sábado, 25 de fevereiro de 2017

Um poema de dor


Lisboa 21.02.2017, 14:03h, Estação de Comboio de Sete Rios

Na pequena parede que ladeia a linha férrea crua, agre, aonde por vezes se perdem vidas dramaticamente, como por ironia, alguém desenhou a palavra "POESIA".
As pessoas passam indiferentes a tudo, pesquisam horários e trajetos dos comboios e aguardam. Esperam como se espera a vida quando dela só se aguarda destino certo.
Entre elas, um homem agastado pelas marcas do tempo, inquieto, ansioso, de olhar perdido, fala sem que ninguém lhe responda ou sequer o note.
Naquele olhar havia um ar de bipolaridade ou mesmo pior e muita mágoa que assustava um pouco. Seria por isso talvez que um pequeno grupo juvenil sorrindo das suas faltas se afastou enquanto deixava escutar : "é louco".
Sentei-me a seu lado.
Ele prosseguia" anda um homem aqui desde a manhã sem comer nada e nem um restaurante..."
Estranhei. Com efeito a estação conta com vários estabelecimentos de restauração.
No entanto, hesitante, olhei-o e disse-lhe: - Não precisa ficar assim, pegue numas moedinhas e ali mesmo na máquina consegue tirar algo para pelo menos confortar o estomago".
O homem olhou-me com uma estranheza rara e tão subitamente o seu olhar ganhou uma serenidade inesperada.
Respondeu-me : - Estou quase a chegar a casa, quero ir para Benfica, apenas não sei onde estou."
Aproximei-me dele e com a ternura que consegui vestir a voz , tranquilizei-o:
- Está em Sete Rios. E está bem. É nesta linha que passará o comboio que leva a Benfica. Fique tranquilo, eu própria viajarei nele.. Dir-lhe-ei. Não está perdido.
Durante alguns momentos serenou.
Levantou-se depois para pedir um cigarro a alguém.
A mim não o fez. Perceberia que não fumo?!...
Depois regressou para junto de mim.
À chegada do comboio, assinalei -lhe que devia entrar.
Viajamos de pé em silêncio. Nunca saiu do meu lado.
Momentos depois um rapaz dirigiu-se a mim e pediu-me dinheiro para comer.
Nada tinha ali que pudesse ofertar-lhe, o que lhe disse.
Nesse momento o homem segredou-me : "estou pior do que ele, sabe? Tive licença para ir a casa, mas estou preso."
Uma sensação dúbia invadiu-me. Poderia estar a conversar com alguém perigoso. Um lado de mim censura-me esta tendência de alma para cuidar dos males do mundo. Mas outro lado impôs-me perguntar ao que restava daquele ser humano: - Mas o que aconteceu ?
Ia contar-me, quando logo se chegou a Benfica.
Então disse-lhe : - se tem que sair em Benfica é aqui.
Despedindo-se com um olhar gasto e grato, repetiu: sim é aqui. E partiu.

Eu prossegui viagem perdida de curiosidade. Não sei o que fez aquele homem. Sei que restava tão pouco dele. E o que restava se acalmava e crescia com um mero e insignificante gesto de atenção.

Maria

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