Tal como prometera a Mírian, logo pela manhã seguinte, em horário em que as portas principais do Palácio permitiam a troco de um bilhete de visitante a entrada e visita aos seus jardins, Maria dirigiu-se ao Palácio e pediu na recepção um bilhete para visita ao exterior do monumento.
A verdade é que a visita à parte habitada pela extinta monarquia que ali fizera casa, também era possível embora a preço superior.
A verdade é que a visita à parte habitada pela extinta monarquia que ali fizera casa, também era possível embora a preço superior.
Mas num dia tão pouco convidativo ao ar livre e em época natalina o homem da recepção estranhou a opção da jovem.
Olhou Maria de alto a baixo como quem perscruta em busca de um ilícito e perguntou :
- Mas que vai a menina fazer ao frio, logo de manhã ali para fora?
Maria conteve o impulso que a assaltou a responder, nada ter ele a ver com isso e de angelical sorriso, olhar doce, fixou nos olhos o homem e balbuciou :
- É fotografia… ando a estudar e os professores pedem fotos de horas várias do dia e como imagina, aqui os jardins proporcionam fotografias maravilhosas.
O homem abriu um sorriso aliviado e esclarecido, entregou o bilhete a Maria e ficou a vê-la afastar-se, penetrando o jardim, seguindo-lhe os movimentos das ancas com o olhar de um dia de verão.
Assim que se viu fora do alcance do seu olhar, Maria embrenhou-se em direcção ao rio, pela mata do palácio. Tinha de Mírian a referência de que a pequena ponte que Vítor adoptara para pernoitar e viver se situava já na fronteira da mata com a estrada, aonde a presença de máquinas denunciavam trabalhos, talvez a preparar o alargamento da via .
Apesar das luvas, tinha as mãos geladas, o peito apertava um pouco à apreensão do que encontraria.
Finalmente avistou a pequena ponte. Debaixo dela vários cartões amarelados, um cobertor escuro e um caixote de cartão de onde um pequeno cão surpreendido pela presença estranha irrompeu em toada de guerra.
Olhou Maria de alto a baixo como quem perscruta em busca de um ilícito e perguntou :
- Mas que vai a menina fazer ao frio, logo de manhã ali para fora?
Maria conteve o impulso que a assaltou a responder, nada ter ele a ver com isso e de angelical sorriso, olhar doce, fixou nos olhos o homem e balbuciou :
- É fotografia… ando a estudar e os professores pedem fotos de horas várias do dia e como imagina, aqui os jardins proporcionam fotografias maravilhosas.
O homem abriu um sorriso aliviado e esclarecido, entregou o bilhete a Maria e ficou a vê-la afastar-se, penetrando o jardim, seguindo-lhe os movimentos das ancas com o olhar de um dia de verão.
Assim que se viu fora do alcance do seu olhar, Maria embrenhou-se em direcção ao rio, pela mata do palácio. Tinha de Mírian a referência de que a pequena ponte que Vítor adoptara para pernoitar e viver se situava já na fronteira da mata com a estrada, aonde a presença de máquinas denunciavam trabalhos, talvez a preparar o alargamento da via .
Apesar das luvas, tinha as mãos geladas, o peito apertava um pouco à apreensão do que encontraria.
Finalmente avistou a pequena ponte. Debaixo dela vários cartões amarelados, um cobertor escuro e um caixote de cartão de onde um pequeno cão surpreendido pela presença estranha irrompeu em toada de guerra.
Mais nada, mais ninguém.
Maria recordou-se que tinha ainda na sua mala de mão, da noite anterior , acomodadas numa pequena folha de alumínio, duas fatias de bolo e uns doces que Mirian insistentemente lá colocara antes de abandonar a reunião.
Maria recordou-se que tinha ainda na sua mala de mão, da noite anterior , acomodadas numa pequena folha de alumínio, duas fatias de bolo e uns doces que Mirian insistentemente lá colocara antes de abandonar a reunião.
Calmamente abriu a mala, puxou uma bolinha doce que se afigurava a um sonho e estendendo serenamente a mão resolveu negociar a sua passagem com o cão.
- Olá, olha não vou fazer-te mal. Anda cá... olha que coisa boa aqui tenho para ti...
Mas o animal ladrava ferozmente tudo indicando que nem com doces passaria dali.
Sentou-se então no solo e estendeu a mão.
- Olá, olha não vou fazer-te mal. Anda cá... olha que coisa boa aqui tenho para ti...
Mas o animal ladrava ferozmente tudo indicando que nem com doces passaria dali.
Sentou-se então no solo e estendeu a mão.
Insistiu:
- Toma, não vou fazer-te mal…
Propositadamente manteve o sonho na mão para que o animal sentisse o cheiro da sua pele e assim foi.
