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terça-feira, 14 de julho de 2009

O olhar do mensageiro ...

Pediram-me para falar um pouco sobre a pena de morte.
Confesso que desde Saddam Husseim que nem consigo abordar tal assunto.
Ainda hoje recordo a indignidade da imagem do seu corpo exposto no solo, com o pescoço quebrado e sou tomada por um sentimento de agonia e repulsa tão intenso, um sentimento que quase não consigo conter e nem verdadeiramente descrever.
O homem continua a ser um animal que contrariando todas as teorias evolucionistas, em algumas matérias, muito pouco evolui.
A hipocrisia política das Nações que por um lado subscreve declarações universais de direitos sobre a dignidade humana e por outro lado convive de consciência tranquila com este tipo de acontecimentos por conta da defesa de certos interesses entendidos como superiores é impressionante.
Qual a diferença entre os crimes de "Saddam" e a morte dada a Saddam?
Que ensinamentos de cidadania deixou por herança essa morte, no modo como foi perpetrada ?
Para mim, a morte nunca se justifica. Só a vida justifica, corrige e recria ou reconstroi. Só a vida tem a virtualidade de educar, de formar consciências...
Por isso, que me desculpe quem gentilmente me pediu para falar de morte : não me apetece .
Depois, já está falada, em diversas perspectivas, como pode ver-se por aqui :

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Mais, falar de um tema assim é sempre um risco .
Lembram-se de Dario III, rei da Pérsia, aquele que cometeu erros estratégicos que contribuíram para a sua derrota perante Alexandre, o Grande, na Batalha de Issus, em Novembro de 333 a.C.
Informado do desastre, Dario III terá mandado matar Charidemos, que o advertira sobre as consequências das suas decisões.
Este episódio deu origem a uma expressão popular, usada sempre que alguém reage contra quem, honestamente, emite uma opinião verdadeira mas que lhe é incómoda: matar o mensageiro.
Era o risco que eu corria se começasse a falar de morte.
Por vezes o mensageiro trás novas de morte, uma morte que pode até nem ser física, sem deixar de ser morte...
Ainda nem abrimos o invólucro selado com a nova que ele nos aporta e já o seu olhar agoniado pela perburbada consciência e conhecimento da injustiça da morte que nos anunciará, nos revela o conteúdo da notícia.
(...)
"Foi-lhes dado escolher entre serem Reis ou mensageiros reais. À maneira das crianças quiseram todos ser mensageiros. É por isso que só há mensageiros. Correm pelo mundo e, uma vez que não há Reis, gritam uns para os outros as mensagens que entretanto perderam o sentido. Bem gostariam de pôr um fim às suas vidas miseráveis, mas não se atrevem, por causa do juramento que fizeram."
in :Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka