domingo, 3 de maio de 2009

Entre nós... sem palavras...

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Poema à Maternidade
Pode lá ser! Não quero! Não consinto!
Tudo em mim se revolta, a carne, o instinto,
a minha mocidade, o meu amor,
a minha vida em flor!
É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
se o meu corpo consente,
a minha alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
Acabou-se, acabou-se! Agora, renuncia,
começa a tua noite, acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher. Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor. Agora és só raiz.
Não pode ser! É injusta a minha sorte,
não quero dar a vida a quem me traz a morte.
Recuso-me a sofrer. A minha mocidade
exige-me horizonte e liberdade.
O meu destino há-de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro…
Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro, canto!
Porquê, Senhor,
Há só uma palavra: amor, amor, amor!
Dai-me outra voz que nunca tenha dito
coisas más, coisas vis, e que saiba a Infinito.
Dai-me outro coração mais puro, mais profundo,
que o meu já se quebrou de encontro ao mundo.
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
que não tenha presente nem passado.
Dai-me outras mãos que as minhas já tocaram
a vida e a morte, o bem e o mal, e já pecaram.
Filho, porque seria? Ao vires para mim,
mudaste num jardim
os espinhos da minha carne triste.
E como conseguiste
pintar de sol as horas mais sombrias?
Meu menino, dorme, dorme,
e deixa-me cantar
para afastar
a vida, um papão enorme.
Vamos agora brincar…
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
Já te dei o meu destino,
posso bem dar-te a Lua.
Toma um navio, um cavalo,
uma estrela, o mar sem fundo.
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres, dou-te o mundo.
Porque não queres brincar,
Porque preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
do seu olhar?
Uma vida inquieta e obscura,
que eu não lhe dei,
anda a queimar-lhe a frescura.
Ainda hoje, meu filho, não sorriste,
e o teu olhar é triste,
cheiras a noite, a luto, a azebre…
Senhor, o meu filho tem febre,
o seu hálito queima, o seu olhar escalda!
Ele que ao respirar cheirava a cravo,
e tinha um olhar de estrela ou de esmeralda,
agora tem na boca um amargo travo
e cheira a noite, a luto, a azebre…
Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos meus olhos céu e luz,
livrai-me da blasfémia… Deus, Jesus,
pois se o meu filho morre, se agoniza,
porque há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei-de pôr, de rastros,
porque estarão tão alto os astros?
Senhor, eu sou culpada, eu sei o que é o pecado,
mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado.
Para mim não há mal que não aceite,
mas ele, ainda tão perto do teu céu!A sua vida era beber-me o leite…
No olhar com que me olhava tinha um véu
de neblinas, de névoas de outras vidas.
Às vezes tinha as pálpebras descidas
e punha-se a chorar no meu regaço,
com saudades, talvez, do céu, do espaço.
O meu filho tem febre!
Porque andam a cantar pelos caminhos?
Porque há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
o meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida, Vida, Vida…
Louvado seja Deus! A morte foi-se embora,
já não tens febre agora!
O meu menino vive,
este menino, o meu, que só eu tive!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino ri, e eu posso já chorar!
E o meu menino vive e toda a vida canta,
toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!
(Fernanda de Castro)


2 comentários:

Anónimo disse...

Maria(estranho... chamar-te assim...)
Todos os dias quando chego ao trabalho,pelas 8 e 30h.,abro o teu blog. Leio o que escreves, vejo-te, revejo-te. Suponha que nunca o saberias.
Hoje não resisti a comentar.
Lembro-me de ti com 17 anos, naquela fase em que a educação sempre em casas religiosas te colocaram todas as dúvidas sobre a tua relação com Deus. Da tua mãe pedir que te dessem responsabilidades na Igreja para que não fosses... e tu aceitares os miúdos, o coro ...
Lembro-me do dia da mãe nesse ano e de te pedirmos um dos teus poemas (já os fazias e de que maneira...)
E tu " não, não, uma coisa é falar de Deus a miúdos" outra é participar de ...
isso não..."
Eu te dizer: escolhes o poema.
E tu, tenho a certeza, ciente do choque( pelas considerações quanto ao corpo) que provocarias nos mais velhos, escolheres este poema.
Lembro-me da tua figura lá em cima e do som produzido pela tua voz ao micro, da tua expressividade...
A cada palavra, uma emoção diversa, linda, linda, redobradamente...
De uma a uma se silenciarem as pessoas, suspensas nos teus gestos, no som de cada uma das tuas palavras, do som da tua voz que ecoava como o som de um instrumento musical maravilhosamente harmonico, doce, belo.
E de no final até a velha A. dizer emocionada: "que extraordinário ..."
Recordaste-me essa menina tão cheia de fé em mudar o mundo, mesmo que fosse por pequenos passos, mudando um pouco a vida dos que estão perto, mentalidades...
NÃO DEIXES MORRER A TUA ESPERANÇA.
Lembra-te, podem te tirar muita coisa.Têm poder para te tirar muita coisa, quase tudo, mas jamais para te tornar na pessoa que tu não és nem queres ser.
Sabes, adoraria pelo Natal ter um livrinho de contos teus para oferecer à minha neta que vai nascer...
Um beijo

Anónimo disse...

A Mãe de Peixes
Por Eunice Ferrari:
Esta mãe é cuidadosa, doce e romântica. Vê em cada filho a possibilidade de doação e sacrifício. Delicada e muito sensível, esta mãe adora receber e fazer um carinho. Dedica-se de todo coração ao conforto e bem estar emocional de toda família. Não suportam brigas, rejeições ou qualquer desequilíbrio ou desavenças dentro de casa. Presentes: Roupas e bolsa antigas encontradas em lojas de roupas usadas, porta retratos, jóias antigas e objectos de arte, CD’s e DVD’s românticos ou espiritualistas, perfumes delicados.

Está a ver ? Melguinha, melosa ...
a deixar aflorar às vezes a "malvadez castigadora" do descendente escorpião que tens...
mas minha.
Adoro-te, BB