domingo, 4 de agosto de 2013

DESPEDIR OU DESTRUIR ?...



 

Nota : Esta publicação tem por motivação próxima uma decisão judicial que por não ordenar o despedimento de dois trabalhadores de recolha de resíduos (lixos) que foram encontrados a trabalhar embriagados tem sido alvo de duríssimas críticas. Julgo ter sido a única voz a fazer-se ouvir-se no sentido de concordar com o não despedimento , posto não estar em causa condenar por beber, mas avaliar se essas pessoas e em particular a que não era condutora deve manter ou não  o direito a trabalhar depois de praticar tal falta. A minha posição cinge-se a este não condutor. O condutor foi julgado seguramente pelo crime, talvez devesse indemnizar a empresa pelos danos. Perder o emprego, mesmo ele, não sei ...



 
 
 A PENA DISCIPLINAR DE DESPEDIMENTO
 
Conta-se que em certa escola de formação de julgadores uma vez um dos Mestres levou toda a uma turma de formandos (que estavam a ser preparados para ser Magistrados) ao interior de uma das cadeias do seu Estado.
Em extensos corredores gradeados, em selas de uma dimensão aproximada de 2 metros , pouco mais que 1 metro e meio, acumulavam-se homens, deitando-se sobre beliches sobrepostos.
Aos 3, 4, nesse mesmo espaço  não arejado por uma janela sequer.
Em algumas era visível uma vasilha de lata aonde se acumulavam detritos de vomitados e de de fezes aparentemente.
Um dos homens apresentava um corte no rosto e à boca pequena sussurava-se que durante a noite ao tentar evitar ser violentado por um companheiro de sela , assim se ferira.
Em todos os formandos era manifesto o incómodo, a necessidade extrema de saírem dali.
Foi então que esse  GRANDE MESTRE em cuja sabedoria da vida me permito louvar-me para escrever estas palavras , lhes disse :
-TODAS AS VEZES QUE AMANHÃ NUM TRIBUNAL VOSSO ENVIARDES UM HOMEM PARA UMA PRISÃO, PONDERAI BEM, PONDERAI MUITO BEM SOBRE O QUE ELE FEZ E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS, POIS NÃO DEVEM ESQUECER QUE É PARA AQUI OU SIMILAR QUE O MANDARÃO.
 
Introduzi esta pequena história para me permitir perguntar às pessoas de boa formação e consciência se SABEM REALMENTE O QUE ESTÃO A FAZER QUANDO CONDENAM UMA PESSOA, UM TRABALHADOR, À PENA DE DESPEDIMENTO ?
SABEM OS SENHORES E AS SENHORAS AO QUE ESTÃO A REMETER ESSE HOMEM E A SUA FAMÍLIA ?
Será que se incomodam em querer saber ? Ou é indiferente ?
No direito do trabalho, todos os sabemos, há normas disciplinares. Quando um trabalhador viola uma norma disciplinar pode ser punido pela entidade patronal com várias penas disciplinares que vão desde uma solene advertência, ao pagamento de uma multa e indemnização, por exemplo, a uma suspensão de actividade mais ou menos prolongada,  a uma inactividade, etc, etc,as quais serão escolhidas tendo em conta a gravidade do que fez o trabalhador, as lesões ou consequências que a sua acção em concreto acarretou à empresa, as suas circunstâncias pessoais, designadamente a sua capacidade para discernir a gravidade da conduta e adequar-se a esse juízo e outras circunstâncias pessoais que possam ter levado aquela pessoa a agir daquela forma.
O DESPEDIMENTO É A ÚLTIMA DAS PENAS DISCIPLINARES a aplicar, só tem vez quando é completamente improvável que aquele trabalhador, superado esse erro, se mostra incapaz para prestar a sua função.
E porque é a última ? PORQUE É DEGRADANTE (1)! QUASE TANTO QUANTO UMA PENA DE PRISÃO PODE SER!
Aquele homem dentro de pouco tempo não poderá pagar a renda da sua habitação, nem as contas de electricidade, da água, do gaz. Ele quererá fazer comida para seus filhos, pagar-lhes o transporte até uma escola aonde chegarão sem uma refeição prévia sequer, quando chegam e não poderá. Desesperadamente procurará outros empregos num País aonde pululam milhares de pessoas nas mesmas circunstâncias, implorará a amigos, procurará Instituições e quem sabe até Madame Jonet lhe não  mande ao mês uma embalagem de grão e feijão, uma massa, um arroz, um litro de azeite e então um dia ele contará os cêntimos que lhe restam e verificará que não pode comprar sequer dois pequenos pães ou um prosaico rolo de papel higiénico, para não ir mais longe.
QUANDO ENCHEREM O PEITO E A VOZ DAS RAZÕES DA VOSSA PERFEIÇÃO HUMANA PARA CONDENAR UM ERRO ALHEIO A ESTA PENA, LEMBREM-SE QUE É A ISTO QUE CONDENAM, É A ISTO QUE ESTÃO A UNIR AS VOSSAS FORÇAS…
O combate ao consumo do álcool  passa por um trabalho de toda a comunidade consciente que trabalha a auto estima e a educação dos seus cidadãos, não por retirar o emprego a uma pessoa que num momento infeliz , nem sabemos porque razões, se embriagou.
E já agora não posso deixar de colocar ainda esta questão : todos temos filhos, alguns na adolescência, jovens. Vamos imaginar numa saída com amigos ele bebe um pouco além da conta. Sabe que será conduzido por um amigo e que esse estará sóbrio e capaz de assegurar a condução em segurança. Seria certo que o vosso filho , que não era o condutor, por se ter limitado a viajar ao lado dele fosse submetido a um teste de álcool no sangue e que depois quem sabe num litígio  pela guarda de um filho a companheira viesse com esse teste  questionando a sua capacidade para ser bom pai ? Por exemplo ?
Porque é que uma pessoa que não está a conduzir é submetida ao teste do álcool ?
As coisas devem ser contextualizadas. O mais simples é atirar pedras aos outros face à nossa incapacidade para construir o mundo ideal que todos desejamos.
Porque é fim de semana e para os pacientes, para os que ainda se incomodam, fica este filme para que repensem as vossas verdades.
Ninguém está a fazer a apologia do álcool. Apenas se diz que um erro não deve dar lugar à lapidação. E se deve, pois sejam vós os puros, a atirar as primeiras pedras!
 
 
 
 

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