- Toma, não vou fazer-te mal…
Propositadamente manteve o sonho na mão para que o animal sentisse o cheiro da sua pele e assim foi.
Ele comeu o doce e brindou-a com uma lambidela prolongada à palma da mão ainda estendida.
Distraída assim, a rapariga, não notou a aproximação de Madalena.
Madalena era uma mulher alta de ventre dilatado, traços pálidos, andrajos vários.
Distraída assim, a rapariga, não notou a aproximação de Madalena.
Madalena era uma mulher alta de ventre dilatado, traços pálidos, andrajos vários.
Abeirou-se de Maria e apontou-lhe o bico de uma navalha de formas pouco comuns para quem está na rua.
Mais parecia uma pequena arma de colecção, apesar do mau trato e de alguma ferrugem já visível.
- Como é que conseguiste dominar o meu cão, cabra ?!...
Não penses que ficas com este canto. É meu.
Maria já sabia que lidar com uma pessoa que perdeu tudo, até mesmo a dignidade e a esperança, era uma actividade de risco em que tudo podia acontecer, pois tudo se pode esperar quando se deixa uma pessoa em situação de nada mais ter a perder.
Serenamente respondeu que não estava ali pelo seu lugar .
- Como é que conseguiste dominar o meu cão, cabra ?!...
Não penses que ficas com este canto. É meu.
Maria já sabia que lidar com uma pessoa que perdeu tudo, até mesmo a dignidade e a esperança, era uma actividade de risco em que tudo podia acontecer, pois tudo se pode esperar quando se deixa uma pessoa em situação de nada mais ter a perder.
Serenamente respondeu que não estava ali pelo seu lugar .
Pediu-lhe que sentasse e então lhe contaria como conquistara o cão e o que viera fazer.
Madalena cedeu antes do que Maria previra, ao raciocínio : “se o cão a aceitou, não é má praça “
Então, já ambas sentadas sobre o cartão, amparando-se às paredes da ponte que defendiam Madalena das grandes chuvas, Maria contou que dera o bolo ao cão.
Madalena perguntou-lhe :
- Tens mais ?
Maria puxou o papel de alumínio e entregou-lhe tudo o que ali tinha e que avidamente Madalena recebeu.
Viu-a comer sofregamente e só depois lhe perguntou se sabia de Vítor, contando-lhe porque o procurara.
Esse, respondeu Madalena, quando foi pedir ajuda a Mírian em Novembro, bem lhe disse que guardar abafos para lhe ofertar no natal, por ser natal, seria tarde e foi.
Madalena cedeu antes do que Maria previra, ao raciocínio : “se o cão a aceitou, não é má praça “
Então, já ambas sentadas sobre o cartão, amparando-se às paredes da ponte que defendiam Madalena das grandes chuvas, Maria contou que dera o bolo ao cão.
Madalena perguntou-lhe :
- Tens mais ?
Maria puxou o papel de alumínio e entregou-lhe tudo o que ali tinha e que avidamente Madalena recebeu.
Viu-a comer sofregamente e só depois lhe perguntou se sabia de Vítor, contando-lhe porque o procurara.
Esse, respondeu Madalena, quando foi pedir ajuda a Mírian em Novembro, bem lhe disse que guardar abafos para lhe ofertar no natal, por ser natal, seria tarde e foi.
Vítor morreu e eu fiquei com este cantinho para mim.
Desolada Maria tinha por cumprida a sua missão e só pensava como ia contar aquilo à bem intencionada Mírian.
Desolada Maria tinha por cumprida a sua missão e só pensava como ia contar aquilo à bem intencionada Mírian.
Preparava-se para partir quando olhando bem para Madalena teve a percepção de que estaria grávida.
Embora estivesse mal tratada, Maria observando Madalena reparava que tinha dentes fortes, bonitos, como se habitualmente cuidados. A sua pele denunciava o trato dos cuidados que as mulheres prestam ao rosto, os cabelos estavam presos em rabo de cavalo mas eram claramente fortes e ainda detinham o brilho dessa mesma espécie de cuidados.
Porque estaria uma mulher como Madalena, talvez a rondar os 40 anos de idade, a viver ali?
Seria uma dependência de droga que ali a conduziu ?
Não queria partir e deixá-la.
Embora estivesse mal tratada, Maria observando Madalena reparava que tinha dentes fortes, bonitos, como se habitualmente cuidados. A sua pele denunciava o trato dos cuidados que as mulheres prestam ao rosto, os cabelos estavam presos em rabo de cavalo mas eram claramente fortes e ainda detinham o brilho dessa mesma espécie de cuidados.
Porque estaria uma mulher como Madalena, talvez a rondar os 40 anos de idade, a viver ali?
Seria uma dependência de droga que ali a conduziu ?
