domingo, 19 de julho de 2009

Alma cigana


Aos sábados é comum verificar grande afluência de pessoas às compras pelas variadíssimas feiras que se realizam um pouco por todo o país.


São pessoas das mais variadas condições sociais e extractos culturais.


Muitas procuram umas mãos cheias de trapos de aparente "marca", a preço cigano, para marcar presença social de aparente requinte e "ciganamente" aparentar um estatuto económico que não têm. A imagem da aparência de quem se mede pelo nome que carrega nos trapos com que tapa a sua nudez elementar.


As polícias levantam autos pela contrafacção, pela violação dos direitos da marcas, todos cientes : ciganos, polícias, consumidores, julgadores e legislador que aos preços ali praticados e oferecidas as marcas, não são originais das mesmas, os produtos em causa ali á venda.


Em último caso, correndo mal, paga o cigano vendedor...


É vê-los, desafiando as normas e as regras, por um pão para os filhos, a oferecer os seus produtos .


Confesso que uma impressão dualista me avassala à presença daquelas forças da natureza, malabaristas da palavra cuja arte nunca lhes foi ministrada, artífices de construções mentais psicologicamente apelativas, empatizantes...


Num recanto da feira, a preços característicos do evento, vendiam-se flores de época prontas a replantar. Era o que a mãe pretendia comprar.


Em frente à banca das flores uma ciganita franzina aparentando funcionar a pilhas recarregáveis de longa duração apregoava : tudo a 5 e a 10 €... vamos senhoras ... três peças a 10,00€. ...


De repente levantou uma blusa de um vermelho carmim impressionante e dirigindo-me o olhar disse :


-Para ti... é mesmo para ti princesa, é a tua cara...


Sorri com toda a simpatia que consegui e disse-lhe discretamente : obrigada, talvez outra vez...


Ela insistia : - estava mesmo á tua espera esta blusa...


Isto é para vestir uma rainha cigana ...


Voltei a sorrir e procurando dignificar o cumprimento que me fazia disse-lhe : serei cigana talvez, mas não rainha. Não vou comprar.


Deixa-me então ler a tua mão. É só um Euro (um "ero") cada pergunta que queiras fazer.


Sorri tocada com a sua capacidade de luta para ganhar alguma coisa , mesmo face ao cenário de que nenhuma porta se abriria.


Estendi-lhe a mão direita e disse-lhe: vê o que quiseres.


Pegou-me na mão esquerda. Palpou traços, linhas, montinhos, pequenos sinais na mão...


És linda ! Disse-me.


Está escrito na minha mão? perguntei a sorrir...


Não, és linda no coração, na cabeça. És boa, és inteligente. Vejo-te a trabalhar num lugar escuro, de gente mais cigana do que eu.


Sofres com a maldade dos outros. Sofres muito com a hipocrisia, a traição, a mentira.


Sofres muitas invejas.


-Como ? Perguntei. Nada tenho de invejável.


-Tudo. Tu tens tudo.


E tens um amor atravessado na linha da vida que seguirá contigo até á morte...


-Um amor, perguntei ? Não creio ...


-Mentirinha ... sabes que tens e ele também sabe que te tem ...


- Mas não gosta de mim ?


-AHHHH... és mesmo cigana... São 5 € ...








O POVO CIGANO - Retirado daqui :

"Os estudos genéticos e lingüísticos parecem confirmar que os roma são originários do subcontinente Indiano, possivelmente da região do Punjab. A causa da sua diáspora continua sendo um mistério. Algumas teorias sugerem que foram originalmente indivíduos pertencentes a uma casta inferior recrutados e enviados a lutar ao oeste contra a invasão muçulmana. Ou talvez os próprios muçulmanos conquistaram os roma, escravizando-os e trazendo-os para o oeste, onde formaram uma comunidade separada.

Esta última hipótese baseia-se no relato de Mahmud de Ghazni, que informa sobre 50 mil prisioneiros durante a invasão turco-persa do Sindh e do Punjab. Por que os roma escolheram viajar para o oeste em vez de regressar para a sua terra é outro mistério, se bem que a explicação pode ser o serviço militar sob o domínio muçulmano.

O que é aceite pela maioria dos investigadores é que os ciganos poderiam abandonar a Índia em torno do ano 1000, e atravessar o que agora é o Afeganistão, Irã, Armênia e Turquia. Vários povos similares aos ciganos vivem hoje em dia na Índia, aparentemente originários do estado desértico de Rajastão, e à sua vez, povoações ciganas reconhecidas como tais pelos próprios roma vivem, todavia, no Irã, com o nome de lúrios.

