sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ERA UMA VEZ UM PAÍS AONDE O NATAL ERA SEMPRE FELIZ (III)

RELEMBRO :
Não obstante inspirada em algumas vivências da autora no voluntariado de rua, este conto é TOTALMENTE fictício e não encontra na sua trama qualquer similitude com acontecimentos da vida real, nem com a realidade do nosso País, pelo que qualquer aparência em sentido contrário não passará de imponderada coincidência.



(Maria)



Maria acorreu ao Colégio aonde encontrou Mírian como habitualmente sentada na sua cadeira com uma manta sobre os joelhos sempre queixosos e o olhar perdido por entre os vales avistados da pequena janela do seu quarto.
Relatou-lhe tudo com sofreguidão, falando como se trucidasse um pão depois de não comer há vários dias.
Mírian ouvia-a, lendo no seu rosto com ternura e agrado, pelos seus olhos vivos que contavam tudo o que as palavras não ousavam ou não chegavam a relatar.
Era como se fosse uma menina na aventura de descobrir as várias faces do mundo, experimentando a vida. E a alma de Maria, para Mírian, era assim como uma preciosidade rara, cujo encantamento ela não conseguia disfarçar.
Depois de tudo contado, a velha senhora sorriu com carinho indulgente e lançando jarros de água fria no calor daquele fascinante entusiasmo, disse-lhe :
-Senta-te aqui, Maria, respira um pouco ...
- Mas "vozinha" (assim lhe chamava carinhosamente, apesar da inexistência de laços de sangue entre ambas), tenho que voltar lá. Madalena espera-me. Prometi levar-lhe abafos, alimentos...
- Senta-te Maria, já mandei o Jorge fazer tudo isso e ele fá-lo-á com eficiência, tu sabes...
- Mas ...
- Eu sei, tu queres saber porque é que ela está ali.
As pupilas de Maria abriram um insidioso "sim" que não verbalizou.
Mírian sorriu, pediu chá para ambas e solicitou que se sentasse junto a ela.
A moça anuiu. Admirava por demais a poesia e a grandeza humana daquela senhora, queria-a com tanta ternura, que todos os seus gestos eram com ela carinhos e cuidados e a sua preocupação de nunca a magoar era em si permanente.
Sentou-se junto de Mírian. Esta tragou insidiosamente um pouco de chá, suspirou e disse-lhe :
- Sinto tantas saudades da minha terra. Nestes dias em que o tempo se descolora, até do cemitério local me vem memória. Seus mármores, seus jardins acoplados ao descanso de almas célebres que de algum modo amei. Ali repousa Flor, uma poetisa minha conterrânea. Conheces a poesia de Flor, Maria ?
Maria olhou para a estante e colocou entre as mãos um livro.
Mírian pediu-lhe:
- Lê um pouco. Maria leu, "Alma perdida... http://www.youtube.com/watch?v=JennLHCXEEM ."
Como se nunca tivesse mudado de tema , Mírian começou a contar:
O marido de Madalena foi um grande homem. Um homem de rara cultura, grandeza de alma e carácter.
Conhecio-o.
Liderou uma força especial da Polícia, foi à guerra, trazendo sempre louvores e honra ao seu País.
Era um homem bonito de gestos másculos, porém, elegantes, olhar penetrante e profundo.
A certa altura ingressou numa Magistratura, aonde teve de realizar um percurso profissional de base comum a quem inicia carreira nessas lides.
Ficou colocado num Tribunal afastado de casa. O seu superior hierárquico era uma mulher pouco comum.
Daquelas raras mulheres que mimetizam as características masculinas que entendem ser necessárias ao sucesso profissional : uma ambição extrema sem medida, um tempo ilimitado e descomprometido para o afã laboral, uma rede de amigos poderosos com quem se é relativamente sincero e leal quando dá jeito e longas calças alinhando rectas para uma meta que se julga mais facilmente atingida se num percurso sem curvas e contratempos.
Desde o primeiro momento,os antecedentes profissionais de José constituiram para ela um desafio de liderança que escapou à sua racionalidade.
José com a sua personalidade transparente,com a claridade das suas ideias, iria bater-se pelo respeito da sua independência como Magistrado.
Contudo também estava consciente de que integrando uma Magistratura organizada hierarquicamente facilmente incorreria em desobediência e falta disciplinar se desatendesse ordens da sua superior hierárquica.
Matérias que iam desde a própria forma de organização do trabalho no Tribunal a casos concretos em que ele foi chamado a decidir quando eram partes processuais alguns políticos e grandes nomes do mundo económico local, davam lugar a divergências, a uma acumulada tensão, a excessos de autoridade absolutamente inauditos e inacreditáveis.
