terça-feira, 28 de julho de 2009

A viúva

A história que vou hoje aqui contar ocorreu no ano de 2005, com uma amiga próxima, de características muito peculiares.
Ela trabalhava, à data, num Tribunal situado numa cidade de relativa dimensão, situada no coração do Ribatejo .
Sofrera nesse ano perdas dolorosas de que a duras penas de alma silenciava luto, num trajar de negro que só ela não compreendia o quanto iluminava o seu perfil.
A paisagem bucólica avistada das ameias das muralhas de um castelo ao sol poente sobre o rio, sulcado de banquinhos de areias que enfeitavam pequenos caudais de água que se unificavam mais abaixo, num abraço lânguido e profundo, ao azul de perder de vista entre o céu e o Tejo;


com toda a facilidade galvanizava a sua melancolia e perdia-lhe o olhar negro, como as suas vestes, por entre a luz rarefeita dos fins de tarde, em que ali se sentava e permanecia só, encetando diálogos de alma com Aquele que lhe levara os seus, inopinadamente, negociando com Ele, as condições em que os alojaria além do Sol, até chegar o momento em que ela própria partisse também e pudessem reunificar-se.
De natureza despistada e incrédula, toda ela era alheamento neste cenário, em que um homem Ribatejano dos quatro costados, amante dos touros e da terra, apreciador do bom vinho e de pouca resistência aos encantos da condição feminina, porém de alma franca e espírito resoluto, como todo o genuíno Ribatejano, reparou nela.
Ela não viu.
Porque nunca via...Ele contudo de imediato se prendeu à visão da sua aparente fragilidade envolvida naquele misterioso traje negro que a cobria, sem contudo esconder a seda clara, com que a natureza lhe envolvera os músculos desenhados nos membros inferiores e permitia ainda intuir-lhe um coração que pulsava do decote, em forma de v, decrescente até à cintura estruturada como uma espécie de faixa de Gaza, em território selvagem a descobrir e conquistar. Passou a seguir todos os seus passos, apropriou-se das suas rotinas, conheceu-lhe o filho, a casa e o emprego, pese embora não soubesse exactamente em que consistia o seu trabalho.

Viu-a ali entrar.


Tal qual no restaurante da D. Maria que particularmente nessa fase, era quem garantia a regularidade da sopinha da casa, já que o espírito andava pouco amigo de qualquer espécie de cozinhado ou complicação. Mas, nem ao menino podiam faltar legumes, nem a ela, o mínimo que lhe exigia a necessidade de se manter na luta para que ele crescesse feliz.
A D. Maria era uma mulher extraordinária que se sentava muitas vezes à mesa com os clientes da casa, alimentando-os de esperança, repartindo vivências, doando um carinho fraterno nas pausas das suas palavras bem pronunciadas, abertas, tal qual o seu coração.
E a minha amiga gostava especialmente dela.
Além disso, sempre que precisava de actualizar a sua informação sobre os acontecimentos no burgo, sabia não encontrar fonte mais qualificada.
Quando se apercebeu que aquele homem perseguia todos os seus movimentos e notou que reparara mesmo na porta de sua casa, a minha amiga começou a preocupar-se com a segurança do filho.
Perguntou à D. Maria se sabia quem era aquele homem que se sentara na mesa à frente e que a seguia há alguns dias. Pediu que não a interpretasse mal, mas temia que tivesse algum mau propósito e, nesse, atingisse a sua criança.
D. Maria sorria e repetia-lhe insistentemente que uma mulher como ela não devia estar só.
Um dia, o homem seguio-a de carro até à porta do emprego.
Angustiada, estacionou o seu carro, a correr subiu a longa e fria escadaria central do edifício, e chegada aos Serviços deparou-se, casualmente, com o Chefe de uma das polícias locais.
Explicou-lhe a situação e pediu que o identificasse e perguntasse porque a seguia.
O Chefe espreitou pela janela e notou que a viatura do indivíduo em causa se encontrava ali, com o motor em funcionamento.
Dirigiu-se a ele e perguntou-lhe se conhecia a minha amiga e porque a seguia.
O homem respondeu simplesmente :
- Gosto dela, mas ela ficou por certo viúva há pouco tempo, porque tem sempre espelhada uma tristeza tão grande no olhar que eu olho, olho para ela mas não consigo dizer-lhe nada. Perco a coragem ...
Desconheço o que o Polícia respondeu ao homem, mas sei que regressou ao Serviço sorrindo matreiramente e com arzinho de provocação perguntou à minha amiga :
- Por acaso conhece disposição penal que puna uma pessoa por se apaixonar por outra ?
Pobrezinha, foi o alvo referencial de todas as graças, ditos e não ditos por parte quer de todos os colegas, quer entre polícias aonde a história se espalhou no meio :
" Só faltaria o Polícia deter um homem só porque gostou dela"...
Na verdade nem há palavras para descrever o transtorno em que a minha amiga ficou.
Ela que chegou a cogitar não fosse o homem perigoso meliante, quem sabe até relacionado ao tráfico de armas, não lhe restou uma única sequer, para armar a defesa ao seu rosto corado pelo desastre da situação em que incorreu...
Ainda hoje quando lhe relembramos este acontecimento cora abundantemente.
Pior foi quando a D. Maria lhe disse :
- Eu já sabia, ele havia-me dito . Também é viúvo, tem uma boa quinta com animais de pasto, touros e cavalos, com os quais o seu menino poderia brincar ...
Conhecendo como a conheço, a minha amiga ficou por certo com os cabelos em pé.
Ela que vivia sonhando o amor, mas jamais aprendeu a vivê-lo ...
*
Recordei hoje esta história por causa do negro e do luto.
Em jeito de graça, dizia-me a mãe este fim de semana:
- Só para eu ficar certa de que tal não te ocorrerá a ti por minha causa, tal qual sucedeu a ela, promete-me que não vestirás negro ...
Sabes filha, a mãe "pitosga" como já se encontra, se te puseres a falar para o céu vestida de negro, por certo não te alcançará com a vista...
Prometes à mãe que se te der para falar para o céu, vestes pelo menos algo mais visível ?!...