Partiram em direção à Pérsia onde se dividiram em dois ramos: o primeiro, que tomou rumo oeste, atingiu a Europa através da Grécia; o segundo partiu para o sul, chegando à Síria, Egito e Palestina. No século XII, os ciganos enfrentaram o avanço dos muçulmanos, que tentaram impor sua religião na Índia, e lutaram contra os Sarracenos por muitos séculos, inclusive durante a Idade Média.

Apesar de que as provas documentais começam a ser fiáveis só a partir do século XIV, alguns autores contemporâneos rebaixaram a data do ano 1000 e inclusive antes. Certas referências sugerem que as primeiras referências escritas da existência do povo rom são anteriores: um texto que relata como Santa Atanásia de Egina repartiu comida em Trácia a uns "estrangeiros chamados atsinagi" (do grego Ατσίνγανος') durante a escassez do século IX, em plena época bizantina.

Inclusive antes, nos primórdios do mesmo século, no ano 803, Teófanes o Confessor escreve que o imperador Nicéforo I usa mão de obra de certos atsigani, que com a sua magia, ajudariam-no a conter uma revolta popular.

"Atsinganoi" foi um termo usado também para referir-se a adivinhadores ambulantes e ventríloquos e feiticeiros que visitaram ao imperador Constantino em 1054. Um texto hagiográfico ("Vida de São Jorge anacoreta") refere como os "atsigani" foram chamados por Constantino para ajudá-lo a limpar as fragas de feras. Mais tarde, seriam descritos como feiticeiros e malfeitores e acusados de intentar envenenar o galgo favorito do imperador. A extensão desse termo geraria os modernos substantivos tzigane, Zigeuner, zingari e zíngaros.

Um relato histórico-lendário do século X titulado Crônica Persa, de Hazma de Ispaham, menciona a certos músicos solicitados ao rei da Índia, aos que chamou zott. O Livro dos Reis (ou Shahnameh, datado de 1010), do poeta Ferdusi conta uma história similar: vários milhares de Zott, Rom ou Dom ("homens") partiriam do atual Sindh (pode ser do rio Indo) com objetivo de entreter o rei da Pérsia com os seus espetáculos.

A partir daí, depois de uma longa estância nessa região, e já descritos como um povo que rejeitava viver da agricultura, espalhariam-se em dois grupos migratórios: o primeiro, que tomou rumo oeste, atingiu a Europa através da Grécia; o segundo partiu para o sul, chegando à Síria, Egito e Palestina "





Maria

8 comentários:

Anónimo disse...

Maria,
Tinha a cigana razão.
Rainha és sem dúvida nenhuma.
Ainda que tragas os pés descalços para não magoar o mundo situado abaixo deles ...
Aposto que não foi na mão (só na mão) que ela viu o quanto és linda, por fora, mas especialmente, por dentro.

Narrador disse...

Tu tens um afecto estranho, uma ligação quase kármica aos romi não?!...
Vê : http://umpirilamponojardim.blogspot.com/2009/07/o-despeito.html
no blog do RMadruga.
Aproveitei uma ideia tua num post teu de há uns tempos a que achei piada.
Bjinho

Eduardo disse...

Maria e quando decides pôr em vídeo um pouquinho de dança cigana ou outra dançada por ti?
Isso sim, era bem vindo ...
A tua cabecita é de tal criatividade que das mais simples coisas da vida, fazes uma história maravilhosa.

xoxinhos querida

MARIA disse...

Agradeço muito o amável comentário anónimo.

MARIA disse...

Pois tenho , sabes que sim.
Já vi que me linkaste no post que fizeste no Madruga. Muito obrigada.
Bjinhoss

MARIA disse...

Sabes porquê que o não faço Eduardo.
Porque esses momentos são reservados a um único par de olhos.
:-)

bjinhossss

António disse...

Também os admiro como à Autora deste blog, tão especial, lugar de bom gosto, lugar de paz, lugar de festa para os sentidos, beleza, sensibilidade, sensualidade, inteligência e sabedoria.

Bem haja Maria, que nunca lhe falte inspiração para blogar, agora que a descobri.

Cumps

MARIA disse...

António, muito OBRIGADAAAA.
volte, será um prazer.

Um beijinho.