Quando ia a casa, do pouco que podia conversar sobre o assunto com Madalena, lia-se o desconforto a desilusão e a revolta. Tudo o que queria era poder fazer um trabalho que fosse útil à sua comunidade. Desejava-o tão sinceramente e a isso dispunha todos os seus conhecimentos e recursos da sua alma e via-se condicionado.
Que fazer ? Não iria denunciar a colega ao Conselho de Magistrados. Seria pior a emenda que o soneto...
Esse Conselho que decidia em última instância a vida e o destino profissional desses magistrados, tinha uma composição mista, constituíndo-se de membros indicados por entidades públicas, designadamente por quem Governava, e outra parte por magistrados.
As suas decisões, distanciadas do terreno real de cada um dos tribunais locais, fundamentavam-se num trabalho que um inspector efectuava e que esse Conselho acriticamente depois subscrevia, constituindo aparentemente ofensa de classe questionar sequer o avisado juízo de quem realizasse esse trabalho.
Por isso Madalena recomendou a José que mudasse antes de Tribunal, deixasse aquela área territorial de trabalho por forma a ficar a salvo daqueles problemas. E ele ,assim fez.
Entretanto a Administração da Justiça deste imaginário País de Trapalhadas especiais ponderava meios para imprimir celeridade às decisões nos Tribunais.
Fora dos Tribunais e sem nada perceber do respectivo funcionamento concluíu que os atrasos processuais ocorriam em grande parte pelo tempo decorrido entre a entrega das queixas, requerimentos e petições pelo cidadão, nas secretarias e a efectiva junção desses papéis a um processo para posterior apresentação a um magistrado que o decide.
Então criou um programa informático, ligando todos os Tribunais a uma mesma rede de trabalho que designou " fodamulus" e que permite sempre que é feito um movimento de papel, um movimento processual, inscrever esse acto nessa rede de modo que se for pedida uma informação a respeito de um processo, em qualquer ponto do Estado, sabe-se que nesse processo consta do computador o último acto que nele foi praticado.
A verdade é que os funcionários que dantes recebiam tais elementos, tinham apenas que os colocar num processo de papel e apresentar ao magistrado que decidia, agora ainda têm que preencher e gerir o "fodamulus", além do próprio processo de papel.
E acontece que possam receber papéis e anotar ao "fodamulus" que o apresentaram ao magistrado, mas na verdade não terem senão feito esse registo informático, não tendo seguido o documento realmente para o magistrado.
É uma justiça virtual e uma justiça real.
A virtual pode ser luz , a real trevas...
Realidades diversas, tudo dependendo do que é registado informaticamente e do rigor com que isso é feito.
Face a esta possível trapalhada que alguns dos meus leitores entenderão melhor que outros, José, em pouco tempo volvido no novo Tribunal por uma conjugação de factores a que a influência da sua superior hirárquica anterior não foi alheia, viu montada uma situação perversa :
Ele que estava há pouco mais de um ano nesse Tribunal, tinha a constar no "fodamulus" como se estivessem em seu poder para despacho centenas de processos com mais de cinco, dez anos, desde a data indeterminada em que os funcionários os inscreveram nesse programa informático como se fossem para ele.
Para o Conselho, o "fodamulus" representa um documento autêntico que faz prova de que a realidade é como nele consta. Por isso, sem objectiva possibilidade de defesa, ele foi condenado disciplinarmente e afastado do cargo.
Faleceu num acidente precipitado pela angústia e desorientação do peso da injustiça e dos sonhos perdidos.
Madalena perdeu a casa, porque a Seguradora interpretou o óbito como uma acção suicida e subtraíu o pagamento do respectivo crédito hipotecário do imóvel à viúva.
Grávida, a rondar os 40 anos de idade, há tanto afastada do mundo laboral, apesar de licenciada em ciência política, foi no espaço temporal de poucos meses que entre a miséria e o desânimo caíu na rua e foi parar ali aonde a encontraste.
Próximo daquele local está instalado o cemitério local e um pouco adiante um hospital.
Que fará Madalena ? Deixar-se-á ir ao encontro de José, ou aceitará ser conduzida um pouco abaixo aonde uma vez mais se escreverá na História humana a frágil desdita de desafiar o Mundo, rumo a uma nova vida, a um novo natal ?!...
Não relatarei o fim deste conto.
A imaginação é um sonho festivo, cálido e doce como o mel de que não quero privar-vos.
Apenas vos direi que mal grado o sonho, nenhum natal nos livra, por mais limpos, dos amargos de boca de uma vida, ainda que muito combatida...

