Fora Magistrada e desenvolvia competências na investigação criminal de processos crimes.
Um burlão típico, continuava ela com um fascinante brilho no olhar que lhe dizem sibilino, é um ser manipulador , portador de uma inteligência ou esperteza, pelo menos, singular e impressionante.
Bem falante, mesmo se não possui uma cultura superior a sua capacidade para avaliar o adversário e perceber por onde pode sensibilizá-lo, seduzi-lo, fragilizá-lo é em norma perfeitamente notável.
O burlão é dócil, amável, ( é com mel que se apanham moscasº-º ) acredita profundamente nas suas mentiras, repete as frases de efeito dos grandes pensadores a respeito de tudo, auto didacta, proclamando o politicamente correcto para o momento, apelando aos seus sentimentos mais sagrados relativamente aos seus filhos , à sua família...
Ele vai até à missa e é um " pacato cidadão " discreto, ou então estridentemente auto proclamante de uma condição sócio económica que impressiona e que na verdade não possui.
O burlão é tão frio que sabendo até que o filho do seu adversário carece desesperadamente de um emprego para sobreviver, consegue comovê-lo a ponto de o empenhar em obter para ele esse emprego do qual na verdade não precisa, posto dispor de vários outros meios para sobreviver.
O burlão é tão manipulador que depois de conquistar a sua confiança ele vai conquistar a dos que lhe são queridos.
E o pior que pode fazer é avisá-los que já o entendeu, porque eles julgaram que está enciumado e mais se afundarão dando a conhecer ao burlão factos que usará oportunamente a favor dele e se necessário contra eles próprios.
Num dos Tribunais onde prestou funções esta amiga, apresentou-se um certo dia um homem de porte atlético , musculatura trabalhada, cabelo negro num estilo Elvis anos 30, "negligé", 1,80m de altura.
Adrentrou a porta das instalações estacionando junto a ela
" só por uns segundinhos" um descapotável negro de cortar a respiração até a quem não aprecia automóveis.
Dirigiu-se à Seção, movimentava-se com confiança, passando o olhar pelos olhos de todas as mulheres que ali prestavam trabalho.
Enfim , avançou para ele, um Colega antes de mais para lhe chamar a atenção sobre o estacionamento, depois para questionar o que queria.
Pausada e de modos eleoquentes disse :
- Caro Senhor já fui assaltado em minha casa 7 vezes. Tudo me levam. A última vez faz um ano. Como é possível ainda não haver uma decisão obrigando a Seguradora do Imóvel e recheio a indemnizar-me?
- O Senhor já foi assaltado sempre na mesma casa 7 vezes e só nesta última ainda não foi indemnizado pela Seguradora pelo furto ?
- Precisamente.
A minha amiga acabara de ser colocada naquela área territorial.
Chamada pelo colega, coube-lhe em sorte esse processo. E ali logo o colega a apresentou ao " queixoso".
O assédio intelectual , físico subliminar encostariam facilmente qualquer mulher à parede.
O homem possuía um olhar intenso que não sendo da cor da preferência dela , apresentava uns rasgos escuros longitudinais a partir da íris irrepreensivelmente negra e brilhante .
Encostou-se à cadeira e disse : - pois, caro Senhor, escutei-o com toda a atenção , como constatou acabei de receber o processo e tenho que cumprir o contraditório, ouvir a versão da outra parte.
"- Mas ouvir o quê, a janela foi arrombada , os bens levados, a PSP tomou conta do ocorrido e constatou o arrombamento da janela, só têm que indemnizar, para isso pago o Seguro ", ripostou.
Sorrindo como é sua característica quando prefere guardar as palavras, explicou - Com certeza, mas é uma formalidade legal e prometo-lhe que a verdade será totalmente apurada com a rapidez máxima possível.
O homem saiu e a minha amiga pediu para consulta os processos dos anteriores 6 furtos à habitação que
Seguradoras sempre lhe pagaram.
Comparou o modus operandim dos furtos e demais circunstâncias.
Pegou no telefone e ligou ao responsável pelo Seguro no seu processo.
Identificou-se e pediu-lhe para lhe indicar os funcionários das Seguradoras e os peritos que concretizaram quer a peritagem naquele furto, quer nos anteriores, logo designando data para os ouvir.
Pediu todos os relatórios periciais e analisou-os cautelosamente.
Deslocou-se com o perito e a Polícia à casa para ver a célebre janela da "roubalheira".
Era uma pequena janelinha de uma casa de banho, por onde
alegadamente sairam sofás , aparelhos de cinema em casa,plasmas de grande dimensão. quadros, obras de arte, etc
Conversando com algumas pessoas de habitações próximas, a minha amiga constatou que ninguém testemunhou nenhum dos furtos, mas uns velhotes que se entretinham à janela tiveram muito gosto em contar "à menina" que ora chegara a trabalho àquele Tribunal e lhes elogiou o admirável roseiral, que dias antes , o queixoso e seu filho numa carrinha de caixa aberta transportaram de casa sofás, frigorífico, máquinas, quadros , até os levando a acreditar que estariam de mudanças, mas não, pois regressaram , não presenciaram quando, mas regressaram chamando a Polícia e denunciando o assalto.
As únicas impressões digitais na janelinha, aliás protegida por uma grade de ferro que se mostrava serrada, eram as do queixoso.
Feitas diligências adicionais, a minha amiga estava segura - aquele homem dera 6 golpes em Seguradoras e ia dar o 7º.
Falou com o colega , explicou o que descobrira.
"Cuidado, alertou sabia e ponderadamente, como era de sua natureza, se não o provares ele vai denunciar-te por calúnia, serás sujeita a um processo disciplinar"
A prova era segura, mas bem, à cautela decidiu voltar a ouvi-lo , acreditando que ele confessaria o que fez.
O jogo intelectual com estas pessoas é uma espécie de xadrez de qualidade e adrenalina fascinante.
Como são bons a mentir os manipuladores.
MAS CONFESSOU
E com pormenor ! E os 7 crimes !
Ao invés de sair indemnizado pela Seguradora saíu com termo de identidade e residência como arguido por burla de seguros ( as outras já haviam prescrito).
Hoje esta Magistrada não faz mais este trabalho. É incómoda, inoportuna, teimosa, preocupando-se com minudências. Não é um perfil agradável ao sistema e não sabe fazer-se agradar.
*
Nota : esta estória é absolutamente fictícia ( até porque se fosse real para ter o mínimo de atrasos , o máximo de acusações e despachos finais, se calhar, uma verdadeira magistrada dava um único despacho e tinha uma baixa estatística, mais um número abatido nas pendências da Justiça, como convém a quem regra geral governa o sector da Justiça em Portugal ) Mas é ficção, integra-se num livro em fase de edição e qualquer coincidência real com o aqui descrito , disso não passa.
Serve para salientar esta ideia :
PENSE
NÃO JULGE PELA APARÊNCIA.
MEIAS VERDADES SÃO AS MAIS PERIGOSAS MENTIRAS.
SEJA JUSTO CONSIGO E ATÉ COM OS SEUS AMIGOS.
MESMO QUEM MAIS AMAMOS NEM SEMPRE ESTÁ CERTO.
PONDERE TODOS OS PONTOS DE VISTA, NÃO PREJUDIQUE AS SUAS ANTIPATIAS,
MAS NA BUSCA DE SER JUSTO NÃO PREJUDIQUE MAIS ainda as suas SIMPATIAS.
Encontrar a verdade em todas as coisas é o caminho para um Justiça efectiva , palpável, verdadeira !
Maria Portugal

1 comentário:
O mar em todos os apeadeiros da vida
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