Não queria partir e deixá-la.
Falou-lhe do Lar do Colégio, que podia lá fazer refeições, pelo menos uma sopa diária e quem sabe pernoitar.
Afinal Mirian precisava tanto de ajuda permanente. Poderia dar-lhe trabalho no Lar.
Mas Madalena resistia.
Mas Madalena resistia.
A dada altura observou Maria de alto abaixo e perguntou-lhe :
- Quantos anos tens ? E o que fazes?
Maria respondeu com desagrado. Sempre lhe incomodou falar de si, mas pareceu-lhe o mais sensato, face às circunstâncias :
- Vou fazer 18 e entrei agora para o curso de direito.
- Ah, estou a ver. Um “anjinho” crente de que vai mudar o mundo.
Escuta o que te digo, sai de direito, vais sofrer muito. És uma boa miúda por isso te digo. Quem vai para direito e se mete em teias de poder não pode ser como tu. Serás esmagada.
Maria ouvia-a perplexa, sem ousar perguntar porque o afirmava, mas o seu olhar denunciando o seu pensamento, obteve pronta resposta de Madalena.
- Quantos anos tens ? E o que fazes?
Maria respondeu com desagrado. Sempre lhe incomodou falar de si, mas pareceu-lhe o mais sensato, face às circunstâncias :
- Vou fazer 18 e entrei agora para o curso de direito.
- Ah, estou a ver. Um “anjinho” crente de que vai mudar o mundo.
Escuta o que te digo, sai de direito, vais sofrer muito. És uma boa miúda por isso te digo. Quem vai para direito e se mete em teias de poder não pode ser como tu. Serás esmagada.
Maria ouvia-a perplexa, sem ousar perguntar porque o afirmava, mas o seu olhar denunciando o seu pensamento, obteve pronta resposta de Madalena.
- Meu marido estudou direito.
Pertenceu à Polícia, já eu esperava bebé e ele desenvolvia a sua gravidez de justiça e solidariedade. Foi cursar direito.
Pertenceu à Polícia, já eu esperava bebé e ele desenvolvia a sua gravidez de justiça e solidariedade. Foi cursar direito.
Tantas privações, tantas dificuldades passamos para que ele concretizasse esse seu sonho. Depois quis mais, inscreveu-se no curso de formação de Magistrados e foi admitido à Magistratura que procede à investigação de crimes.
Achava que defenderia o mundo da criminalidade e o faria um lugar melhor.
-Sim ?!...
Irrompeu Maria expectante pela continuação daquela estória de vida que parecia tocar-lhe tanto.
- Espere, vou buscar ao Lar chocolate quente e agasalhos e volto.
Achava que defenderia o mundo da criminalidade e o faria um lugar melhor.
-Sim ?!...
Irrompeu Maria expectante pela continuação daquela estória de vida que parecia tocar-lhe tanto.
- Espere, vou buscar ao Lar chocolate quente e agasalhos e volto.
Quero que me conte tudo, por favor, Madalena, promete ?!...
Continua ....
Leia a 1ª Parte deste conto aqui :
http://marianoreinodeesther.blogspot.com/2010/12/era-uma-vez-um-pais-aonde-o-natal-era.html
6 comentários:
Olá amiga MARIA
UM BELO CONTO NATALÍCIO! ADOREI!
MEUS VOTOS DE UM FELIZ NATAL E UM NOVO ANO 2011 DE PAZ, FELICIDADE E AMOR.
BEIJOS
ALVARO
Olá meu querido amigo. Falta ainda a última parte do mesmo.
Depois então melhor me dirá, mas agradeço muito a amabilidade da sua visita e o seu comentário.
Um beijinho sempre amigo.
Bom natal, para si e para os seus.
Maria
Vamos ver o que terá a senhora para contar e se é satisfeita a curiosidade da rapariga.
Cumps
Meu querido amigo Guardião, vamos ver o que conta a Senhora. Não deve ser fácil, porque a senhora provém de um País imaginário aonde coisas acontecem que graças a Deus que vivemos em democracia, e nos vinculamos internacionalmente a direito internacional que garante que o funcionamento das nossas instituições se faz com justiça e respeito pela legalidade e pela pessoa humana, se calhar não vamos sequer alcançar muito bem. Mas vamos ver o que vem a concluir a rapariga das palavras da Senhora.
Agradeço a leitura, meu querido amigo. Um beijinho amigo
Bom natal.
Maria
Ficamos à espera da conversa do conto sentados no conforto do cartão - quem sabe de Natal.
Bela história de Natal. Amor e Boas Festas todo o ano e pelo corpo todo!
Majestade, como sempre desconcertante ...
Restar-me dirigir a Vª Majestade os votos de época da praxe : que sejam boas as festas !
Um beijinho amigo
Maria
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