(...)
A minha amiga voltou a ver o Ribatejano valoroso que se encantou pelo seu vestido preto.

Um dia conto o que aconteceu, após ...

Maria

10 comentários:

Anónimo disse...

Cara Maria, a sua amiga não tinha motivos para envergonhar-se.
O que ela pensou qualquer pessoa pensaria.
A mim se me seguissem dias a fio todos os passos a ponto de descobrirem onde e com quem vivia, e onde trabalhava, corriam o risco de precisar de ir ao dentista ...
Claro que sendo a sua amiga, mulher, também poderia ter pelo menos ponderado se não era só a beleza dele que ele apreciava.
Contudo acho que ela agiu bem. Qualquer pessoa teria tomado essa medida.
Os risinhos de que fala o seu texto sobre a sua amiga não são mais que pisadelas no lado luminoso do pirilampo ...

Bj

XX

Anónimo disse...

Olá Maria,eu faço o seguinte comentário: Estamos inicialmente perante um processo de luto sentido em que a senhora sofreu a perda do seu companheiro (não estamos perante uma "viuva alegre")
O processo de luto é bastante complicado muitas vezes surge em primeiro lugar uma fase de "raiva" em que a pessoa diz porque isto me aconteceu a mim, asseguir uma fase de "denegação" apessoa não quer admitir a realidade seguidamente a fase de "negociação" e finalmente a fase de "aceitação".Não é facil lidar com um processo de luto.
Na minha profissão o trabalho que eu mais detesto e me deprime , é passar uma certidão de óbito, pois tenho que ir fazer a verificação ver se a pessoa faleceu mesmo e se não há sinais de morte violenta.
Quando ela se isola para meditar falar com Deus, estamos nas fases de negociação e aceitação.
No que respeita ao individou que a segue, só ao fim de algum tempo ela se aprecebe na minha opinião pessoal a sua conduta não é nada correta, ela está bastante fragilizada, dá para ver pelo seu comportamento não estaria de momento receptiva a outra pessoa ele com o seu comportamento só a afastaria.
Vamos a ver ele estaria mesmo interessado ou procurava mais uma para curriculum, hoje infelizmente temos de desconfiar de tudo e de todos. Eu no lugar dela teria o mesmo comportamento (ir a policia)
Se ele estivesse intressado seria mais correto da parte dele ir a um florista encomendar um arranjo floral mandar entregar na sua residência com uma carta onde ele expunha a sua situação
E este o meu comentario´, até breve beijinhos:José Bonacho

O Guardião disse...

É difícil, mesmo impossível adivinhar o que vai na alma de quem nada conhecemos, mas o mundo está povoado de boas e más pessoas, pelo que por vezes arriscamos para ver o que nos sai pela frente... é que não nos podemos fechar para o mundo!
Cumps

MARIA disse...

Meu querido XX, se é quem deduzo que seja, tenho a certeza que leu com um olhar muito singular esta história...
É bom ver que a referenciou e me achou ( ou acha ) ora por estas bandas.

Um beijinho

MARIA disse...

José, muito obrigado pelo seu comentário como sempre especialmente cuidado e atencioso.
Esta minha amiga não repararia em ninguém, de facto, naquela época.
Contudo, tanto quanto pude perceber o senhor em causa era uma pessoa de bons sentimentos, porém de uma grande simplicidade de espírito. Dificilmente lhe ocorreria escrever-lhe ou enviar-lhe flores.
Sei que depois disto, ainda insistiu em vê-la e que ela se desculpou por o ter exposto aquela abordagem policial, mas ele teria contribuido para que ela se sentisse insegura.
Só quem recorde o episódio e alguns ainda o recordarão, pode melhor compreender a reacção dela.
Agora de facto, ela nunca cogitou sequer que pudesse ser isso que ele pretendia. Na época das nossas avós dizem que até era comum os rapazes encetarem conhecimento com as meninas desta forma. Ela nunca imaginou e foi constrangedor, mas também engraçado. Entre um pequeno grupo restrito mais amigo o tema serviu de galhofa por um tempo.

Obrigada e um beijinho amigo.

MARIA disse...

Guardião, meu especialíssimo amigo, são sempre sábias as suas palavras.
Acontece que por vezes o nosso dilema não está em fechar-se ao mundo, mas em abrir uma porta ou uma janela do mundo para nós.

Um beijinho amigo

Maria

MADRUGA disse...

Maria,
Quanto mais te conheço mais te admiro.
Extraodinária subtileza...
Corrige-me se estou errado : o homem ao vê-la de luto julgou-a viúva ( pois, era aquela tua amiga especial, não era?!...)
Contudo ela "chorava, negociava a perda dossss seussss" ...
É isso, não é ?
Percebi bem ?
Mas que cromo esse fulaninho ...

MARIA disse...

:-)

Sim Ricardo, é verdade. Compreendeste bem.
Há anos negros na vida das pessoas.
Nesse ano essa amiga de quem tu também gostas perdeu três parentes próximos, dois deles, particularmente, muito importantes e próximos. Um em Janeiro e outro no dia 13 de Abril de 2005.
É muito perpicaz a tua observação.
:-)

Um beijinho. Obrigada Ricardo.

Mar Arável disse...

São as melhores histórias da vida

a preto e branco

Excelente escrita

MARIA disse...

MAR,

obrigada, extraordinária é a sua forma de escrever, isso sim.

bjinho