sexta-feira, 4 de setembro de 2009

No funeral


Sentia-se estranho.
Estranhamente vestido.
Estranhamente deitado.
Estranhamento rodeado por flores de odores que acutilavam o espirro compulsivo.
Não estava na sua cama e nem de pijama.
Estava deitado com sapatos num madeiro duro, escuro.
Estava muito escuro, até a grande porta se abrir.
Percebeu então que estava morto.
Alguns se abeiraram e falavam de si:
Do seu rosto aparentemente vivo,
Do seu coração que tão generoso fora,
Da viúva, que por certo logo se casaria, “pobre dele que se ia”…
Dos filhos e das necessidades que a sua falta lhes acarretaria,
Dos sarilhos de saias em que se metia …
“ Hum … mais vozes que nozes…” cogitava ele, mais morto de espanto …
Era tanto negro, era tanto o pranto…
E no fundo a um canto, como que escondida, a rapariga da firma de segurança e higiene que garantia tais serviços no seu local de trabalho olhava-o fixamente como que a suplicar que reabrisse os olhos.
Nunca reparara na sua beleza.
Com uma candura roubada à pureza da alma, a expressão de uma dor profundamente silenciada, moldava-lhe o rosto.
Ela sofria.
Sofria, realmente.
Ele podia vê-lo.
Não gritava, nem enfeitava gestos largos de um pesar representado.
A sua lágrima calada, grafitada a esforço pelo silêncio profundo de quem ama aceitando a triste sina de saber nunca poder ver retribuído esse sentimento, revelava-lhe um facto que o ressuscitou daquela morte inacabada:
Entre tantas pessoas que o rodeavam e a quem tanto dava, naquele momento, aquela mulher era a única pessoa que o amava.
Diogo acordou com a sua disposição em alta.
Doía-lhe um pouco as costas, como se as houvesse assentado num madeiro duro e escuro…
Foi trabalhar.
À entrada a menina da firma de segurança e higiene olhou-o e saudou-o com um sorridente, “bom dia senhor doutor Diogo, parece muito bem disposto, deve ter tido bons sonhos esta noite …”
- Sonhei que jantaria hoje com uma linda princesa.
- Ai sim, Senhor Dr ?
- Quer jantar comigo esta noite?
- Euuu?!... Bem eu… e a sua senhora não se zangaria?
- Absolutamente, tratarei para que ela conheça o rico Agente da funerária a quem me entregaria e em quem já esfregava a perna, ainda eu não arrefecera…
- Como?!...
-Aceita?!...

(..........................................................................)

Quantos de nós poderiam realmente afirmar com toda a certeza quem o choraria nesse dia...

A vida surpreende-nos tantas vezes.

Por vezes cuidamos de um espaço, plantando nele as sementes mais profundas, mais bonitas, para que germine em mágico jardim aonde colocamos em alto pedestal as pessoas que queremos encantar e a quem nos damos.

E constatamos que é uma pequena sementinha, que cresceu contrariando as agruras do mau tempo e da qual nunca cuidamos e nem demos nada que floresce na nossa mão e nos ampara nos momentos de aflição ...

(...)

Se pudesse fazia uma expressa, clara e inequívoca declaração de gratidão...
Contudo,

Quero agradecer as lágrimas derramadas pela minha "morte".

Deus serve-se por vezes de outros braços para tomar ao colo aqueles que carregam o peso da ignomínia e da injustiça...


DE CORAÇÃO, MUITO OBRIGADO!

16 comentários:

Luis Xavier Rodrigues disse...

Maria,
Já nos temos cruzado na cidade.
Também já tinha passado pelos seus blogues.
Quem por lá passa, é como em Alcobaça, não passa sem lá voltar...
Queria dizer-lhe muitas coisas, mas não seriam próprias para este espaço.
Digo-lhe apenas que conheço em si uma vencedora, uma mulher maravilhosa que não deixará que a asfixiem que lhe apaguem o brilho.
Pequeno pirilampo num mundo aonde imperam bois e vacas ...
Adoro a sua imagem de perfil. É linda, verdadeiramente linda.
Não permita que apaguem serodiamente o seu esplendor, a sua beleza. Lute minha bela Maria porque só a MARIA se entoa AVE VERUM CORPUS.
O momento da verdade acaba sempre por soar...
Com elevada estima, sempre a considerá-la,
Luis

antónio m p disse...

Ah, sim, o acaso a fazer o seu trabalho sem respeito pelo nosso esforço. Eu chamo-lhe acaso, você chama-lhe Deus…

E não sendo de pedir à poesia que se explique, porque sendo arte "lhe compete dizer o indizível", arrisco-me no entanto a perguntar: O peso da ignomínia e da injustiça? Que é isso? Espero que se trate apenas de um pesadelo dentro desse outro pesadelo ficcional que descreve de forma poética.
Com muita estima.

r. disse...

ola maria!!! ha ja algum tempo nao nos falavamos... passo aqui para nao so ver as suas novidades mas tambem para aproveitar a ocasiao e avisar - lhe de que tenho novas fotos no meu blogue!! espero la uma visita sua... beijinho rodso

MARIA disse...

LXR

Muito obrigado.

MARIA disse...

António, obrigada por me visitar.
Aprecio muito as suas visitas.
Toda a ficção tem no fundo pedacitos de verdade, não é ?!...
Talvez numa conversa pessoal, se puder proporcionar-se, possa segredar-lhe o lado real dessas histórias...

Um beijinho amigo

Maria

MARIA disse...

Rodso, bravo, já vi, conquistou o "Olhares" e abriu a passadeira vermelha da amizade virtual ligando-se a vários blogs.
Isto é um pouco viciante, quando começa a escrever-se, a publicar-se, a tendência natural é essa.
Obrigada.
Lá passarei com todo o gosto.

Um beijinho.

Maria

Ruben disse...

Sei que aprecia especialmente.
De mim para si : nunca estará sozinha.Isso nunca !
http://www.youtube.com/watch?v=QrojFR7jM9E

António disse...

Posso pedir-lhe que reabra as caixas de comentários nos seus outros dois blogues.
Ia comentar a "garça perdida" e...
***
(Soube hoje pelo T.P. (...)
De facto, nunca se julgue só...
Não está, garanto-lhe.)

Hoje é com um beijo mesmo que bem merece.

MARIA disse...

Obrigado R.
Um beijinho

Nilson Barcelli disse...

Magnífico texto querida amiga.
Muito criativo.
Vestir a pele do morto para escrever não é nada fácil...
Bom fim de semana.
Beijo.

MARIA disse...

António, terminou faz pouco o mês de Agosto.
Publica-se pouco no verão.
Como não podia responder aos comentários achei por bem fechar, mas logo voltarei a reabrir.
Muito obrigado.

Um beijinho

Maria

MARIA disse...

Nilson, poeta de eleição, Príncipe das palavras, obrigado!

Um beijinho

antónio m p disse...

Opps. Vejo que há + Antónios na terra... Espero que não haja confusão. Beijo. Deste.

MARIA disse...

Nenhuma António...
Ia dizer ...
Diga, por favor. Gosto de lê-lo.

Pata Negra disse...

À passagem dum funeral perguntam ao Bocage:
- Pode-me dizer quem é o morto?
- É aquele que vai dentro do caixão.

Maria, vejo que não podes sair à rua - estes homens!...

Um abraço sem funeral marcado

MARIA disse...

Majestade,
Parabéns pela sua "historia devida" de hoje antes de mais.
Sabe Majestade a minha avó que viveu até aos 106 anos contava-me uma história de um vizinho um pouco atrasado que furtou uma galinhas ao homem rico da terra e foi julgado e condenado por isso.
Achava o pobre muito injusto e que nunca seria condenado por tirar a quem tanto tinha para comer.
Quando lhe perguntaram.
-Então Zezinho?
Respondeu : o gajo condenou-me, mas D. Maria, chamei-lhe filho da égua, da luta:-), e mandei-o para lá...
- E ele , não te prendeu?
- Não...!...
É que só lhe disse tudo isso já FORA do tribunal ....
Os homens do meu blog também não saiem dele...
Alguns perfis se calhar até nem de homem são ...
As aparências iludem ...


:-)

Desejo-lhe um domingo feliz

Maria