sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Burguesinha"

Certa vez um amigo em diálogo sobre solidariedade e justiça social disse-me algo que nunca mais pude esquecer.
- Que podes tu entender das dificuldades do teu semelhante pequena burguesinha ? Já chegaste a meio do mês com meros 20€ no bolso e uma família para sustentar? Já precisaste de um dentista e não pudeste sequer agendar consulta por não teres dinheiro ? Já esperaste meses, anos, por uma consulta no sistema de saúde para tratar um problema grave e viste um familiar irremediavelmente perdido por não conseguir oportuna intervenção ? Já evitaste ir a um hospital, precisando, por não poderes pagar taxa moderadora e apesar da tua vida te negarem a isenção ? Já te cortaram luz, água, gaz porque não pudeste pagar os consumos? Já permaneceste sem comunicações de alguma espécie porque nem um telefone podias carregar? Já , de tanta privação, tiveste de pedir comida? Já quiseste dar algo essencial a um filho e não pudeste? Já tiveste o lugar aonde vives ameaçado e temeste ir viver na rua ? Já precisaste de uns meros euros para te deslocar e pedir ajuda e tiveste de andar quilómetros a pé para chegar lá ?
Sabes porque as mulheres pobres engordam e envelhecem precocemente ?
Elas não podem escolher o que comem, não podem pagar ginásios nem tratamentos ou cuidados de saúde estética, não podem cuidar os dentes, os cabelos, a pele.
- Diz-me pois tu que nunca viveste estas coisas o que verdadeiramente te liga a estas pessoas?
Sempre me ligou o coração às dificuldades humanas.
Mas com o tempo fui compreendendo que não chegava preparar-se , estudar, trabalhar, lutar por uma vida minimamente confortável e digna para nos salvar de cair numa situação humanamente degradante.
Pessoas bem posicionadas na vida por circunstâncias várias na vida e sem que nada o faça prever podem perder tudo.
Incêndios, calamidades que ceifam vidas, difíceis de reerguer quando já não se arranja um trabalho. Situações em que pessoas são privadas de aceder ao trabalho também as há. Polícias suspensos sem vencimento. Pessoas a sobreviver sem qualquer vencimento que não queriam nem um subsidiuzinho nem a nossa caridade, queriam apenas sustentar-se dignamente fazendo aquilo para que estão habilitadas a fazer , mediante um trabalho digno.
É preciso apontar sem erro que leis existem, conjugadas com a estrutura do sistema político, económico, social e cultural que promovem a pobreza neste País ainda que involuntariamente. É preciso reinventar uma consciência social nova e novos valores. É preciso combater a indiferença ao sofrimento alheio. É preciso que a vida deixe de ser uma exposição ou feira de vaidades a banhos, de lautos repastos, de luxos, distante da realidade de tantos que por vezes nem para estatísticas contam.
Pense nisto : se estiver ao seu alcance sorrir, estender a mão, abraçar alguém em dor, oferecer um emprego, partilhar algo que talvez lhe seja até supérfluo, não seja indiferente.
A vida é ,mesmo para os maiores, uma grande incógnita e está em permanente mutação.

Sem comentários: