quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Percursos...

Numa mensagem colocada na respectiva página de Facebook,
o Senhor Presidente da República, Cavaco Silva,
refere que em seu entender o Presidente da República
"não pode contribuir para o espectáculo público
de cinismo ou de agressividade" e vê com muita apreensão,
o desprestígio da classe política
e a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates.
É uma pena que fique sem compreender-se quem e porque força de
circunstâncias são os actores e os figurantes desse Espectáculo.
Referenciado assim, o dito,
não tem senão o efeito estranho de atoarda política,
num registo que não é comum ao perfil deste Presidente.
E já agora, desculpará Senhor Presidente qualquer coisita,
mas quando fala em desprestígio da classe política
e da impaciência dos cidadãos, fá-lo assim como se fosse uma espécie de
estranho a essa classe política.
Mas a serem verdadeiros os pressupostos do seu raciocínio,terá consciência
de que não está excluído dessa classe e dessa impaciência.
Quando um Povo se impacienta, o mais inteligente a fazer é
perceber porquê: pode suceder que o Povo tenha motivos
de impaciência. Ou não.
Certo é que a não ponderação da impaciência de um Povo já
tem resultados históricos demonstrados...

*

*

*

Não sei se será caso de impaciência

Mas sinto que cada vez mais se sente a necessidade de

alimentar a alma na essência mais íntegra da vida,

aí, aonde cada homem é ainda uma ilha de emoções límpidas e a palavra tem o dom

do encantamento e da beleza.


Convido-vos pois, a desligar o som do slide ao fundo da página e acompanhar

com os pequenos anjos "Libera" e a magia de Bach o poema de Eugénio de Andrade "Desde a Aurora":







Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

Sem comentários: