terça-feira, 8 de setembro de 2009

GINJA DE OBIDOS

LI E FIQUEI CHEIA DE VONTADE ...
"O leitor ou conhece ou ouviu falar da Ginginha do Rossio, em Lisboa. De contrário, terá de acreditar na minha descrição: é um minúsculo estabelecimento de bebidas especializado na venda de uma das mais populares bebidas portuguesas, a ginginha; com clientela rápida e despretensiosa, a Ginginha do Rossio é uma referência para turistas que passam pela zona e para várias gerações de frequentadores que, por razões certamente inexplicáveis, continuam a passar pelo seu balcão e a pedir “uma com elas” ou “sem elas”. Uma ginginha. O estabelecimento nunca envenenou ninguém, sendo certo que também não é um modelo de limpeza. Mas é a Ginginha do Rossio.

O meu amigo Paulo Moreiras, romancista, dedicou à ginja dois livros exemplares. De acordo com a sua preciosa investigação, a melhor ginja é a da zona de Óbidos e a Ginginha do Rossio servia um dos melhores exemplares. Seja como for, Óbidos por um lado, e a Ginginha do Rossio por outro, enchem-se de turistas e de apreciadores que vão em busca dessa bebida simpática, comovente e em risco de vida. Como é bom que se diga, Paulo Moreiras começou a investigar a história da ginja depois de lhe terem dito, num restaurante, que não era uma bebida “à altura”.
Desta vez, foi a ASAE, Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, que partiu em busca da Ginginha do Rossio, encerrando-lhe as portas. O argumento é a falta de higiene, tendo sido capturadas algumas garrafas da bebida.

Ao capturar as garrafas e ao encerrar o estabelecimento, a ASAE estava apenas a cumprir a sua função, que está distribuída pela segurança alimentar, pela segurança de produtos e instalações, pelas questões de propriedade intelectual e industrial e também – naturalmente – pelo turismo. Ou seja, a ASAE zela pelo cumprimento da lei. E zela de forma muito eficiente, apresentando-se ao serviço público de colete à prova de bala e de gorro passa-montanhas. Por aí já o leitor vê como é arriscado o seu trabalho e como é perigoso o mister de fiscal das actividades relacionadas com a segurança alimentar. Ser atingido por uma ginja que não mencione a sua origem é grave e fatal.

Acontece que Portugal é, segundo a ASAE (e depois das suas investidas) «um dos países mais seguros no que diz respeito à higiene e qualidade dos alimentos». Isso é uma vantagem enorme. Hoje já não há castanhas assadas embrulhadas nas Páginas Amarelas nem bolas-de-berlim nas praias. A aguardente de medronho tradicional, que procurávamos na Serra de Monchique, e que já tinha sido atingido pelos incêndios, também foi perseguida pela ASAE. Há duas ou três semanas precisei de negociar uma aguardente tradicional de vinho verde, refrescada, como um americano durante a lei seca.

A Ginginha do Rossio era um monumento nacional. Uma referência que amigos italianos, brasileiros e alemães procuravam para provar uma das melhores ginginhas portuguesas. Aquele espaço tresandava a história e a convivialidade, a sorrisos largos e a um leve ondular de fígados conservados em ginja. Pois que se varrese o seu chão com mais frequência. Que se pusesse um médico à porta. O mal, porém, não é apenas o encerramento da Ginginha do Rossio, esse parapeito da história da cidade e do país. O mal é a onda de lixívia sintética que vai passando por tudo quanto é “segurança alimentar” nas vetustas tascas onde vinhos fatais fizeram literatura e, certamente, doenças hepáticas. Essa onda que prega a normalização dos costumes alimentares acabará com a pequena alma dessas nobres instituições de pecado, como a Ginginha do Rossio. Portugal aplica estas leis melhor do que ninguém. A breve prazo, agentes policiais entrarão nas nossas casas apreendendo bacalhau com excesso de sal e ginja da Beira Alta. Seremos saudáveis e faremos jogging. Tudo o resto será encerrado. "

in Jornal de Notícias – 19 Novembro 2007
Etiquetas: Jornal de Notícias

posted by Sérgio Aires at 19.11.07
Sérgio Aires Localização: Porto, in http://fjv-cronicas.blogspot.com


13 comentários:

antónio m p disse...

Ahhh. Afinal também há ginja em Óbidos. E vende-se onde? É que me fica mais perto, agora, do que ir a Lisboa.

MARIA disse...

Ahhh
António...
Nunca experimentou a ginginha na chaveninha de chocolate nos dias de feira de chocolate em Óbidos?
Hummm...
Só a lembrança ...
Hoje deu-me para isto, veja lá ...
Quando houver feira eu alerto ...
Obrigada.
Gosto muito de receber a sua visita.

Um beijinho

Maria

Zé Povinho disse...

Por proximidade fui e sou um consumidor da Ginginha do Rossio, embora prefira claramente de óBidos, a feita por mim e Ginja Victor (Carregal do Sal). Quanto à ASAE, desprezo a sua acção repressiva e pouco didática, mas o que mais me revolta é o ataque sistemático aos produtos tradicionais, por parte de uns saloios que dizem cumprir as directivas de Bruxelas (?), mas que nunca lá se deslocaram para ver in loco a realidade, que garanto os faria mudar radicalmente de ideias.
Abraço do Zé

Maria disse...

Olá Zé, saudades ...
Na mouche, é mesmo tal qual diz.
Beijos saudosos com amizade .

Maria

O Puma disse...

cORREMOS O RISCO DA asae

fechar Portugal

Um dia destes - aqui - nem uma ginja

Estamos feitos?

MARIA disse...

Não chegam a tanto porque depois não têm senão trabalho de secretária e por vezes eles próprios vão à ginja...

bjinhoo , muito obrigado.

Nilson Barcelli disse...

Nunca bebi.
Estou à espera que me convides para um copo... eheheh...
Acho que as coisas tradicionais devem ser preservadas, mas a segurança alimentar também...
Como és especialista na matéria... pergunto-te se será originária da zona a expressão "conheço-te de ginjeira"... e como é que ela apareceu...
Querida amiga, um beijo.

Nilson Barcelli disse...

PS: depois venho ver a tua resposta...

MARIA disse...

Meu querido Nilson,

Conheço a expressão mas francamente não sei dizer qual a sua origem.
Mas descobri, só para ti, meu poeta de eleição, o dicionário regional de santa maria de lhamas...
Ah?! ...
Viste ?!
É logo uma série de expressões que não se conhecem de ginjeira...
--http://my.opera.com/vinhopin/blog/index.dml/tag/Terra%20Lusitana
--
Quanto ao convite fica em aberto para data que possas vir às ginjas.
A sério :
Só experimentei ginja cá em Óbidos na feira do chocolate.
É bom...
Muito bommm


Um beijinho amigo para o Princípe da Poesia.

Unknown disse...

Pois têm todos que provar a Ginja Victor, Carregal do Sal.Sublime...
E a ginjinha em copo de chocolate preto belga ? E o Cai-Bem?

MARIA disse...

Oh Maria do Carmo só agora dei conta da doçura do seu comentário.
Isso é tentador. E aonde pode encontrar-se essas iguarias?

Grata pela simpatia do seu comentário e visita. Volte, gostei muito de a ter por cá.

um beijinho.

Unknown disse...

A ginja Victor não está nas grandes superfícies e tanto quanto sei, apesar disso é uma empresa exportadora. Consegui o e-mail deles que é, geral@ginjavictor.com
É de facto diferente e de muita qualidade. Um abraço

Victor Pinho disse...

Obrigado pelo elogio que fazes ao meu blog e cá vai uma ginginha!