Confesso que desde Saddam Husseim que nem consigo abordar tal assunto.
Ainda hoje recordo a indignidade da imagem do seu corpo exposto no solo, com o pescoço quebrado e sou tomada por um sentimento de agonia e repulsa tão intenso, um sentimento que quase não consigo conter e nem verdadeiramente descrever.
O homem continua a ser um animal que contrariando todas as teorias evolucionistas, em algumas matérias, muito pouco evolui.
A hipocrisia política das Nações que por um lado subscreve declarações universais de direitos sobre a dignidade humana e por outro lado convive de consciência tranquila com este tipo de acontecimentos por conta da defesa de certos interesses entendidos como superiores é impressionante.
Qual a diferença entre os crimes de "Saddam" e a morte dada a Saddam?
Que ensinamentos de cidadania deixou por herança essa morte, no modo como foi perpetrada ?
Para mim, a morte nunca se justifica. Só a vida justifica, corrige e recria ou reconstroi. Só a vida tem a virtualidade de educar, de formar consciências...
Por isso, que me desculpe quem gentilmente me pediu para falar de morte : não me apetece .
Depois, já está falada, em diversas perspectivas, como pode ver-se por aqui :
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Mais, falar de um tema assim é sempre um risco .
Lembram-se de Dario III, rei da Pérsia, aquele que cometeu erros estratégicos que contribuíram para a sua derrota perante Alexandre, o Grande, na Batalha de Issus, em Novembro de 333 a.C.
Informado do desastre, Dario III terá mandado matar Charidemos, que o advertira sobre as consequências das suas decisões.
Este episódio deu origem a uma expressão popular, usada sempre que alguém reage contra quem, honestamente, emite uma opinião verdadeira mas que lhe é incómoda: matar o mensageiro.
Era o risco que eu corria se começasse a falar de morte.
Por vezes o mensageiro trás novas de morte, uma morte que pode até nem ser física, sem deixar de ser morte...
Ainda nem abrimos o invólucro selado com a nova que ele nos aporta e já o seu olhar agoniado pela perburbada consciência e conhecimento da injustiça da morte que nos anunciará, nos revela o conteúdo da notícia.
(...)
"Foi-lhes dado escolher entre serem Reis ou mensageiros reais. À maneira das crianças quiseram todos ser mensageiros. É por isso que só há mensageiros. Correm pelo mundo e, uma vez que não há Reis, gritam uns para os outros as mensagens que entretanto perderam o sentido. Bem gostariam de pôr um fim às suas vidas miseráveis, mas não se atrevem, por causa do juramento que fizeram."
in :Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
in :Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

8 comentários:
Também penso que não há nada que justifique a manutenção da pena de morte. Nem é pela sua existência que a criminalidade diminui...
Mais um excelente post, gostei imenso querida amiga.
Beijo.
Olá Poeta!
Obrigada pela visita e pelo comentário generoso.
Temos então essa ideia sobre o tema em comum entre nós dois.
É exactamente como dizes, não parece sequer que a criminalidade diminua.
Obrigada.
Um beijo.
Em relação a pena de morte é tentarmos emendar um erro com outro erro e quanto a mim nãos se justifica E um assunto que me arrepia bastante foi preciso ganhar bastante coragem para fazer um comentario, pois tudo que seja violência deixa-me bastante transtornado.As vezes vou a Lisboa apanhar o meu banho de civilização e numa dessas vezes entrei num alfarrabista que fica nas Escadinhas do Duque ao pé da estação do Rossio e tinham lá uma serie de livros da autoria de Jose Vilhena que faz uma critica a sociedade de uma forma humoristica
Um dos livros que eu comprei desse autor tem o título: "História Universal da Pulhisse Humana" foi escrito em 1960 o autor aborda certas realidades de uma forma humoristica pois assim são mais faceis de digerir
Esse livro escrito em 1960 infelizmente mantem actualidade
Até breve beijinhos do: Jose
Olá José, com muita pena minha, não li esse livro.
Mas gostaria de ter lido.
Provavelmente já não há edição alguma à venda. Quem sabe um dia o José possa revelar-me um pouco o seu conteúdo.
Muito obrigada pelos seus comentários, sempre tão cuidados, tão cultos. Encantam-me completamente.
Mas sabe José este texto tem implícito uma morte que não revelei.
Apenas enunciei, quando me referi a mortes que possam não ser físicas.
Por vezes recebemos notícias que são para nós uma mensagem de morte.
Daí que me referisse também ao olhar do portador da notícia...
Tem toda a razão no que se refere "à pulhice humana" com que infelizmente ainda tanto nos confrontamos.
Um beijinho
Maria
Belo esforço de escrita
àcerca de um tema tão delicado
Na vida há tantas mortes
É verdade.
Que bom ver um pouco de mar por este espaço.
Muito obrigado, Mar Arável.
Seja vem vindo.
Como disse não foi facil ter feito ontem o comentario pois todas as situações de violência transtornam-me bastante e o assunto principal bastante delicado
eu vi na televisão as imagens e fiquei chocado.
Mudemos de assunto quando fala na história do mensageiro, as pessoas muitas vezes não querem ouvir nem admitir certas verdades.
Ser-se directo e frontal tem seus riscos.
Certas pessoas quando vão a um bruxo, um vidente ou outro profissional semelhante pagam-lhe os honorarios mas querem ouvir o que lhes agrada se lhes disserem coisas que não querem ouvir saem de lá todos furiosos e dizem que ele ou ela não presta.
Muitas vezes dizem as pessoas que vêm um futuro muito risonho vão ser muito ricos....um autêntico conto de fadas, mas sim há sempre um mas há quem lhes queira mal e podera haver algumas dificuldades.
No fundo esta afirmação dá para os dois lados, é uma forma de estarem sempre salvaguardados.
Penso que respondi a sua questão sem me desviar do asunto.
Beijinhos do: José
Muito obrigado, mais uma vez José.
É muito atencioso com o que escrevo. Agradeço muito sensibilizada.
Beijinhos.
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