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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Fado


Muitas vezes me perguntam como é que eu, não tendo nascido em Lisboa, desenvolvi gosto tão particular pelo fado, a ponto de o cantar em público, em determinada fase da minha vida.
Também se diz que tudo na vida tem uma lógica explicação.
Eu disso nada sei, mas sei que a primeira vez que experimentei cantarolar uns acordes de fado, o fiz, a apelos de uma pessoa muito especial na minha vida.
Uma pessoa inesquescível, insubstituível. Alguém que não estando mais aqui, jamais deixa de permanecer comigo. Alguém que jamais esqueço, porque me é característica a impossibilidade de esquecer quem amo.
Aos quatro anos de idade uma meningite severa cegou-o e limitou-o muito nas suas capacidades físicas e cognitivas.
A sua idade mental manter-se-ia sempre aproximadamente nos seus quatro anos de idade, porém as suas capacidades psíquico-emocionais eram contudo, fabulosamente desenvolvidas.
Nasceu no mês de Novembro, por certo em dia inundado pelos céus de chuvas purificadoras, água, que lhe conferiu um carácter de uma sensibilidade e doçura extremas. Uma capacidade de amar e de se doar de verdadeira excepção.
O toque suave e terno das mãos que lhe serviam de olhos, sobre o meu rosto,sobre os meus cabelos, era uma emoção que sempre que relembrada me trás ainda hoje muita paz.
Este meu irmão cedo desenvolveu um gosto extraordinário pela música.
O meu pai comprou-lhe uma"telefonia", mais tarde substituída por um "gira-discos-gravador" e depois por uns aparelhos mais actuais que tocavam junto dele todas as horas do dia em que se mantinha acordado.
Além disso, tinha as suas flautas e gaitas, o acordeão e a guitarra do pai.
O pai cantarolava muito fado de Coimbra, mas ele ouvia na sua rádio os fados de Lisboa, tão em voga à época e definia preferências por cantores, vozes e modos de interpretar que cuidava de cândidamente imitar.
Alguns fadistas e cantores portugueses foram-me dados a conhecer por ele. Penso por exemplo em Marceneiro, Amália, Carlos Ramos, Fernanda Maria, Manuel Almeida, Tony de Matos e tantos outros de quem ele guardava uma ou outra canção que por motivo insuspeito o mais marcasse.
Habitualmente ouvia música indistinta e cantava-a como a escutava.
Recordo-o cantando expressivamente o "Tombe la neige" de Adamo ou o "Ne me quitte pas" e o "Prinstemps" de J. Brel e de se empolgar muitíssimo com o "My way" interpretado por Sinatra.
Em geral, cantarolava um pouco de tudo e até os Autores clássicos eram corridos nas suas melodias a assobio que afinadamente repetia e seguia de forma espantosamente harmoniosa.
Assim que me aproximava dele cruzava uma das mãos entre os meus dedos e pedia-me para cantar e o acompanhar nas suas cantigas.
Ao início era complicado, pois desconhecia quase todas as letras e não achava muita graça às melodias.
A minha mãe sentava-se junto de nós e dava o mote para eu seguir e compreender o "gosto dele", costumava habitualmente dizer-me.
- Nada custa seres um pouco generosa com ele, dizia-me também.
Arranjei um caderno aonde comecei a coligir letras que ele gostava e em pouco tempo divertiamo-nos muito cantando juntos.
As minhas colegas de escola que tinham alguma reserva inicial em relação à sua doença, facilmente integraram comigo, pouco tempo após o conhecer, um grupo coeso sempre pronto para a cantoria e foram muitas as tardes de poemas, músicas, cantigas e dança que partilhamos todos.
Até ao último dia de sua vida o meu irmão José cantou.
Pedia-me tantas vezes para cantar e tocar para ele o tema de Carlos Ramos "Não venhas tarde".
Seria premonitório, talvez...
Nessa noite, cheguei tarde...
Hoje, passeando pelo Youtube e pela rede encontrei alguns temas que seriam para ele uma preciosidade:
Aqui ,




e também aqui e aqui


Ficam por aqui e eu saio agora, pois bem vistas as horas, é tarde e ouve-se bem já o som do silêncio....


Maria

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Pequena dor

Não convidei esta pequena dor,
Mas ela entrou...
Atravessou o pátio principal, abriu a porta,
Chegada à sala,
Sentou-se nos sofás da minha alma, vazia de ti.
Dividiu comigo refeições, à mesa,
Experimentou todos os assentos.
Leu por mim os livros que não consigo ler,
Escreveu-me palavras que não sei dizer.
Brincou com o sal das minhas lágrimas,
Para encher de mar a minha cama fria.
Então à noite, enquanto estou desperta,
Ela vem de mansinho, aninha-se à coberta
Mostra-me desenhos de escassos momentos,
Fracções intemporais de sentimentos
Em que com a tua boca,
Descobriste de ternura a minha pele
Entre os teus dedos prendeste os meus cabelos,
E eu conheci a textura da tua mão
Doce e suave sobre o meu peito nu.
E a tua boca sabia tanto a mel.
Esta pequena dor canta-me sempre,
Palavras de saudade e de lamento
E é tanta a agonia e o tormento
Que terei de a jogar fora
Pô-la, indelicadamente, na rua da alma
Quebrar o encantamento.
Se por força,
Não vencer esta pequena dor tão sobranceira:
pois que ela quer que morra, queira, não queira...
Se eu não vencer esta pequena dor
Talvez que ela me vença a vida inteira...

Maria