quinta-feira, 4 de junho de 2015

PRÓS E CONTRAS






PRIVATIZAÇÕES : PRÓS E CONTRAS

No País  assiste-se a um fenómeno de privatizações em série de sectores empresariais antes garantidos e assegurados pelo Estado.
Serão as privatizações uma imposição externa ao governo ou serão uma forma de raciocínio político sobre a economia que caracteriza em particular certa chamada “direita liberal “ ?
Dirão que a Troika, o(s) memorando(s) as impõem. Que a resolução da dívida e do déficit o impõem.
Mas isso é uma falácia, com todo o respeito.

Externamente só querem receber o dinheiro, como o arranjamos não é problema dos credores. É de quem deve. Sempre assim foi e sempre assim será.

Portanto é internamente , uma corrente governativa que entende que privatizar é um bem, é solução.

E porquê ?  Porque desonera o Estado  de investir, de pagar, liberta recursos do Estado que passam a onerar os privados, as empresas que passarão a gerir os sectores em causa.
A forma como esses serviços que respondem em regra a necessidades essenciais dos cidadãos serão prestados e cobrados ficará também à margem das funções do Estado.

O cidadão  tem de entender-se agora directamente com as empresas se quiser usufruir desses serviços e bens que lhe são imprescindíveis.

A agravar este quadro, paulatinamente e diga-se a bem da verdade e da justiça, bem antes mesmo do início de funções do actual Governo, foram sendo criados mecanismos para cobrança de débitos de uma agressividade letal para o cidadão desarmado , face aos que são os meios e recursos  dessas empresas.
A par de um regime jurídico de execuções facilitista de penhoras, (quantas vezes se penhora até por aquilo que se não deve ).Sendo certo que o cidadão só poderá reagir depois e se verificam, na prática abusos gravíssimos, violações de forma, inoberservância  de garantias básicas às quais o cidadão comum sem recursos que requer ainda apoio judiciário e cada vez mais tem dificuldade em conseguir que lhe seja concedido,  seja por desconhecimento, escassez de meios e recursos ou mesmo de informação não tem capacidade de responder com adequada defesa. Entretanto, já perdeu o bem, já lhe levaram a pensão, o vencimento, a viatura, os móveis, os imóveis, mesmo que seja a sua habitação e isso o remeta à rua.


É preciso ter a coragem de afirmar que há hoje em Portugal pessoas a viver bem à custa da actividade das cobranças e estas nem sempre são correspondentes a uma quantia devida por direito.



Ainda por cima, facultou-se nas leis tributárias, aos Serviços de Finanças, designadamente através do mecanismo  da compensação de créditos, a cobrança de dívidas de particulares.
Ora se achamos qualquer Exequente agressivo, até o mais cumpridor da Lei, que dizer das Finanças? A sua eficácia e sensibilidade é conhecida e bem por todos nós e não carece de outros adjectivos.
Temos assim um Estado que deixa de investir em sectores, passando esse encargo a empresas, mas lhes faculta o” ius imperium” dos seus serviços de Finanças para cobrar as suas dívidas.
Supomos que a circulação dos capitais através deles lhe trará benefícios.

Nenhum Governo deveria esquecer que hoje é governo, membro de governo, mas amanhã pode não ser. E então será ele a debater-se com as penhoras no vencimento de €3.000 Euros por exemplo que uma EDP ou outra empresa entenda que deve, será ele a ser penhorado na sua habitação citado na casa dos velhos avós aonde já não vai há 30 anos, etc, etc...

Não é boa política governar para hoje sem pensar que existitrá o amanhã e se cá estivermos vamos vivê-lo todos.

Se o caminho é privatizar para poupar recursos ao Estado então impunha-se um trabalho muito sério quer no sentido de controlar a prestação dos serviços pelas empresas e a cobrança desses serviços, quer aos modos como por via disso pode ser atacado o património dos cidadãos.

Mais, a defesa dos créditos do Estado cabe à Magistratura do Ministério Público. Será legítimo colocar  magistrados vinculados pelo dever funcional da isenção e da imparcialidade na defesa dos créditos destas empresas como se de créditos do Estado se tratassem , ainda que cobrados pelas Finanças ?

Entre a privatização e o seu oposto a doutrina administrativista de que é nome de grande mérito o Prof D Freitas do Amaral sempre delinou  áreas intermédias, a chamada Administração Indirecta do Estado, com modelos empresariais que consentiam ainda a presença do Estado nas Empresas minorando em muito os riscos de lançar nas mãos de particulares a prestação de serviços de que a população não pode prescindir e que assumem um caracter que ultrapassa a visão meramente economicista empresarial.

Tudo recomenda , tudo se prefigura de bom aviso, repensar cuidadosamente esta matéria, adequando realidades, antecipando problemas através de um conhecimento profundo dos interesses em causa e antecipando-se às consequências das medidas.

 Fazer leis ou políticas sem ter isto em conta não é bem cuidar da causa pública.
Acresce que a certeza para o Direito, a segurança jurídica é um valor caro. Porém , nos nossos dias anda a monte : o cidadão nada sabe, nada pode ter como adquirido, mesmo o que já fora dado como tal. Hoje, vive-se sem saber o que esperar do Estado, do legislador .
Esta sensação psicológica podia ser adjectivada, mas não o farei. Faça cada um o seu juízo, o meu reservo.
A quem interesse...

Maria Manuel Rendiz

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