Maria

12 comentários:

vieira calado disse...

Olá, Maria!

Parece que é a 1ª vez que aqui venho.

Aproveito para desejar-lhe

BOM ANO de 2011!

Saudações poéticas

MARIA disse...

Olá, quanta honra!
Fez-me muito feliz receber a sua visita.
Eu leio-o frequentemente, sou fã da sua poesia, da sua escrita.
MUITO OBRIGADO!

Um beijinho amigo
Feliz 2011!

Nilson Barcelli disse...

Maria, a tua história parece real.
Porque a realidade é muitas vezes atroz...
Querida amiga, como o Natal já lá vai, desejo-te um feliz 2011.
Beijos.

Nilson Barcelli disse...

Esqueci-me...
Gosto da tua narrativa. Contas muito bem. Têns fôlego para o conto e talvez até para o romance.

MARIA disse...

Nilson, muito obrigado.
Desmanchas-me ...
Tu que és um escritor de eleição, um poeta tão especial, de arte tão excepcional a dizeres essas coisas de mim que apenas ensaio escrever ...
Bom, OBRIGADA e feliz 2011 para ti meu querido amigo.

Um beijo

Maria

Pata Negra disse...

Cada vez ando mais baralhado, julgava que tinha comentado, que tinha deixado as boas festas. Vou ler já venho!

Pata Negra disse...

Já li. É um belo conto que revela uma outra Maria. Aguardo novo episódio! Afinal não tinha lido.
(tenho a net a falhar constantemente há alguns tempos - por vezes interrompe-me o teclicismo - vou ter de comprar outro aparelho)

Um beijo de Natal

MARIA disse...

Majestade,é sempre muito bom vê-lo neste espaço, mas mesmo quando não possa estar ou comentar, sabe que estará sempre.
Mais que um ano extraordinariamente feliz, eu desejo-lhe que seja feliz este novo ano e todos os que se lhe seguirem.
Espero que realize os seus sonhos mais bonitos.
Vou incluí-lo nos desejos das "passinhas de uva" à meia noite do dia 31 para, designadamente, continuar a ler a sua escrita extraordinária!

Um beijinho muito amigo.

Maria

Zé Povinho disse...

Acabei de ler o conto de Natal, já depois da data. Gostei do estilo e do conto, que retrata um país imaginário, que terá muito de real para quem conhece a Justiça e a vida. Ainda bem que deixou o epílogo a cargo do leitor, que assim pode adocicar ou não, o destino da Madalena.
Nota: O programa informático...
Desejos de um Bom Ano de 2011 e um abraço do Zé

José Lopes disse...

Boas entradas neste ano de 2011
Cumps

MARIA disse...

Meu querido amigo Zé Povinho, muito obrigado.
Bom ano de 2011 para si e os seus.
A parte mais real do conto é a que não foi contada.
Ainda não foi escrita, porque ainda está por decidir... como a vida ... que se decide cada dia surpreendentemente para todos nós.

Talvez um dia ainda escreva esse final, quem sabe ?!

Um beijinho amigo
Maria

MARIA disse...

Guardião, meu estimado amigo, muito obrigada.
Entrar já entramos, falta apenas viver 2011 como merecemos.
Que seja um ano cheio de coisas boas e felizes!

Um beijinho
Maria