguém tem
dúvidas de que este Governo já teria caído há muito ? Com que direito nos expõem a um “petit” desta natureza depois
de tudo o que temos andado a aguentar ?...
Agora, restaurar a confiança parece-me muito difícil,
impossível praticamente.
Também não me agrada esta Ministra das Finanças, não me
agrada a fome, o desemprego, a falta de acesso à saúde, as condições do
ensino, a sobrecarga fiscal e económica
sofrida a todos os níveis, mas se há coisa que nunca se deve fazer é iniciar um
caminho no escuro : temos que definir uma meta e um percurso para a atingir e o
dever de escolher o menos gravoso, o mais vantajoso. Eu pergunto : e agora, que
fazer a tamanha trapalhada ?...
Maria Portugal

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